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Ilustração: Jorm Sangsorn/Shutterstock
Edição 310

Os princípios da liberdade

O abuso de poder jamais fica restrito aos primeiros alvos

Lord Acton lamentava que a liberdade sempre tenha contado com poucos amigos sinceros ao longo da história. O que ele queria dizer é que poucos defendem os princípios da liberdade, enquanto a maioria luta por interesses particulares, de olho em suas vantagens imediatas. E isso leva a um duplo padrão, hipócrita muitas vezes.

O que se deve acusar, segundo o liberal Benjamin Constant, é o grau de força, e não os depositários dessa força. A soberania do “povo”, sendo ilimitada, cria um grau de poder demasiado grande, o que representa um mal por si mesmo, quaisquer que sejam as mãos em que for posto tal poder. Em suas palavras, “é contra a arma e não contra o braço que convém ser severo”. Ou seja, o poder arbitrário deve ser condenado, não importando quem está com ele agora.

Infelizmente, são poucos os que pensam assim. Muitos preferem aplaudir ou condenar o arbítrio dependendo de seu alvo, o que torna tal postura incoerente. Se o poder abusivo estiver sendo utilizado contra meus adversários, então eu me calo ou apoio o abuso. Mas pau que dá em Chico também bate em Francisco. O chicote invariavelmente muda de mão.

Somente agora que Alexandre de Moraes estaria disposto a partir para cima da imprensa tradicional, com “sangue os olhos”, que muitos jornalistas se deram conta do perigo de inquéritos ilegais. Até então, vários desses veículos de comunicação estavam justificando os abusos com o pretexto de combater “golpistas”. Moraes estava “salvando a democracia” quando o alvo era o bolsonarismo.

Ministro Alexandre de Moraes, do STF | Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
Ministro Alexandre de Moraes, do STF | Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Agora parece que acabou o período de hibernação e esses jornalistas despertaram para o perigo. Se o STF tratava qualquer crítica como um “ataque às instituições”, então parece evidente que o mesmo tratamento poderá ser dispensado aos jornalistas da Globo, que denunciaram o contrato multimilionário do escritório da família de Moraes com o Banco Master. Na lógica alexandrina, isso é uma “ameaça à democracia”, narrativa que a própria Globo usava.

O que mais chama a atenção nessa postura é sua ignorância histórica. Será que essa gente nunca leu sobre regimes tirânicos para entender que o abuso de poder jamais fica restrito aos primeiros alvos? Toda “revolução” devora seus pais. A jornalista Vera Magalhães chegou a publicar uma imagem que dizia: “Vigiar e Punir, Gostoso Demais”. No desenho, um careca com a Constituição numa mão e o martelo de juiz na outra. Será que Vera ainda acha gostosa a punição da “justiça” alexandrina? Quem vigia o vigia?

A jornalista Vera Magalhães apresentava o programa Roda Viva | Foto: Divulgação/TV Cultura
A jornalista Vera Magalhães apresentava o programa Roda Viva | Foto: Divulgação/TV Cultura

O pastor alemão Martin Niemöller alertou contra a passividade diante da injustiça com o seu famoso poema “Primeiro vieram…”. Ele alertou que, ao silenciar diante da perseguição de grupos minoritários, a sociedade permite que o mal se espalhe até atingir a todos, resultando em isolamento e na falta de apoio. Quando a perseguição atinge você, não há mais ninguém para gritar. Tudo que é preciso para o triunfo do mal é o silêncio dos bons, resumiu Edmund Burke.

Achar que é possível alimentar um monstro para atacar seu inimigo e depois contê-lo quando necessário é um erro bastante comum de quem conhece pouco a natureza humana. Depois que o gênio sai da garrafa, é muito difícil colocá-lo lá novamente. Quem alimenta corvos tem seus olhos arrancados. Não faltam aforismos e analogias para ensinar sobre os riscos de quem deseja usar de meios obscuros para perseguir seus adversários.

Os meios importam. Mas os “revolucionários” acham que seus nobres fins justificam quaisquer meios. O resultado é sempre o mesmo: uma tirania implacável que tende a punir inclusive aqueles que a defenderam no começo. Essa parece ser a situação no Brasil hoje. STF, Senado, Câmara, PGR: tudo aparelhado, tudo dentro de um conchavo para perseguir a direita, e o resultado é o aviltamento de nossas instituições republicanas, com os aplausos cúmplices da mídia. Quem vai consertar isso agora?

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4 comentários
  1. Antonio Carlos Cavalieri DOro
    Antonio Carlos Cavalieri DOro

    Só quando sentem na carne, percebem a realidade. Pois estão sofram como milhares de heróis e patriotas, então sofrendo.
    Sintam a faca sangrando suas liberdades. Hipócritas!

  2. Fausto Góes Fontes Neto
    Fausto Góes Fontes Neto

    Esse pessoal “culto” esqueceu de fazer uma leitura rápida de O príncipe.

  3. Victório Siqueira
    Victório Siqueira

    Excelente o texto do Constantino, com destaque para o último parágrafo que mostra como as instituições estão aviltadas e com apoio da grande midia e para a pergunta: “Quem vai consertar isso agora”. Acho que o STF que criou a bagunça, com a descondenação de Lula e a restituição de sua elegibilidade é quem tem obrigação de consertar: desfazendo os absurdos cometidos contra a lei, restituindo os direitos civis de quem foi injustamente perseguido e condenado, cancelando os inquéritos abusivos e as interferências em assuntos dos poderes executivo e legislativo, etc

  4. Luiz Antônio Alves
    Luiz Antônio Alves

    ´Boa.Agora só fiqui com acesso a teus comentários na Oeste.Na GAzeta não consigo mais. Aminha esposa era assinante do jornal e por razões familiares achei melhos passar a assinatura em meu nome. Não consegui, pois não existe mais o pagamento por boleto. Aqui no fundo do sertão todo mundo é minúsculo em teconologia. Quando ainda eu era impúbera li alguma coisa sobre os fundamentos do conservadorismo. A ideologia do século XVIII abalou o clero marxista. E até aqui, alguns vizinhos que recebiam um salário mínimo de aposentadoria foram assaltados pelo esquema do carecado inss e do master. Um, bem próximo, ficou sabendo que tinha sido renovada 5 vezes o empréstimo consigando que está nas mãos de um quinto banco virtual sem ele saber da terceirização macabra.. Torço para que os jornalistas ignorantes e com lavagem cerebral tenham perdido dinheiro num dos 120 banquinhos terceirizado pelo master e pela máfia.

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