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Ilustração: Microsoft Design/Feito por IA
Edição 307

Músicos artificiais

Indignação com cantores e atores criados por inteligência artificial revela um festival de hipocrisia

Você já ouviu a voz de Sienna Rose? É a voz suave de uma cantora de soul music: cheia de sentimento, convida a uma dança com quem você ama, rostos colados, suspiros de paixão. Ou a um momento de paz solitária com uma taça de vinho nas mãos. “Sua voz é um rio que me atrai, lavando todo vestígio de medo”, diz a letra de seu maior sucesso, “Into the Blue”. “Fecho os olhos e me deixo levar pela sua correnteza. O amor parece infinito com você ao meu lado”.

E Breaking Rust, você conhece? Com sua roupa de cowboy, a voz enferrujada pela poeira e pelo bourbon, ele pisa com firmeza no chão do saloon, arrastando sua experiência de vida. “Já apanhei muito, mas não me deixo abater”, canta Rust com voz rouca em Walk My Walk. “Tenho lama nas calças, mas ainda estou pronto para a luta. Cada cicatriz é uma história de superação. Passei pelo inferno, mas ainda estou vivo.”

A verdade: nem Sienna Rose se deixa levar pela correnteza, nem Breaking Rust tem cicatrizes. Os dois cantores não existem. São criações de inteligência artificial. E estão fazendo o maior sucesso. 

Hoje qualquer um pode fazer música usando IA. Já havíamos comentado na Oeste sobre a banda igualmente artificial Velvet Sundown em junho de 2025. Segundo levantamento da BBC, Into the Blue já ultrapassou a marca dos 5 milhões de execuções nos serviços de streaming. Várias outras músicas de Sienna Rose entraram na lista das Top 50 do Spotify. 

Em apenas quatro meses, de setembro a dezembro de 2025, foram lançados dez álbuns de Sienna. Sua aparência foi mudando nesse período, o que reforça sua artificialidade. Os primeiros lançamentos traziam na capa dos discos uma ruiva pálida, que depois se transformou numa morena. genero r ero R&B. Sienna Rose, de qualquer maneira, foi tratada como uma impostora, uma fraude, um sinal do fim dos tempos.

Foto: Reprodução

“Essa música não tem alma”

O “cantor” Breaking Rust multiplicou a fúria entre especialistas, músicos e a mídia em geral. Seu maior pecado foi ter chegado ao primeiro lugar em vendas na parada de Canções Digitais Country da revista Billboard. Outras oito músicas entraram na parada popular. O que tornou seu sucesso imperdoável. Um exemplo do linchamento está na resenha do crítico Billy Dukes, do site Taste of Country: “Uma palavra para descrever Walk My Walk, do Breaking Rust, seria ‘genérica’. Não há nada de ofensivo na música. Ouvir essa canção repetidas vezes revela suas falhas. Ela simplesmente não tem nenhum significado. Essa música não tem alma.”

“Parece o atalho definitivo para o estrelato”, escreveu Leslie Fram, uma consultora de música country de Nashville. “Nada de noitadas em bares esfumaçados, nada de vulnerabilidade crua derramada nas letras, apenas algoritmos processando dados para imitar o sotaque da autenticidade.”

O site de música alternativa Bandcamp declarou que não vai aceitar composições de IA. Artistas como Paul McCartney, Kate Bush e Annie Lennox se reuniram no ano passado para lançar um álbum em vinil sem nenhum som chamado Is This What We Want? (“É isso que nós queremos?”). Era um “protesto contra sistemas de IA que extraem, copiam e reempacotam trabalhos criativos sem permissão ou compensação”. Acredite se quiser, esse disco sem som atingiu o 38º lugar nas paradas britânicas em fevereiro de 2025. 

O compositor Michael Price sugeriu que as plataformas de streaming deveriam possibilitar aos usuários banir músicas feitas com IA. Foi além: “Este é um dos exemplos mais marcantes de quem ouve música todos os dias e confia que o que é selecionado pelos serviços de streaming é feito por músicos de verdade. Depois de ouvir Sienna Rose, é quase nauseante. Você perde a conexão humana mais profunda”. 

A importância da música no mundo

Quem não está nem aí para as críticas é o engenheiro americano e pai de família James Baker. Ele criou com inteligência artificial uma banda imaginária de power metal chamada Masters of Profecy. O som não é grande coisa. Mas Baker espertamente produz clipes grandiosos (e cheios de belos homens e mulheres), também usando IA. Seu canal no YouTube tem 35,7 milhões de seguidores. O clipe de uma única música, Chase Me, atingiu 7,8 milhões de visualizações.

Baker resumiu sua situação numa entrevista para a NBC News: “Para cada crítica negativa, há 20 comentários positivos. Definitivamente, houve uma onda de ódio à música feita por IA que foi psicologicamente difícil de superar. Mas, em geral, as pessoas começaram a se adaptar a ela”.

Para os que estão apavorados com a música feita “sem conexão humana”, o vilão da vez atende por Mickey Shulman, CEO do Suno — um aplicativo que permite a qualquer pessoa encomendar uma música, do jeito que ela quiser.

“O formato do futuro”, declarou Shulman ao jornal britânico The Guardian, “é a música com a qual você interage, e não apenas toca”. Aparentemente, o projeto deu muito certo — o Suno está valendo US$ 2,45 bilhões. O potencial é muito maior. “O que os investidores precisavam entender”, diz Shulman, “é a importância da música no mundo. Depois que você mostra isso, a mentalidade deles muda e eles percebem que muito, muito mais é possível”.

O Suno está enfrentando acusações e processos de plágio. Como todo modelo de IA, precisa aprender com músicos reais para realizar suas criações. O que representa mais um dos sinais de hipocrisia nessa história. 

Nenhum ser humano compõe sem aprender com a experiência dos outros. Ludwig Van Beethoven, Duke Ellington, Tom Jobim, todos eles criaram suas músicas inspirados em seus autores favoritos. É o mesmo que faz a inteligência artificial. Ela apenas repete nosso comportamento. Os Beatles começaram se inspirando em Chuck Berry. O Led Zeppelin adaptava para o rock pesado os antigos músicos de blues.

A história de Monica Palmdale

É difícil criar um novo artista no Suno? O aplicativo funciona a partir de prompts, ou “pedidos”. Você pode escrever uma letra (no caso em inglês, para o mercado internacional), escolher o estilo, a instrumentação e optar se quer uma voz masculina ou feminina. Isso tudo no nível mais básico de assinatura, que custa ao redor de R$ 40 mensais.

Dei algumas ideias para que o Suno criasse uma canção. Pedi uma letra que falasse em otimismo, em calma, em esperança, em paz de espírito e fé no futuro. Batizei a música como I’m Still Hoping for the Best (“Eu ainda espero pelo melhor”). Encomendei uma música jazzística, calma, acústica.

Recebi em 90 segundos uma bossa nova em voz suave e intimista, com uma letra pronta, baseada nas minhas ideias. E assim nasceu a cantora (imaginária) Monica Palmdale. 

I’m Still Hoping for the Best, por Mônica Palmdale — criada pela inteligência artificial Suno

Essa gravação “não tem alma”? Falta “conexão humana”? É “quase nauseante”? Esse julgamento cabe ao ouvinte.

Com a ajuda do ChatGPT, visualizei a capa imaginária do CD imaginário da cantora imaginária:

Ilustração: Dagomir Marquezi/Revista Oeste/Feito por IA

O ChatGPT então criou a contracapa com o resto das músicas imaginárias:

Ilustração: Dagomir Marquezi/Revista Oeste/Feito por IA

Pronto. Nasceu uma estrela!

Música é emoção

Os que por princípio condenam esses artistas artificiais estão esquecendo o mais básico. Música é emoção. Para o ouvinte, a origem da música não tem mais qualquer importância. Mesmo criada por uma inteligência artificial, ela liga o ouvinte — ou não. Faz dançar, faz sorrir, faz cantar junto, faz chorar. Ou não.

A reação de cada pessoa a uma música é um fator que depende do ouvinte e de mais ninguém. Nenhum crítico ou músico pode direcionar essa reação escrevendo tratados sobre a superioridade da criatividade humana. E o mesmo acontece com a escrita, com a música, com o cinema. Nós, humanos, agora temos uma concorrência. Estamos sendo convocados ao aperfeiçoamento.

Essa onda de músicos artificiais não está aparecendo nesse momento à toa. Vivemos uma era especialmente pobre da música popular. Quase não há criatividade, não há ousadia, não há profundidade nas músicas que fazem sucesso hoje em dia. E a música brasileira, com raras exceções, anda especialmente pobre. 

Existe nas críticas à tecnologia uma dose de hipocrisia. Há muito tempo que os cantores e cantoras que ganham milhões com suas vozes usam o AutoTune, um programa de computador que deixa qualquer artista completamente afinado. Músicos gravam seus instrumentos com o ProTools, que corrige eventuais falhas e faz com que tudo pareça perfeito. Muitos superstars fazem seus shows disfarçando a dublagem da própria voz com coreografias, caras e bocas. E depois declaram que a inteligência artificial está “desumanizando” a música.

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4 comentários
  1. Vanessa Días da Silva
    Vanessa Días da Silva

    Prefiro essas músicas de IA do que o lixo atual de Anitta, Ludmila, Pablo vitar dentre outros

  2. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Só posso dizer Dagomir Marquezi que amei sua música criada pela IA,Pode lançar a cantora que eu vou comprar.Musica boa todos gostam.

  3. Paola Lima
    Paola Lima

    Agradável. Quem pediu inspiração em Norah Jones? O autor ou a IA? Não sei qual o medo dessa gente. HAL9000 cantando Daisy Bell sempre foi o melhor de 2001,Uma odisseia no Espaço,ao menos para mim. Vou tentar Aretha Franklin para ver se realmente a humanidade está ameaçada.

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