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A atuação de Dias Toffoli no Supremo Tribunal Federal segue marcada por polêmicas e pela anulação de condenações históricas | Foto: Montagem/Revista Oeste/Shutterstock
Edição 307

Tayayá, o novo sítio de Atibaia

Para custear os 168 dias em que Toffoli se hospedou no resort, os pagadores de impostos desembolsaram quase R$ 550 mil só para bancar a equipe de segurança

Nas últimas semanas, as polêmicas envolvendo o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli deixaram de se limitar a pedidos de suspeição no caso do Banco Master, anulações de provas da Lava Jato ou viagem em jatinho para final de campeonato de futebol. As acusações agora avançam sobre um terreno mais concreto: o patrimônio.

O foco das novas apurações é o Tayayá Resort, no interior do Paraná. Toffoli é apontado como o “dono de fato”, apesar de o empreendimento ter sido registrado em nome de dois dos irmãos do ministro: José Carlos e José Eugênio. Reportagens do portal Metrópoles mostraram que o magistrado se hospedou no local por ao menos 168 dias, entre 2022 e o início de 2026, e chegou a utilizar aeronaves de empresários ligados a advogados do Banco Master para se deslocar até lá.

O desenho do caso repete um padrão já conhecido no país. Durante a Operação Lava Jato, o sítio de Atibaia tornou-se símbolo de um modelo em que a propriedade formal do imóvel não coincidia com seu uso real. Embora registrado em nome de terceiros, o local era tratado como extensão da vida privada do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com reformas, manutenção e acesso controlados por pessoas próximas.

No Tayayá, a controvérsia segue lógica semelhante. O resort é explorado por familiares de Toffoli, mas relatos de funcionários e registros de apuração apontam que o ministro usufrui do espaço com exclusividade, mantém estruturas próprias no local e o utiliza para eventos privados. Assim como em Atibaia, o debate não se concentra apenas nos registros cartoriais, mas na pergunta central que orientou investigações anteriores: quem exerce, na prática, o domínio daquele bem.

Localizado às margens da represa de Chavantes, em Ribeirão Claro (PR), o Tayayá opera como um resort de alto padrão, com acesso restrito, infraestrutura completa de lazer e diárias que chegam a R$ 2 mil. O isolamento geográfico — elemento também presente no caso de Atibaia — reforça a distância entre o imóvel e o escrutínio público, favorecendo um uso reservado e informal por autoridades e convidados.

Tayayá Resort, no Paraná | Foto: Reprodução

Mesmo roteiro, novos personagens

Em 2014, o sítio de Atibaia entrou no centro das investigações da Operação Lava Jato por indícios de que funcionava, na prática, como propriedade do então ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, apesar de registrado em nome de terceiros. A frequência das visitas, a rotina de uso e a naturalidade com que o imóvel era tratado como residência de lazer sustentaram a associação.

As apurações identificaram reformas realizadas entre 2010 e 2014, custeadas por empreiteiras envolvidas no esquema de corrupção revelado pela operação, entre elas a OAS e a Odebrecht. Registros apontam que a Odebrecht desembolsou cerca de R$ 500 mil em materiais de construção, parte oriunda do Setor de Operações Estruturadas — mais conhecido como Departamento de Propinas. A OAS teria arcado com móveis planejados, eletrodomésticos e com a mudança e o armazenamento de bens de Lula ao deixar a Presidência. Com base nesses elementos, a Lava Jato sustentou que o ex-presidente recebeu cerca de R$ 1 milhão em vantagens indevidas, consolidando a tese de que o domínio de fato do imóvel se sobrepunha à titularidade formal. As provas que comprovavam o vínculo do petista com a propriedade, no entanto, foram anuladas pelo próprio Dias Toffoli em 2023.

À esquerda, ministro do STF Dias Toffoli; à direita, presidente Luiz Inácio Lula da Silva
A anulação decretada por Toffoli em 2023 invalidou as provas de que o ex-presidente recebeu R$ 1 milhão em benfeitorias da OAS e Odebrecht | Fotos: Ricardo Stuckert/PR

No caso do Tayayá, o padrão observado em Atibaia reaparece sob outra escala. O resort foi idealizado e desenvolvido por familiares de Toffoli, embora o magistrado seja apontado como usuário recorrente e beneficiário direto da estrutura.

A Tayayá Administração e Participações foi criada em 2011 por Mário Umberto Degani, primo de Toffoli. Nove anos depois, os irmãos do ministro ingressaram formalmente na sociedade por meio da Maridt Participações, com cotas que chegaram a somar quase R$ 7 milhões. A ligação com o Master começou no ano seguinte: entre 2021 e 2025, o controle do resort foi compartilhado com o fundo Arleen, administrado pela Reag Investimentos, ligado a Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro — proprietário do banco que hoje está diretamente envolvido no inquérito relatado por Toffoli no Supremo.

Em março de 2025, o advogado Paulo Humberto Barbosa adquiriu as cotas pertencentes à família Toffoli e ao fundo Arleen por cerca de R$ 3,5 milhões. Barbosa trabalha com o grupo J&F. Ele afirmou à Folha de S. Paulo que não possui relação com o Banco Master e que encontrou o resort em situação financeira delicada ao assumir o controle integral.

A rotina de Toffoli no Tayayá

O Tayayá opera no sistema de multipropriedade e tem estrutura de alto padrão, com piscinas, quadras esportivas, atividades infantis e acesso controlado. Além da hospedagem de alto padrão, oferece entretenimento semelhante ao de um cassino, com caça-níqueis e mesas de blackjack. Apesar da nomenclatura regional de “vídeoloteria” legalizada no Paraná, os equipamentos são idênticos às máquinas de apostas proibidas.

Na cidade, o empreendimento passou a ser conhecido como “Resort do Toffoli”. Funcionários relataram tratar o ministro como proprietário, embora seu nome não conste formalmente nos registros. Para custear os quase 170 dias que o magistrado se hospedou no Tayayá, os pagadores de impostos desembolsaram cerca de R$ 550 mil só para bancar as diárias da equipe de segurança. Em geral, quatro ou cinco agentes acompanham o ministro por viagem.

O empreendimento apelidado de “Resort do Toffoli” tem funcionários que tratam o magistrado como dono apesar da ausência de registro formal | Foto: Reprodução

Embora o resort fique no Paraná, as equipes de segurança para escoltar Toffoli quando ele está no hotel costumam ser pagas pelo Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região (TRT-2), de São Paulo. Segundo o portal Metrópoles, a descrição dos gastos no site do tribunal é explícita: “Prestar apoio em segurança e transporte para autoridade do Supremo Tribunal Federal, na cidade de Ribeirão Claro”.

Registros de voo analisados por diferentes veículos mostram o uso recorrente de aeronaves privadas em trajetos entre Ourinhos (SP) — aeroporto mais próximo do resort — e Brasília nas mesmas datas em que equipes de segurança permaneceram em Ribeirão Claro. O deslocamento, que inclui trecho final de helicóptero, permite acesso ao local sem muita exposição pública. Há também relatos de que o ministro foi visto no resort durante o último Ano-Novo e utiliza um barco exclusivo do empreendimento para passeios na represa, não disponibilizado a outros hóspedes.

Imagens divulgadas pelo Metrópoles revelaram ainda encontros de Toffoli no Tayayá com empresários como André Esteves, do BTG Pactual, e Luiz Pastore. Os registros mostram o ministro aguardando a chegada dos convidados numa área reservada do resort, reforçando as evidências de que o local era usado frequentemente como espaço de reuniões informais com homens de negócios, políticos e outras figuras públicas.

Há também registros de coincidência entre estadias do ministro no Tayayá e deslocamentos de aeronaves ligadas à J&F, holding controladora da JBS, comandada pelos irmãos Joesley e Wesley Batista. Em datas específicas de dezembro, os voos ocorreram no mesmo período em que equipes de segurança do Judiciário acompanhavam Toffoli no resort.

Sem desdobramentos à vista

O ministro do STF Dias Toffoli: decisão beneficia executivo | Foto: Rosinei Coutinho/STF
A sombra do caso Tayayá sobre a relatoria de Toffoli ampliou o desgaste político e a desconfiança em relação à Corte | Foto: Rosinei Coutinho/STF

Desde que Dias Toffoli assumiu a relatoria do inquérito sobre o Banco Master, o caso passou a provocar forte repercussão no meio político e dentro do próprio Supremo Tribunal Federal (STF). A combinação entre sigilo processual e decisões consideradas atípicas desencadeou uma crise de credibilidade institucional, intensificada depois da divulgação do vínculo do ministro com o Tayayá.

Conforme noticiou Oeste, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defende a devolução do inquérito à primeira instância e, em um cenário considerado mais drástico, que Toffoli avalie deixar o STF diante do desgaste político e institucional acumulado. Na avaliação de integrantes do PT, a permanência do ministro na relatoria alimenta suspeitas, expõe o tribunal a críticas recorrentes e reforça o discurso de interferência política em investigações sensíveis.

No Supremo, o ambiente também é de tensão. O presidente da Corte, Edson Fachin, afirmou publicamente que o caso tende a ser remetido à primeira instância, por entender que a simples menção a autoridades com foro privilegiado não justifica a permanência do inquérito no STF. A declaração foi interpretada nos bastidores como um recado direto a Toffoli.

Na direção oposta, o ministro Gilmar Mendes saiu em defesa de Toffoli, afirmando que suas decisões foram legais e que não há elementos que justifiquem sua suspeição. Alexandre de Moraes, citado indiretamente em razão de um contrato de R$ 129 milhões entre o Banco Master e sua mulher, Viviane Barci de Moraes, negou qualquer envolvimento e classificou como falsas as informações sobre um suposto encontro com Daniel Vorcaro.

No campo institucional, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, decidiu arquivar um pedido de suspeição contra Toffoli, sob o argumento de que não há, até o momento, provas de envolvimento direto do ministro nos fatos investigados. O Conselho Nacional de Justiça também arquivou um pedido de apuração relacionado ao vínculo de Toffoli com o Tayayá, apresentado pelo deputado federal Ubiratan Sanderson (PL-RS). O fundamento foi a falta de competência do CNJ para investigar ministros do STF, conforme delimitação constitucional.

No Senado, no entanto, a pressão política segue. Os senadores Magno Malta (PL-ES), Eduardo Girão (Novo-CE) e Damares Alves (Republicanos-DF) protocolaram um aditamento a um pedido de impeachment em andamento contra o ministro. 

Apesar das movimentações, Toffoli não pretende se declarar suspeito nem deixar a relatoria. A permanência do ministro à frente do inquérito, porém, é vista com reservas por setores do Judiciário e da política — e o desfecho do caso permanece em aberto.

Com revelações praticamente diárias sobre o caso Master, ainda não é possível dimensionar o alcance do envolvimento de figuras públicas no que tem tudo para se consolidar como o terceiro grande escândalo de corrupção das últimas três décadas — ao lado do Mensalão e do Petrolão. O que já se tornou evidente, porém, é que o episódio expõe uma fragilidade recorrente do sistema político-institucional brasileiro: a dificuldade de separar o exercício do poder público de interesses privados — mesmo nos mais altos níveis da República.

Leia também “O Lupanário: Moraes, o Banco Master e a lógica do poder sem limites”

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6 comentários
  1. Joaquim Días do Nascimento Júnior
    Joaquim Días do Nascimento Júnior

    NOTÁVEL SABER JURÍDICO e REPUTAÇÃO ILIBADA são criterios necessários, porém não observados quando estão sendo indicados e aprovados candidados a ministros e outros cargos da republiqueta bananeira chamada BRASIL. Aqui até ESTAGIÁRIO pode ser ministro, então quem não pode? Quem venceu o bolsonarismo? Quem é cominunista com muito orgulho ou quem tem intimidade com a jagunçada?

  2. DONIZETE LOURENCO
    DONIZETE LOURENCO

    Uma “república” que nasceu de um golpe político e que em 136 anos de anunciada – até hoje não foi proclamada – dos 39 presidentes incluindo o atual, apenas 12 concluíram seus mandatos não tem como dar certo.
    Em 1993 os brasileiros foram chamados a escolher através de plebiscito a forma de governo entre república ou monarquia, presidencialista ou parlamentarista. Como não conhecia e muitos ainda não conhecem nenhuma das propostas, optou por manter o sistema vigente que vem produzindo escabdalos ao longo da história desta republiqueta de bananas.

  3. MNJM
    MNJM

    Espero que os cidadãos que ainda acreditam no partido das trevas, acordem, elejam senadores de direita para fazermos uma limpa no STF, onde se instalou lobby e a ditadura da toga (calar quem incomoda).
    Texto muito bom, situação idêntica ao sítio de um amigo meu. Perderam a dignidade e acham que o povo é ingênuo.

  4. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    O que está faltando pra prender todos os primeiros escalões dos três poderes, já que 220 milhões de brasileiros não tem meios pra barrar todo esse espetáculo de corrupção, pra ser comedido, é os EUA, que façam. Nós estamos desesperados para parar com essa ditadura de ladrões bandidos comunistas terroristas narcotraficantes assassinos torturadores vagabundos fazendo um surrealismo da política brasileira

  5. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Sim Rachel Diaz,título perfeito de seu artigo, de sitio passa-se a resort. Governo do PT, só traz desgraça e destruição, a corrupção não vai embora, só cresce.Teremos uma ótima oportunidade em 2026 para escolhermos um caminho melhor. Força Brasil.

    1. rachel díaz - foto de perfil na revista oeste - dezembro de 2025
      Rachel Díaz

      Fico feliz que tenha gostado, Teresa! Um grande abraço.

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