Para Roberto Motta, o Rio de Janeiro na década de 1980 não foi somente o cenário de boa parte de sua juventude. Era também um deserto de opções intelectuais. “Eu morria de tédio”, conta em entrevista a Oeste. Sem internet ou YouTube, seu horizonte era tomado pelo que ele define como um monopólio ideológico: “Não existia nenhuma expressão socialmente aceita de posição política que não fosse algum matiz de esquerda”. Foi nesse contexto que ele ouviu pela primeira vez o nome de Karl Marx, embora não saiba precisar o momento exato.
Como boa parte dos jovens daquela década, a fuga do tédio era pela TV. “Eu não tinha muito dinheiro para comprar livros”, afirma. “E a televisão só tinha três ou quatro canais.” O único caminho alternativo para se informar, então, era a biblioteca. O que ambos os meios tinham em comum era a capacidade de filtrar o acesso ao conhecimento — algo muito diferente do que se vê hoje, com informações praticamente infindáveis a um clique.
Motta admite que, naquela época, “consumia o marxismo de segunda ou terceira mão”. Sem o contraponto das fontes originais ou de visões divergentes, as ideias chegavam mastigadas, consolidando um horizonte em que o pensamento único era a paisagem disponível. Felizmente, como o próprio assume, ele tinha uma “grande vantagem competitiva”: sua curiosidade nata.
Basta correr os olhos pelo currículo para entender: ele é um polímata. Engenheiro civil com mestrado em gestão, foi consultor do Banco Mundial e atua como referência no debate sobre segurança pública. Nada disso teria sido possível se não fosse o rompimento definitivo com seu Marx de segunda mão — e o de primeira mão também.
Com uma pequena ajuda dos amigos
A virada de chave decisiva ocorreu em meados de 2009. Ao se aprofundar no funcionamento do livre mercado, Motta conheceu a obra de Ludwig von Mises, Friedrich Hayek e Thomas Sowell. Junta, essa trinca ajudou a cimentar os pilares da liberdade individual e da eficiência econômica que ele defende hoje.

“Eu já tinha 48 anos e nunca tinha ouvido falar desses pensadores”, assume. Para ele, isso é fruto de um sistema em que a educação política se resumia a decorar o funcionamento do Estado. “Nunca vi uma discussão honesta sobre liberdade ou direitos. O que existe é doutrinação onipresente no sistema de ensino e na mídia.”
A exposição ao liberalismo se consolidou no convívio com os amigos Rodrigo Constantino e Hélio Beltrão. “O Hélio me apresentou à Escola Austríaca e, com o Constantino, aprendi o básico do antiesquerdismo”, lembra.
O reconhecimento é recíproco. Em depoimento a Oeste, Constantino destaca a humildade de Motta ao citar suas influências e ressalta a trajetória singular do amigo: “O Motta é um cara muito curioso, ele quer aprender”. Para o colunista, o diferencial de Motta é a sua capacidade de “ler o inimigo”, estudando autores como Saul Alinsky para criar um “antídoto para a direita” baseado em resultados. “Por ter formação de engenheiro, não é um cara de masturbação intelectual… ele quer resultados”, define Constantino.
Esse senso prático foi testado na política partidária. Idealizador do partido Novo, Motta viu o projeto original ser capturado por uma “direção ocupada com pessoas do mercado financeiro, com entendimento zero de política”, como o próprio define.
Seu rompimento, em 2016, foi uma resposta à transformação do movimento em uma “organização autoritária e desrespeitosa”. Ao recusar-se a sacrificar princípios por conveniência partidária, ele reafirmou sua fidelidade à missão de clareza intelectual que agora culmina em Marx Não Era Marxista, seu novo livro. Para Constantino, essa bagagem torna Motta “um dos caras mais preparados para colaborar com qualquer projeto de direita no Brasil”.
“Marx não era marxista”
Motta usou essa jornada de mais de 40 anos para escrever a obra. Em um trecho compartilhado com exclusividade, o autor propõe uma exploração honesta dos conceitos sequestrados pela retórica política. Ao endereçar sua obra ao “leigo”, o autor tenta poupar o jovem de hoje de passar décadas sob um “engano que se identifica como ciência”. Ele define: “O marxismo e suas versões modernas são como uma religião; têm profetas, textos sagrados e a ‘infalibilidade do partido’”.
No livro, ele utiliza o caso do nacional-socialismo para exemplificar o apagão factual gerado por simplificações. “O nazismo surgiu a partir de um partido de esquerda alemão” e sua essência de “Estado totalitário” é idêntica à máquina socialista. “Só existem três diferenças”, explica ele, citando a divisão por etnia em vez de classe, o caráter nacionalista e o controle estatal sobre empresas privadas em vez da extinção total da propriedade. Fora isso, “não tem diferença nenhuma entre a máquina comunista e a máquina nazista”.

A obra, prevista para ser lançada no segundo semestre deste ano pela editora Alta Books, reflete um método rigoroso. Motta revela que reescreve seus livros “duas ou três vezes” e busca a validação dos amigos antes da entrega final: envia seus escritos para cerca de 15 pessoas de confiança para garantir que não está “falando besteira”.
Essa busca pela precisão faz com que a curiosidade se alie às ferramentas do presente. Para Motta, a tecnologia é a “garantia de que o totalitarismo não vai conseguir vencer nunca”, pois democratiza o acesso à informação e mantém a “chama acesa” contra o silenciamento. Ele observa com fascínio a escala dessa transformação: nota que uma pessoa que fica “uma tarde na rede social” tem hoje “mais exposição a informações variadas” do que ele conseguia obter em um ano inteiro na juventude.
Mesmo com o texto em fase de conclusão, a inquietude de Motta permanece latente. Ele não busca estabelecer um “dogma”, mas sim “acender as luzes” para que o jovem de 2026 não sofra do mesmo tédio intelectual que o aprisionou em 1980. Em sua visão, a tecnologia, movida por uma curiosidade genuína, é a arma definitiva contra o marasmo e os limites impostos pelos antigos monopólios de ideias.
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Pena que o Motta tenha ficado tão traumatizado com o Amoedo que deixou de apoiar o Novo. Amoedo já foi expulso há alguns anos. Apesar de diminuto, esse é o único partido genuinamente liberal deste país.
PARABÉNS PELA MATÉRIA.
SEMPRE GOSTEI DO MOTTA .
SEMPRE ME TRANSMITIU PONDERAÇÃO E LUCIDEZ EM SUAS ANÁLIZES !
Muito obrigado!
Também aguardo ansiosamente. O livro do Mota “A construção da maldade” é simplesmente sensacional. Recomendo fortemente a todos.
Ficarei aguardando ansiosamente a publicação desse livro, que tenho certeza, deve ser ótimo, como tudo que o Mota escreve.