A parede coberta de fotografias chama a atenção de quem entra na sala do sobrado onde vivem a ex-bancária Márcia Helena, 58 anos, e o técnico de eletrodomésticos Geraldo Vaz Júnior, 59, na Vila Prudente, zona leste de São Paulo. As imagens registram a atividade missionária, como a ida à Amazônia, e viagens de lazer — momentos de uma vida ativa que ficou para trás. Desde meados de 2023, por causa de negligência médica, o casal vive praticamente confinado em casa. Amparado pela mulher com quem divide a vida há quatro décadas, Geraldo enfrenta há quase três anos um tratamento quimioterápico. Ele foi diagnosticado com câncer depois de passar por um transplante de fígado, em março de 2023. O órgão recebido continha um tumor.
Por causa de uma cirrose hepática, Geraldo permaneceu por longos 13 anos à espera do procedimento que foi realizado pela equipe do Hospital Israelita Albert Einstein. A esperança, no entanto, deu lugar à desolação. Depois do transplante e do diagnóstico de câncer, o hospital o encaminhou para ser tratado pela Unidade Básica de Saúde do bairro.
Graças à intervenção do deputado federal Delegado Palumbo (MDB-SP), que chegou a enviar notificações extraoficiais ao hospital, Geraldo voltou a ser atendido pelo Einstein. Em maio de 2024, passou por um retransplante de fígado — esse saudável. Mesmo com a retirada do órgão com tumor, ele seguiu como paciente oncológico. Os meses com fígado doente foram o bastante para as células cancerígenas se espalharem e atingirem o pulmão.






Com todos os exames e laudos do marido em mãos, Márcia explica que os médicos foram enfáticos: não há cura. “Ele está em cuidados paliativos”, lamenta. Aposentado por invalidez em razão da cirrose hepática, Geraldo alterna bons e maus momentos. Nos bons, consegue andar e conversar. Nos maus, tem dificuldade até de se levantar da cama. “Não é fácil”, admite Geraldo. “Mas mesmo os médicos falando o contrário, tenho fé de que irão encontrar a cura para a minha doença.”
Problema de saúde pública
Apesar de realizado dentro das dependências de uma unidade médica particular, o transplante do fígado com câncer representa mais um caso de negligência médica entre os inúmeros que assolam a saúde pública no Brasil. Em nota, a equipe do Hospital Albert Einstein explica que o procedimento foi custeado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e que toda a logística envolvendo esse e qualquer outro transplante de órgão no país fica a cargo do Sistema Nacional de Transplantes (SNT), uma divisão do Ministério da Saúde.
“A organização atua em conformidade com a legislação brasileira e segue as melhores práticas internacionais em todos os seus processos assistenciais”, afirma o hospital. “Todo o suporte e a assistência seguem sendo prestados por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS). Por respeito à privacidade e ao sigilo, o hospital não divulga informações de saúde de pacientes.”
Depois que o caso de Geraldo começou a ganhar espaço na mídia, o Ministério da Saúde também resolveu se manifestar. Em comunicado, a pasta não explicou os erros do SNT que levaram ao transplante de um fígado com tumor. “Não foram identificados ou apresentados indícios de qualquer problema de saúde nos exames realizados no doador, incluindo a inspeção nos órgãos e abdômen, análise do seu histórico médico e entrevista com a família.”
Até hoje, o Ministério da Saúde, comandado por Alexandre Padilha, não explicou outro erro envolvendo transplante de órgão. Em setembro do ano passado, o Hospital Universitário Onofre Lopes (Huol), em Natal, fez um transplante de rim no paciente errado. Mantido pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, o Huol afirma que, desde então, presta “suporte psicológico” à família da pessoa que recebeu o rim por engano. O hospital também informa que abriu sindicância para investigar o que ocorreu.
Casos semelhantes são mais comuns do que se imagina. No Rio de Janeiro, seis pessoas foram contaminadas com HIV depois de receberem órgãos de portadores do vírus — que não foram identificados pelo laboratório responsável pelos testes. Revelado em outubro de 2024, o escândalo resultou na queda da diretora da Fundação Saúde do Rio de Janeiro e nas prisões dos sócios do laboratório (já soltos por decisão da Justiça).
Situação que só piora
O caso dos órgãos transplantados com HIV foi parar no Poder Judiciário. A Justiça, por meio do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, firmou um Termo de Ajustamento de Conduta com os seis pacientes em questão. O acordo prevê pagamento de indenização (cujos valores não foram divulgados) e atendimento contínuo.

O escândalo do Rio de Janeiro é mais um exemplo de um problema que se agrava no país: o de processos por causa de erros na prestação de serviços na saúde, tanto pública quanto particular. De 2023 para 2024, o número de novas ações judiciais abertas em virtude de erros médicos saltou 70%, indo de 46 mil para 77 mil, conforme o Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
O problema permaneceu em alta em 2025. Segundo o CNJ, foram abertos 97 mil processos em decorrência de erros na prestação de serviços de saúde. Aumento de aproximadamente 30% na comparação com o ano anterior. Os dados englobam ações de indenização por dano material e dano moral nas esferas pública e suplementar.
Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e especialista em Direito Público, Washington Fonseca afirma que os erros ocorrem antes do procedimento médico em si. De acordo com ele, muita gente se forma — “muita gente mesmo”, enfatiza — sem o preparo necessário para atuar na linha de frente. “Em grande parte, os erros são decorrentes da má preparação na faculdade, da proliferação indevida de cursos de medicina, da não realização de uma residência adequada e da fragilidade das leis que regulam o setor”, diz Fonseca. “É uma junção de fatores.”
Atualmente, o país conta com cerca de 500 cursos ativos de medicina, o que representa 50 mil vagas anuais. O número é superado apenas pela Índia, nação com 1,4 bilhão de habitantes, que tem aproximadamente 600 cursos de medicina. Ninguém poderia imaginar que a abundância de médicos se tornaria mais um dos grandes problemas de saúde no Brasil.

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A tendência é piorar. A qualidade do ensino e a dos estudantes cada vez mais baixas, não só em Medicina, mas também em Engenharia e outras. Inclusive e principalmente dos professores.
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Seu comentário abrange os pontos q eu manifestaria!
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