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Ilustração: Júlia Xavier/Revista Oeste/Feito por IA
Edição 310

O Brasil e a carnavalização permanente

“Mamãe, eu quero mamar” é a marchinha rotineira dos próceres da República de Tayayá

“Tudo isso se combina para preparar o terreno para a pompa ruidosa de pseudofestas a serem celebradas ao comando de qualquer despotismo.”
(Josef Pieper, Em sintonia com o mundo: uma teoria da festividade)

Não culpo o leitor que, porventura, atribua a causa desta coluna sobre o Carnaval brasileiro à rabugice e ao envelhecimento precoce do autor. Por um lado, como é de hábito natural, não há dúvida de que estou ficando mais velho. Por outro, tampouco há dúvida de que, assim como até mesmo o mais otimista dos cidadãos, ando um tanto quanto rabugento com a degradante situação sociopolítica nacional. Ainda assim, contudo, posso garantir que minha abordagem do tema não decorre do meu estado de espírito.

Não é de hoje que o brasileiro se orgulha de sua vocação festiva. Eu mesmo, quando jovem e solteiro, já tive minha fase carnavalesca. Não há aqui, portanto, nenhuma diatribe contra a festa e a alegria. Muito pelo contrário. O problema não reside na alegria — essa disposição fundamental da alma que afirma o ser —, mas na mutação espiritual que a converte em estímulo incessante, em necessidade de excitação contínua, como se o silêncio fosse uma ameaça e o recolhimento, uma forma de fracasso, quase um ato de impiedade.

Como, aliás, já observei em uma coluna antiga sobre o mesmo tema, o que tem me chamado a atenção no Carnaval no Brasil de hoje é justamente a sua aparência menos alegre e mais extática, como se se tratasse de uma necessidade desesperada de escape. O que outrora era intervalo ritualizado tornou-se uma atmosfera permanente, e o que antes funcionava como inversão temporária converteu-se em paradigma cultural. Falta ao folião contemporâneo a virtude que, sempre inspirado em Aristóteles, São Tomás de Aquino chamava de eutrapelia — o uso moderado do divertimento.

Historicamente, o Carnaval encontrava sua inteligibilidade no contraste com a Quaresma. A exuberância precedia o jejum; o riso, o exame de consciência; o excesso, a disciplina. A desmedida possuía contorno, e exatamente por isso educava, ao reconhecer tacitamente um limite. A inversão ritualizada das hierarquias — o servo que zombava do senhor, o grotesco que ridicularizava o solene, o homem que se vestia de mulher — durava alguns dias, apenas o suficiente para reafirmar, ao término da folia, a estrutura da ordem. O riso, quando enquadrado, fortalecia aquilo que parecia subverter.

Mas quando o intervalo se torna permanente, já não há contraste que eduque, nem retorno que reordene. Uma sociedade não pode permanecer saudável quando o rito se converte em rotina. É justamente o que o Brasil fez com o Carnaval. “Mamãe, eu quero mamar” — não é mais um refrão sazonal, mas a marchinha rotineira dos próceres da República de Tayayá.

Ilustração: Júlia Xavier/Revista Oeste/Feito por IA

Quando se suprime o contraste, suprime-se também o sentido. Em sua meditação sobre a festa, o filósofo Josef Pieper recorda que ela não é mera explosão de energia coletiva, mas afirmação jubilosa da realidade enquanto criação. Celebrar é dizer “sim” ao mundo; é reconhecer, ainda que simbolicamente, que o ser é bom e digno de gratidão. A festa nasce do culto e a ele retorna; é derivada, não autossuficiente. Quando se emancipa dessa moldura ontológica, deixa de celebrar algo que a transcenda e passa a celebrar a si mesma, fechando-se num circuito autorreferente, degradando-se em entretenimento vulgar e daí ao puro hedonismo niilista.

O Carnaval brasileiro contemporâneo, com toda a sua grandiosidade financeira, tecnológica e midiática, parece ilustrar essa rarefação simbólica: conserva a escala, mas perde a densidade; mantém o volume, mas dissipa o horizonte. Sem Quaresma — não apenas no calendário litúrgico, mas na consciência moral coletiva —, a festa deixa de ser prelúdio e converte-se na ordem social permanente. O excesso já não aponta para purificação alguma, mas limita-se à repetição infinita, convertendo-se em tautologia.

Resta que esse deslocamento não permanece confinado às avenidas. Infiltra-se na própria forma da vida pública. O episódio do desfile da Acadêmicos de Niterói, financiado com recursos públicos e transformado em homenagem explícita ao mandatário da República, que ali compareceu como figura central da alegoria, não é apenas um crime eleitoral flagrante, mas também um sintoma da nossa carnavalização institucional. A oposição anuncia medidas judiciais, por óbvio, mas o tribunal eleitoral companheiro — no qual as togas viraram meros adereços — provavelmente fará o que vem fazendo desde, ao menos, 2022: agir politicamente e favorecer descaradamente o seu próprio partido. Deve-se, contudo, registrar para a posteridade o significado simbólico da cena: o governante convertido em enredo, o poder transfigurado em espetáculo, a cultura absorvida pela coreografia do aplauso.

Não é difícil reconhecer, sob o brilho carnavalesco dos trópicos, uma lógica antiga: aquela em que o Estado e a representação estética se fundem numa pedagogia de exaltação. Regimes totalitários do século 20 — de signos ideológicos distintos, quer fascistas, quer comunistas — compreenderam muito bem o poder da encenação pública como instrumento de legitimação. Nunca se elaborou tanto a liturgia do poder como durante esses regimes, modus operandi ora copiado pelo regime PT-STF-Globo. O que antes era sátira, converteu-se em consagração. Enquanto o carnaval tradicional ridicularizava o poder, o Carnaval do regime PT-STF-Globo o instrumentaliza e exalta.

Lula posa em frente a bandeira da escola de samba Acadêmicos de Niterói | Foto: Acadêmicos de Niterói/Divulgação
Lula posa com a bandeira da escola de samba Acadêmicos de Niterói nas mãos | Foto: Acadêmicos de Niterói/Divulgação

Essa inversão revela algo mais profundo do que um mero abuso de poder político. O grosseiro crime eleitoral cometido traduz uma cultura que já não distingue com nitidez entre representação e propaganda, entre celebração e mobilização, entre arte e aparato. Nessa cultura, tudo é performance, e nada é propriamente sério, uma vez que a seriedade exige forma e contorno. Tudo vira palco, e a própria República se converte em sambódromo.

E é claro que, numa cultura que celebra sem penitência, os donos do poder tendem a governar sem contenção. Sem Quaresma — isto é, sem um limite reconhecido e interiorizado —, a festa degenera em vertigem e a política, em espetáculo permanente de pilhagem, brutalidade e escárnio. O hedonismo cultural encontra seu espelho na concupiscência institucional, não apenas na forma grosseira da corrupção, mas na erosão difusa do senso de responsabilidade, na incapacidade de reconhecer que o poder, como o riso, precisa de moldura.

Talvez o traço mais inquietante de nosso Carnaval não seja, portanto, o excesso em si, mas a ausência de horizonte que o justifique. Ele explode, consome e se dissipa, deixando atrás de si não purificação, mas fadiga; não o silêncio dos satisfeitos, mas a expectativa ansiosa pela próxima explosão orgiástica, como um vício que já não produz euforia, apenas dependência. O mesmo se pode dizer de uma política que vive de narrativas grandiloquentes e de encenações simbólicas, enquanto a substância administrativa se dilui e a representatividade colapsa.

Nada dessa constatação implica qualquer nostalgia de uma ordem ascética ou hostilidade à alegria. A verdadeira alegria, ao contrário da excitação, supõe forma. Ela não precisa de volume para afirmar-se. É possível que uma cultura que perdeu a capacidade de silêncio também tenha perdido a capacidade de júbilo — restando-lhe apenas a compulsão pela algazarra.

Sem Quaresma, o Carnaval degenera em vertigem. Sem limite, a política degenera em espetáculo. Uma civilização pode sobreviver a crises econômicas e disputas ideológicas; o que dificilmente sobrevive é à dissolução do senso de limite. Sem limite, não há forma; sem forma, não há ordem; e sem ordem, a liberdade torna-se apenas palavra repetida em meio a um ruído que é tanto compulsivo quanto compulsório.

Ilustração: Júlia Xavier/Revista Oeste/Feito por IA

Quando a festa não celebra mais uma realidade reconhecida como boa, ela tende a converter-se em compensação. E a compensação, diferentemente da celebração, carrega sempre um traço de tensão. Talvez por isso o êxtase carnavalesco brasileiro, tanto nas avenidas quanto nos palácios, raramente se pareça com contentamento. Ele se aproxima mais de uma catarse. Como se o país inteiro estivesse tentando, por alguns dias — ou permanentemente — esquecer algo que não consegue nomear.

Esse algo — um mal-estar fantasiado — pode ser simplesmente a ausência de fundamento. Uma sociedade que perdeu o vínculo com qualquer horizonte transcendente tende a oscilar entre a tecnocracia fria e o hedonismo ruidoso ou, o que é pior, a misturar os dois registros, transformando a administração pública em farra.

A verdadeira festa, lembra Pieper, é sempre um “sim” ao mundo. Quando esse “sim” se esvazia, resta apenas o eco, sonoro e estridente, de uma afirmação não formulada. Mas o som, por mais estrondoso, pode até abafá-lo na consciência nacional, mas jamais substitui o sentido.

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5 comentários
  1. Gilberto Damasceno Morais
    Gilberto Damasceno Morais

    o excesso de propagandas no rodapé esta atrapalhado a leitura.

  2. Adalberto Franco Netto Telles
    Adalberto Franco Netto Telles

    Parabéns, Gordon, excelente artigo!

  3. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Será que os Vossa Incelença de toga de urubu vão ler esse artigo de Gordon? Parabéns Gordon e Oeste

  4. Enoch Bruder
    Enoch Bruder

    O carnaval é a expressão mais genuína da cultura brasileira. É o tempo em que o povo brasileiro se reúne para celebrar a sua própria ignorância e a sua própria miséria.
    Olavo de Carvalho

  5. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Carnaval tornou-se uma festa depressiva. Não há o que comemorar,a beleza foi enterrada,a decepção tomou conta e está visível na alma dos brasileiros. O PT destrói tudo que toca.Hoje está no poder ,amanhã poderá ser um novo dia.

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