publicidade
Ilustração: Júlia Xavier/Montagem Revista Oeste/Gerado por IA
Edição 315

A guerra dos robôs

A realidade dos conflitos muda rapidamente e a Ucrânia é o laboratório dessa nova era

Imagine-se numa guerra. Você carrega um fuzil, usa seu capacete, leva uma pistola na cintura e seu equipamento de comunicação com o comando. Arrasta a perna por causa de um ferimento mal curado. Está cansado, não dorme há dias. O estômago ronca de fome. De repente, aparece à sua frente um robô de 1,80 metro de altura e 80 quilos. Está armado com um rifle M-16 e carrega 40 quilos de equipamentos. Corre mais do que você: 1,7 metro por segundo. Não sente fome, não sente dor, não precisa dormir. Vai encarar?

Trata-se do robô-soldado Phantom MK-1, criado pela empresa Foundation, fundada pelo ex-Marine Mike LeBlanc, que lutou por 14 anos no Iraque e no Afeganistão. De guerra, ele entende. E de tecnologia também. O Phantom MK-1 foi o destaque de uma reportagem da revista Time sobre o futuro da guerra. A empresa Foundation já tem contratos de pesquisa com o Exército, a Marinha e a Força Aérea dos Estados Unidos. E o Phantom está sendo testado pelos Marines para colocar explosivos em portas trancadas, de modo que os soldados reais corram menos riscos em operações de invasão.

Robô-soldado Phantom MK-1, criado pela empresa Foundation | Foto: Reprodução

Os planos da Foundation são agressivos. Segundo reportagem da revista Forbes, a empresa pretende produzir 50 mil robôs até o fim de 2027. O plano é alugar os soldados por aproximadamente US$ 100 mil por ano, com direito a manutenção e reparos.

Parece muito, mas um robô funciona sem parar e pode realizar tarefas que humanos não se arriscariam a cumprir. “Isso incluiria portar uma arma dentro de um prédio em cenários de luta urbana, ser o primeiro a chegar ao topo de uma colina ou entrar em uma caverna para procurar combatentes inimigos”, explica a matéria da Forbes.

Dois Phantom MK-1 já entraram em combate. Foram usados em “apoio de reconhecimento na linha de frente” para as forças armadas da Ucrânia. É apenas um ensaio para operações mais complexas. Uma delas pode ser vigiar a fronteira sul dos EUA.

O primeiro combatente

Mike LeBlanc tem uma visão muito otimista sobre o futuro dos soldados-robôs. Robôs não sofrem traumas, são mais precisos, não se cansam, operam em condições extremas e são imunes a ataques químicos, biológicos e à radiação. LeBlanc vai além: ele acredita que, quando dois países em conflito tiverem grandes exércitos de robôs, pensarão duas vezes antes de atacar. Seria um fator de dissuasão.

O artigo da Time mostra outros fatores não tão positivos: “Soldados humanoides reduzem as barreiras políticas e éticas para o início de conflitos, obscurecem a responsabilidade por quaisquer abusos e desumanizam ainda mais a guerra”. Não é uma questão de fácil solução, mesmo porque ainda está muito no início de seu desenvolvimento. Robôs poderão impedir guerras, como aconteceu com a ameaça das armas nucleares? Ou vão acelerar o início de conflitos ao agir sem controle humano?

Ilustração: Montagem Revista Oeste/Gerado por IA

Os protocolos atuais do Pentágono determinam que sistemas automatizados só podem entrar em ação com autorização humana. A Foundation garante que essa também é sua intenção para o Phantom. Mas o processo já começou. Mike LeBlanc, que levou dois de seus robôs Phantom para treinar na Ucrânia, ficou impressionado com o que viu. “É uma completa guerra de robôs”, disse ele à Time, “onde o robô é o primeiro combatente e os humanos atuam no apoio”. Essa nova realidade leva a outro ponto de reflexão: se os robôs ocupam a linha de frente da batalha, eles serão os principais alvos. E, portanto, menos humanos deverão ser atingidos.

A Ucrânia virou um campo de testes para empresas de robótica aplicada. Drones autônomos lançados pelos ucranianos podem voar centenas de quilômetros, localizar soldados russos e soltar seus explosivos sem qualquer interferência humana. Em janeiro, três soldados russos feridos em batalha se renderam a um robô em formato de tanque.

Os cães-robôs chineses

Já existe uma corrida entre os EUA e a China no desenvolvimento dessas máquinas bélicas, com formato humano ou não. O Exército de Libertação Popular (PLA) da China desenvolveu uma tecnologia chamada “real steel” (“aço verdadeiro”), usando robôs capazes de replicar cada gesto de um operador humano. Teoricamente, seus operadores observarão os robôs no campo de batalha e os orientarão a agir.

Os chineses também desenvolveram cães-robôs, máquinas quadrúpedes armadas com fuzis automáticos para “operações de assalto urbano e reconhecimento”. Eles se baseiam numa estratégia chamada “enxame”. Antes de enviar seus soldados humanos, lançam uma frente de robôs para enfraquecer e desorientar as defesas inimigas.

A automação da guerra já está em curso há muito tempo. Drones cumprem missões nos dois principais conflitos armados da atualidade: Rússia × Ucrânia e EUA e Israel × Irã. Sistemas de defesa antimísseis (como o Domo de Ferro israelense) sequer funcionariam se dependessem de um comando humano. O sistema observa um míssil se aproximando, calcula automaticamente sua trajetória e lança um contramíssil em sua direção. É uma operação de poucos segundos que está salvando grande parte da população de Israel.

As minas inteligentes

O objetivo dessa modernização nem sempre é provocar maior destruição. Pesquisas com inteligência artificial (IA) e com IoT (internet of things, ou “internet das coisas”) permitiram, por exemplo, a criação de “minas inteligentes”. Minas terrestres costumam ser uma das piores pragas de conflitos armados e guerras civis. Enterradas a pouca profundidade da superfície, explodem quando alguém pisa nelas — seja soldado, civil ou animal. O resultado é que, durante anos ou décadas após o fim do conflito, a população civil continua a pisar acidentalmente nessas bombas ocultas, perdendo membros ou a própria vida.

As novas minas inteligentes podem ser programadas para se autodestruir ou serem desativadas após um período predeterminado. Possuem sensores que permitem que só explodam quando um veículo pesado (como um tanque) passa por cima. Em caso de paz ou trégua, podem ser desligadas por controle remoto.

O sonho de John Lennon

Seria bom que soldados e minas não fossem necessários? Que não houvesse guerras? Que todas as pessoas vivessem em paz, compartilhando o mundo, como no sonho de John Lennon? É uma possibilidade bonita para ser cantada ao som de um piano branco em um apartamento de Manhattan. No mundo real, as guerras continuam. E as armas estão efetivamente mudando de mãos. A imagem de robôs-soldados causa, à primeira vista, medo e repugnância. “Essas máquinas não são agentes morais ou legais”, declarou à Time Peter Asaro, roboticista e filósofo. “Elas nunca entenderão as implicações éticas de suas ações.”

Um robô terá menos limites éticos do que, por exemplo, um membro da Guarda Revolucionária do Irã (a força militar que matou cerca de 40 mil cidadãos do próprio país)? O que é pior: um robô com vontade própria ou um soldado autorizado a praticar barbáries?

Ilustração: Montagem Revista Oeste/Gerado por IA

dagomirmarquezi.com
@dagomirmarquezi

Leia também “A morte vem do alto”

Leia mais sobre:

0 comentários
Nenhum comentário para este artigo, seja o primeiro.
Anterior:
São Paulo avança na segurança pública
Próximo:
Entre a sobrevivência e o futuro
publicidade