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Ilustração: Júlia Xavier/Revista Oeste/Feito por IA
Edição 312

A turma

Um diálogo entre Rafael Borcaro e Alessandro de Voraz, com vinhos e charutos

Era assim que eles se autointitulavam: “a turma”. Um grupo de pessoas com muito dinheiro e poder, que basicamente comandava o país. Costumavam se reunir na mansão de um deles, o banqueiro Rafael Borcaro, onde havia um espaço reservado para fumarem charutos cubanos e beberem vinhos ou uísques caríssimos. Foi lá que aconteceu esse diálogo:

Borcaro: Cara, uma das minhas empregadas anda me incomodando muito. Quero moer essa vagabunda! E esses jornalistas que ficam falando do caso do Banco Mestre! Vou contratar capangas para simularem um assalto e meterem o pau num deles, quebrarem todos os dentes do sujeito!

Alessandro de Voraz: Nem me fala! Eu tive vontade de mandar jagunços para buscar na marra um jornalista lá em Orlando! Lá, ele está protegido pela lei das minhas garras. Já tentamos extradição duas vezes e nada. Os gringos não reconhecem crime de opinião, que inventamos aqui na Gilmarlândia. Mas se não consigo colocar minhas mãos nesse cara, ao menos vou para cima de outros da sua laia que estão aqui ainda. Cabeças vão rolar. Aliás, Borcaro, quando você pretende pagar o restante dos R$ 129 milhões contratados? Comprei mansão de milhões, não tão cara quanto a sua, mas tenho custos elevados…

Borcaro: Calma, companheiro. São muitas obrigações e a imprensa agora está em cima. Tive que enviar R$ 35 milhões para seu colega Frias Toffe. Esse caso do resort dele me deu um baita problema. Mas fique tranquilo que assim que a poeira baixar eu pago o resto. Você sabe que coloquei como prioridade a transferência dos R$ 3,6 milhões mensais para sua esposa.

Alessandro de Voraz: Eu sei, eu sei. E quando a mídia tornou isso público, os outros morreram de inveja! O Renato Levanzotski tinha fechado com você só R$ 6 milhões. Otário! E o Gui Margarina recebia um milhão por mês apenas. Mas, também, esse você foi bem escancarado de contratar. Todos sabem que o cara é uma besta e você mete ele de consultor?! Assim dá bandeira e acaba expondo a gente…

Borcaro: Não tive escolha. Precisava de um lobista para abrir portas no Planalto e marcar reuniões com o presidente Polvo da Silva. Mas rendeu bons frutos. Consegui até uma casquinha no esquema do INSS, com os consignados. O filho do cara é quem estava mandando ali junto com o careca — sem ofensas, ministro, mas é assim que ele era conhecido.

Alessandro de Voraz: Fica de gracinha que sua cabeça acaba rolando também…

Os dois riram, embora Borcaro tenha rido um tanto tenso. Deram mais umas baforadas no cubano e uns tragos do uísque de primeira. Passaram a falar das norueguesas que estavam chegando na festa. Em breve, era hora de abandonar os assuntos políticos e mergulhar na farra. Borcaro não poderia esperar: ele sabia como era importante fazer essas festinhas para filmar tudo e ter armas contra todos. Aprendeu com Jeffrey Epstein.

O problema é que eles não contavam com o sorteio que colocou a relatoria do Banco Mestre sob responsabilidade do ministro Tomé Andança. Evangélico, Andança rezava a Deus pedindo coragem para fazer o certo. E acertou: acatou pedido da Polícia Federal para nova prisão de Borcaro, pois teve acesso às trocas de mensagens no seu WhatsApp onde ele combinava agressões a desafetos no estilo Al Capone.

A PGR, pasmem!, não viu nada demais nisso e foi contra a prisão. Saulo Bonet, capacho do ministro Ilmar Gentes, estava ali para esse tipo de coisa mesmo. Ele pediu prisão para os inocentes do 8 de janeiro, para o ex-presidente Lair Closonauro e seu entorno. Mas um gângster combinando com sua turma de espancar jornalistas? Isso é parte do cotidiano normal, pelo visto. Era só um “desabafo”…

E assim segue a vida política nesse lindo país chamado Gilmarlândia. Totalmente dominada pelo crime, por mafiosos que se disfarçam de banqueiros, políticos e até ministros supremos. O povo assiste a tudo atônito, indignado, com a sensação de impotência. Será que algum dia esse país terá jeito?

Ilustração: Júlia Xavier/Revista Oeste/Feito por IA

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10 comentários
  1. Miklós Battonyai
    Miklós Battonyai

    Muitos devem ler e achar bastante criativo….infelizmente nada criativo, é a realidade que bate em nossas cabeças todos os dias…esses VAGABUNDOS tomaram nosso pais, tiraram nossa paz e encarceraram inocentes….so uma mudança de 66% do senado podera nos dar a ESPERANÇA de que tudo isso se reverta

  2. Edison Aparecido Mome
    Edison Aparecido Mome

    Poderia ser apenas uma sátira, mas infelizmente é a nossa realidade. Parabéns pelo artigo Constantino.

  3. Mildon Lopes dos Santos
    Mildon Lopes dos Santos

    Respondendo à sua pergunta no final do artigo: eu acho que infelizmente o Brasil não tem jeito, quando alguém faz as coisas certas vem outro e desmancha tudo.

  4. MARTIR FRANCISCO
    MARTIR FRANCISCO

    Meu caro, você foi por demais criativo. Fico no aguardo do que pode acontecer com esses novos personagens.

  5. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Parabéns Constantino pelo artigo, inteligência .ironias e verdades .Brilhou.

  6. Andre mendonça
    Andre mendonça

    E o povo? Como no golpe que expulsou D. Pedro II, assiste tudo abestalhado…

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