Nos Estados Unidos e no Brasil, é possível observar um fenômeno curioso: o surgimento de uma “direita” cujas ideias e ações são quase indistinguíveis daquelas da esquerda. Na América, esse grupo recebeu o nome de direita woke; aqui, podemos chamá-la de direita progressista. Essa “direita” raciocina como a esquerda, compartilha da mesma visão do mundo e utiliza muitas de suas táticas. Algumas das pautas da direita progressista são pautas da esquerda, com o sinal trocado. Outras nem mudam o sinal. Por exemplo: a direita progressista vê a sociedade com o mesmo pensamento identitário e vitimista da esquerda — apenas as vítimas são diferentes.
Da mesma forma que a esquerda, a direita progressista acredita que o Estado deve resolver todos os problemas, mesmo que isso custe um preço alto em termos de liberdade e direitos fundamentais. A direita progressista deseja o Estado como intermediário de todas as relações sociais — incluindo as relações entre empregador e empregado e entre homem e mulher. A direita progressista ama o Estado grande, não compreende o conceito de desregulamentação e acredita que todas as dificuldades do universo podem ser vencidas se for criada uma lei para tratar de cada uma delas.
Não há nada que a direita progressista ame mais do que fazer uma lei.
A origem da direita progressista pode ser explicada de muitas formas, mas todas envolvem uma mistura de desinformação, doutrinação e um nível de ingenuidade assustador para quem exerce funções públicas. Seus militantes acreditam que são de direita porque ostentam alguns sinais de virtude — como ser religioso ou ter uma família. A maioria não conhece — e nem demonstra interesse em conhecer — os fundamentos teóricos básicos do conservadorismo, do liberalismo e do libertarianismo. Não é possível ser um político de direita sem agir de acordo com esses princípios.

O conservadorismo não é um sentimento. Ninguém é conservador porque vai à missa ou frequenta o culto. Ser conservador é conhecer, defender e praticar um conjunto de ideias e princípios que tem reflexos diretos e imediatos na ação política. O mesmo vale para o liberalismo e o libertarianismo.
Quem não é conservador, liberal ou libertário, não é de direita.
O desconhecimento de princípios básicos torna os políticos da direita progressista incapazes de formular objeções a projetos populistas, cujo objetivo é dividir a sociedade, alimentar o ativismo judicial e manter um grande número de pessoas na dependência econômica e psicológica do Estado.
A direita progressista é responsável pela aprovação de projetos que criminalizam a expressão, sempre com a narrativa de que estão protegendo minorias e defendendo direitos — mas o resultado desses projetos é exatamente o oposto. É evidente, para qualquer observador da cena política do Brasil, que uma legislação como essa, cheia de conceitos identitários de origem marxista (via a “Teoria Crítica” da Escola de Frankfurt), será usada para controlar as redes sociais e prender os adversários políticos. Os alvos prioritários — ou exclusivos — serão, evidentemente, políticos, ativistas e cidadãos de direita — inclusive da direita progressista.
Os direitistas progressistas nada aprenderam com o episódio do comediante Léo Lins, ou com o que sofreu a escritora e pesquisadora Nine Borges, ou com a condenação de Débora dos Santos a 14 anos de prisão por escrever com batom em uma estátua. Diante dessa catastrófica insegurança jurídica, a direita vermelha ainda acredita que leis que criminalizam a expressão — leis feitas e aprovadas em parceria com a extrema esquerda — terão efeitos positivos.
Os direitistas de ocasião não entendem que a liberdade de expressão inclui o direito de ofender. Se essa ofensa se constituir em injúria, calúnia ou difamação, a lei atual já oferece remédio.
O fato de alguém se sentir ofendido com alguma coisa não significa que essa coisa não deva ser dita — ou então seremos, realmente, um país de “duzentos milhões de pequenos tiranos”, onde todo cidadão será transformado em um censor e um delator, e todas as postagens serão apenas emojis de coraçãozinho e receitas de bolo. Um país assim é o sonho dos tiranos.
Mesmo quando uma declaração é claramente, e intencionalmente, ofensiva a alguém, isso não significa que se trata de um crime. É óbvio. Por exemplo: eu posso apontar um parlamentar da direita progressista e afirmar que se trata de uma pessoa despreparada e desqualificada — e o alvo da minha crítica tem todo direito de se sentir ofendido. É claro que ele preferia ser chamado de inteligente. Mas é evidente que eu não cometi nenhum crime.
Quando vigora o Estado de Direito — quando as liberdades fundamentais são protegidas pelas leis — não existe o direito de não ser ofendido.

Resta lidar com o último argumento dos progressistas de direita: o de que certos tipos de expressão incitam crimes contra minorias e, por isso, devem ser proibidos. A melhor resposta já foi dada por André Marsiglia: o único tipo de expressão que deve ser criminalizado é aquele que defende a destruição de uma pessoa ou grupo. A lei brasileira já faz isso há muito tempo.
Ao propor e apoiar leis que criminalizam palavras — leis cuja redação, propositalmente vaga, está encharcada do ideário marxista radical — a direita progressista armou seus algozes. Essa é a vergonha maior dos que se dizem cristãos, mas que, cegos por sua ignorância e empáfia, vestem uma fantasia conservadora para fazer o servicinho sujo de Marx e Gramsci.
A direita vermelha nunca leu Regras Para Radicais, o livro em que Saul Alinsky ensina aos seus militantes: “a questão nunca é a questão; a questão é sempre o poder”.
Ter pessoas com esse nível de despreparo, produzindo leis cujos efeitos eles não conseguem compreender, é uma tragédia.
Leia também “A reforma necessária”




Não concordo . Quem defende estado grande e intervenção estatal em assuntos cotidianos nãé e direita, mesmo que pense ou finja que é.
Não passa de um esquerdista disfarçado ou perdido.
Motta, seu artigo é esclarecedor para muitos desavisados.
Esta “direita progressista” colabora para colocar advogados sem qualificação no STF.Se for considerado somente o requisito “consuta ilibada” na atual composição do Pretório Excelso provavelmente sobraria 2 integrantes.
A aprovação da Lei de Misogenia aprovada pela maioria do Senado para “proteger” as mulheres é um tiro no pé, e agora resta a Câmara dos Deputados barrar essa estupidez.
Motta,
FHC & CIA. tucana, seriam enquadrados em qual categoria de enganadores?. Como ex tucano, como pudemos ser enganados tanto tempo por esses sem caráter?
Pessoal da direita no senado votou alegremente no advogado do Lula e no comunista Dino para o STF. Direita sem-vergonha.
Ao ler seu texto, Motta, lembrei que o Flávio Bolsonaro votou a favor desse maldito projeto que criminaliza opiniões. Acho que a carapuça serviu, né?
Perfeita análise, Mota
Essa direita progressista nada mais é do que a velha esquerda.
Faltou dar nome aos bois, Motta. Principalmente porque estamos em ano eleitoral.
MBL