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Senador Alessandro Vieira, autor do requerimento para criar a CPI do Crime Organizado | Foto: Agência Senado
Edição 309

Alessandro Vieira: “A atuação do Master é típica de crime organizado”

Relator da CPI do Crime Organizado defende a convocação de familiares de ministros do STF e afirma que a infiltração criminosa vai além das facções armadas

A investigação sobre o Banco Master deve se tornar um dos eixos centrais da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado neste ano. Segundo o relator, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), trata-se de um caso “típico de crime organizado”, com hierarquia, permanência, infiltração no poder público e uma operação “aparentemente lastreada num esquema de pirâmide” com impacto financeiro elevado. 

O começo da investigação levou a CPI a apresentar requerimentos de convocação de familiares dos ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Em meio às críticas, Vieira afirma que os “depoimentos são uma oportunidade para que testemunhas e investigados possam apresentar suas versões”, e que investigação “não é condenação”. 

Para além dos nomes e dos embates institucionais, o relator afirma que o debate da comissão revela um problema estrutural no país: a compreensão limitada sobre o que é crime organizado. “Não precisa ser violento, precisa ser organizado.” Na visão dele, o desafio da CPI é demonstrar que a infiltração criminosa pode operar tanto nas periferias quanto nos centros de poder — e que o enfrentamento precisa alcançar ambas as frentes.

Alessandro Vieira foi o autor do requerimento para criar a CPI do Crime Organizado | Foto: Roque de Sá/Agência Senado

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Quais são as prioridades da CPI neste ano?

A CPI do Crime Organizado vai continuar o mapeamento da realidade do crime e das respostas do Estado em todo o país. Estamos ouvindo especialistas, governadores, representantes das polícias e das secretarias. Esse trabalho prossegue. Ao mesmo tempo, passamos a identificar pontos específicos que aparentemente não encontram outros espaços de investigação, como parte do escândalo do Banco Master.

Quais elementos do caso Banco Master levam a CPI a classificá-lo como típico de crime organizado?

Com base nas informações disponíveis, a atuação do Banco Master é típica de crime organizado. Trata-se de uma operação aparentemente estruturada em esquema de pirâmide, com duração prolongada e alto impacto financeiro, viabilizada por infiltração e corrupção nos Poderes da República. Há relatos de mistura de fundos e de vínculos estreitos com recursos oriundos de facções criminosas violentas. Existe a tendência de associar crime organizado apenas à face armada. Mas não é assim. Para ser crime organizado, não é necessário haver violência; é preciso organização, com estruturas previstas em lei. No caso do Banco Master, observam-se elementos clássicos: hierarquia, permanência e infiltração no poder público. Trata-se de um momento que pode gerar investigações relevantes para o país.

Se for instalada uma CPI específica sobre o Banco Master, como ficará a atuação da CPI do Crime Organizado?

Se surgir uma CPI específica e ela avançar — somando-se à comissão especial da CAE e à própria CPI do Crime Organizado —, a urgência diminui. Ainda assim, quanto mais investigação houver, melhor, considerando a gravidade do caso e os valores envolvidos.

O risco de insolvência do Master poderia provocar a intervenção do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) | Foto: Banco Master/Divulgação
A criação de uma comissão exclusiva para o Banco Master reforça o trabalho já iniciado contra o crime organizado | Foto: Banco Master/Divulgação

O senhor apresentou pedido de convocação da mulher do ministro Alexandre de Moraes, o que gerou reação imediata e acusações de perseguição política. Por que a CPI considera esse depoimento necessário?

Depoimentos são oportunidades para que testemunhas e investigados apresentem suas versões e para podermos questionar a natureza do relacionamento e dos serviços prestados, sem invadir o sigilo entre cliente e advogado. Trata-se de contrato atípico, com valores também atípicos, além de notícias de diálogos do próprio ministro relacionados à situação do Banco Master. Esses fatos precisam ser esclarecidos.

No caso dos irmãos do ministro Dias Toffoli, o senhor pediu quebra de sigilo de empresas ligadas a eles. Quais elementos justificaram essa medida?

A dinâmica é semelhante. No caso de Dias Toffoli, há atos de ofício, despachos e decisões consideradas atípicas, que, segundo avaliações, dificultaram o trabalho do Banco Central, da perícia e da polícia. Ao avançar na análise, verificam-se relações comerciais e transações de valores significativos entre familiares do ministro e empresas ou fundos vinculados ao Banco Master. Esses fatos exigem esclarecimento. O caminho passa por depoimentos e, sobretudo, pela quebra de sigilos.

dias toffoli
O vínculo comercial de parentes de Dias Toffoli com o Banco Master motiva o pedido de quebra de sigilos | Foto: Ton Molina/Estadão Conteúdo

A CPI tem sido acusada de “mirar o Judiciário”. O que o senhor responde a quem vê os requerimentos como ataque pessoal a ministros do STF?

A CPI atua em várias frentes: ouve especialistas, trata da situação do Rio de Janeiro e apura o caso do Banco Master. Investigação séria não considera partido ou posição política do investigado; considera fatos. Os fatos são graves. No que diz respeito à relação entre o Banco Master e determinadas figuras do Judiciário, a atuação do Senado é essencial, pois é a única Casa com essa prerrogativa. A PGR já se manifestou no sentido de não investigar, o que considero um equívoco. Existem motivos evidentes para apuração. Investigar não significa condenar previamente.

O senhor tem defendido que o impeachment de ministros do STF pode se tornar o “único caminho disponível”. Como isso se viabiliza em um Senado que hoje não demonstra disposição para avançar?

Os fatos impõem a política. Pode não ser agora, mas chegará o momento em que serão tão graves e evidentes que a política terá de reagir. Desde 2019, busco utilizar todas as ferramentas legais e constitucionais para apurar os fatos. A partir da investigação, caberá adotar as consequências necessárias, que podem incluir apuração formal, afastamento e até prisão de ministro.

Familiares de autoridades acabam se tornando uma “zona proibida” para investigações?

Investigar figuras poderosas é sempre difícil, em qualquer Poder. Os riscos são grandes e é preciso agir com técnica e cuidado para evitar nulidades. Mas os fatos têm se acumulado de forma cada vez mais evidente. A sociedade exige respostas. Essas respostas precisam ser técnicas, bem fundamentadas e comprovadas, para que eventuais medidas futuras sejam compreendidas e assimiladas.

Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal | Foto: Mateus Bonomi/Reuters
A blindagem institucional começa a ruir com a cobrança por investigações que sustentem medidas futuras | Foto: Mateus Bonomi/Reuters

Onde a infiltração do crime organizado é mais visível hoje?

A infiltração ocorre por duas vias principais. A primeira é o financiamento ilegal de acesso ao poder — campanhas e lobbies. A segunda é a lavagem de dinheiro. Recursos oriundos de corrupção utilizam os mesmos mecanismos daqueles provenientes do tráfico, homicídios e roubos a banco. Esses fluxos convergem. É preciso que o cidadão compreenda que crime organizado não se limita ao homem armado na periferia. Há também o agente de terno e gravata nos grandes centros ou em Brasília, cometendo crimes que lesam milhões de brasileiros.

Qual legado o senhor pretende deixar na CPI?

A produção de uma radiografia completa da segurança pública no Brasil, tanto no que diz respeito às facções quanto à atuação do Estado. Além disso, a apresentação de um pacote de soluções e propostas legislativas que fortaleçam o combate ao crime e avancem na identificação de esquemas e figuras que hoje permanecem intocáveis.

A promessa de alcançar os intocáveis define o objetivo central do relatório final da comissão | Foto: Agência Senado

Leia também “Mendonça Filho: ‘O Estado se mostrou passivo no combate ao crime organizado'”

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7 comentários
  1. FLAVIO AUGUSTO ROSSI
    FLAVIO AUGUSTO ROSSI

    ILUSTRE SENADOR , TRATE ESSES BANDIDOS COMO BANDIDOS !
    TENS NAS MÃOS UMA OPORTUNIDADE ÚNICA , DE PELO MENOS COMEÇAR A PASSAR UMA RÉGUA MORAL NESSE PAÍS , QUE ESTÁ VIRADO NUM PROTÍBULO !
    PRECISAMOS DESESPERADAMENTE DE HOMENS DE CORAGEM !

  2. Joaquim Días do Nascimento Júnior
    Joaquim Días do Nascimento Júnior

    A entrevista está muito bem colocada, porém atingir o colarinho branco no Brasil é um ato de heroi. Há poderosos togados hoje comprometidos com o crime organizado e cometendo crimes com desfaçatez impressionante e certo da impunidade, a qual realmente pode vir a se concretizar, pois dificilmente serão cassados. Podem até ocorrer exceções, mas a REGRA é a impunidade completa e absoluta com premiação de muitos milhões de dólares.

  3. ELIAS
    ELIAS

    A investigação se impõe diante de tantas evidências de que membros expoentes do judiciário estão envolvidos em crimes graves. Se o Senado tomar a decisão de não investigar (e punir) os envolvidos estará contribuindo para o atestado de morte por putrefação de instituições que deveriam ser, por essência, sustentáculos do estado democrático.

  4. Marco Aurélio Oliveira De Farias
    Marco Aurélio Oliveira De Farias

    O senador Alessandro Vieira, do Estado de Sergipe, apesar que ele nasceu no Rio Grande do Sul e chegou jovem em Sergipe, iniciou seu mandado em 2019.
    Ele é delegado de polícia em Sergipe.
    Logo quando entrou no Senado, começou uma campanha para assinaturas da CPI da LavaToga, diante de abusos dos ministros do STF, já naquela época, lembro, do próprio líder do governo no Congresso, Randolfe Rocrigues, do seu lado, em uma entrevista coletiva que tratava, desta CPI, naquela época, em 2019.
    Infelizmente, Bolsonaro, influenciou a bancada da direita para não assinar a abertura dessa CPI, em 2019.
    Mas, entendo que ele irá conseguir descobrir muitas informações importantes dos ministros do STF, nesta CPI do Crime Organizado, claro que se conseguir aprovar seus requerimentos.
    Ele é uma pessoa, trabalhadora, ética e honesta, que trabalha com fatos e provas, dóa a quem doer.

  5. Glauco Rodrigues Dos Santos
    Glauco Rodrigues Dos Santos

    De tanto se multiplicar a iniquidade a s pessoas deixam de acreditar na justiça. Ou sao barrado os abusadores e punidos exemplarmente, pagando com moeda oposta que fizerem com os envolvidos no 8 de janeiro, ou ninguém mais segura o crime no Brasil.

  6. Cátia Deon Dall’Agno
    Cátia Deon Dall’Agno

    Esse senador é outra figura da república que precisa andar com dorte segurança

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