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Edição 307

O Master e os manés

Muitos investidores e assessores tinham consciência do risco que corriam e ainda assim seguiram adiante

O cientista político Franz Oppenheimer diz que existem duas formas de ganhar a vida. A primeira é a forma econômica: oferecer um produto ou serviço e receber um pagamento em troca. É o que a maioria das pessoas faz. A segunda forma de ganhar a vida é chamada por Oppenheimer de forma política: explorar o trabalho alheio através da cobrança de impostos. É possível avançar nessa análise.

Um indivíduo que faz parte da estrutura do Estado tem pelo menos três formas de melhorar sua renda e seu padrão de vida. A primeira é conseguir um bom cargo na máquina estatal, por indicação ou concurso. Alguns desses cargos, além de excelente remuneração, oferecem benefícios inacreditáveis. Outros também dão ao ocupante o poder de ajustar, ele próprio, sua remuneração. É o ocupante do cargo que decide — ainda que indiretamente — o quanto vai ganhar. O céu é o limite.

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A segunda forma de explorar o Estado em proveito próprio é direcionar as atividades estatais de forma que elas beneficiem o administrador público ou pessoas ligadas a ele. Não é necessária nenhuma ilegalidade. Tudo é feito dentro das leis e das regras, mas a estrutura do Estado é colocada a serviço de indivíduos ou de grupos. É o caso de uma obra que não é feita no lugar onde ela é necessária, mas em outro local onde trará um retorno político. Muitas vezes, o plano de investimentos de uma estatal não é montado com o objetivo de otimizar o retorno aos investidores, mas para direcionar recursos financeiros a prestadores de serviço associados à direção da empresa. Um exemplo simples ajuda a entender o processo. Uma empresa estatal de petróleo normalmente contrata plataformas de exploração de empresas fornecedoras. Essas plataformas perfuram poços. O aluguel de uma plataforma pode chegar a US$ 800 mil por dia. Imagine que um contrato de aluguel de três anos é alterado para incluir mais dez dias de aluguel, sem qualquer necessidade. Uma alteração como essa é quase impossível de ser detectada. Mas ela significará US$ 8 milhões no bolso de alguém.

A terceira forma de explorar a máquina do Estado é aquela que produz manchetes: roubo, fraude e corrupção. Todo o espaço desse texto poderia ser preenchido com uma lista dos escândalos que o Brasil testemunhou desde a chamada “redemocratização”. Muitos estavam relacionados com o mercado financeiro, e há uma razão para isso.

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Por sua natureza, o mercado financeiro envolve mecanismos de operação, arquiteturas de negócios e relacionamentos institucionais de extrema complexidade, cuja compreensão é inacessível ao cidadão comum. Fortunas podem ser criadas, tomadas e perdidas sob aparência de normalidade. A promiscuidade entre operadores e reguladores, e entre controladores de instituições financeiras e governantes, é um fato no mundo inteiro. A fragilidade institucional predomina na República brasileira desde seu nascimento. Quando se somam esses elementos, não é surpresa que aconteça um Banco Master. A surpresa é que não aconteça com maior frequência. Ninguém acredita que o escândalo resultará na efetiva punição dos responsáveis.

O financista americano Bernard Madoff desviou US$ 65 bilhões de clientes nos Estados Unidos. Em 2009, ele foi condenado a 150 anos de prisão e morreu na cadeia aos 82 anos de idade. Se vivesse no Brasil, Madoff estaria aproveitando a vida em uma mansão de Angra dos Reis, com alguma sugar baby — ou, quem sabe, até ocupando um cargo público importante.

Bernard Madoff (2009) | Foto: Wikimedia Commons

Um de meus amigos expressou receio quando seu assessor de investimentos recomendou CDBs do Master. Meu amigo apontou o rendimento muito acima do mercado como indicador de problemas potenciais. A resposta do assessor foi que não havia com o que se preocupar. Como o investimento era inferior a R$ 250 mil, ele seria protegido pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Muitos investidores e assessores tinham consciência do risco que corriam e ainda assim seguiram adiante.

Mas há algo errado nessa história. A função do FGC é preservar o patrimônio do cidadão em caso de problemas imprevistos com o banco, e não permitir que investidores consigam rendimentos acima do mercado se livrando das consequências de suas decisões.

O país tem malandros demais para poucos manés.

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6 comentários
  1. DONIZETE LOURENCO
    DONIZETE LOURENCO

    Roberto Motta, a gatunagem no Brasil é institucionalizada. O Master é apenas mais um caso que está antecedendo a muitos outros.
    Obras públicas nunca termina para que aditamentos aos contratos sejam adicionados a revelia.
    Fazendo um retrospecto de memória consigo lembrar de alguns casos: Coroa-Brastel, escandalo Lutfalla, Lei de proteção ao mercado de TI de 1982, Anões do Orçamento, TRT-SP do Juiz Lalau, Jorgina de Freitas, Banco Marka do Saltore Cacciola, Vampiros da Saúde, Banestado, Econômico, Nacional, Bamerindus, Zelotes, Mensalão, Petrolão…
    O mais desolador de tudo, destes escandalos dos protagonistas ainda vivos, ninguém está preso.
    No brasil o crime, principalmente o de “colarinho branco” compensa e muito.

  2. JOSE ROBERTO CARRARA
    JOSE ROBERTO CARRARA

    mas tem razão que FGC é pra proteger o investidor, mas gerente de grandes bancos tambem usam essa justificativa, Itau, Bradesco etc

  3. Ana Kazan
    Ana Kazan

    Sempre exato, Motta! Suas colocações sempre precisas nos consolam enquanto assistimos ao desenrolar desses muitos escândalos. Continuamos contando com sua clareza!

  4. Marcus Borelli
    Marcus Borelli

    Quando a esmola é demais o mendigo desconfia. Na primeira vez que assisti a uma propaganda dese Master apresentado por uma atriz insignificante da Globo disse para mim mesmo: roubada.

  5. Manoel Bertozzi Mesquita de Oliveira
    Manoel Bertozzi Mesquita de Oliveira

    Frente a volúpia dos espertos encastelados no poder, somos todos manes!

  6. Celso Ricardo Kfouri Caetano
    Celso Ricardo Kfouri Caetano

    È isso mesmo Motta, é um país onde há malandros protegidos legalmente e manés para encher-lhes o bolso sem a devida proteção legal ou melhor quando a pipoca estoura ficam a mercê das burocracias/fluxos de caixa/liberações etc para tentar reverter um pouco do prejuízo…..o caso citado por você do Madoff retrata bem a diferença do tratamento que países dão a quem ignora a responsabilidade e a Lei…

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