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Um militar da 59ª Brigada de Assalto Independente de Sistemas Não Tripulados, nomeada em homenagem a Yakov Handziuk, das Forças Armadas da Ucrânia, lança um drone de reconhecimento, em meio ao ataque da Rússia à Ucrânia, perto da cidade de Pokrovsk, na região de Donetsk, Ucrânia, em 6 de outubro de 2025 | Foto: Stringer/Reuters
Edição 297

A morte vem do alto

Nos céus da Ucrânia (e do Rio de Janeiro) estão as novas armas de guerra: os drones

No princípio, as guerras eram uma bagunça. Uma tribo atacava a outra e quem sobrasse era o vencedor. Na Antiguidade, as falanges gregas e as legiões romanas desenvolveram o princípio de formações rígidas e disciplinadas. Na Idade Média, a cavalaria passou a ocupar o protagonismo. 

A partir do século 14, a pólvora inaugurou a era da guerra à distância. O século 20 mudou tudo, com os veículos mecanizados, a aviação e as armas nucleares. Nosso século 21  levou os conflitos para a era da “guerra híbrida”. A tecnologia e a informação ocuparam um território cada vez maior, como nos ataques de hackers. E dos drones.

Vídeo do canal Realidade Militar informa que 60% a 70% das baixas na guerra da Ucrânia são causadas por drones baratos. 

Um único míssil Patriot custa cerca de US$ 4 milhões. Uma bateria completa de Patriots, incluindo radar, lançadores e outros equipamentos pode chegar a US$ 1 bilhão. Não tem sentido gastar essa montanha de dinheiro para interceptar um drone russo que custa entre US$ 30 mil e US$ 100 mil. 

A estrela do vídeo a seguir é Yurii, um ucraniano de 18 anos que, por questão de segurança, não pode se identificar. Com um parceiro, algum conhecimento adquirido no YouTube e uma impressora 3D, imaginou uma forma muito mais barata de derrubar os drones russos. 

Yurii bolou uma espécie de granada que lançaria uma rede para apanhar os drones inimigos. A Terceira Brigada de Assalto da Ucrânia, que costuma testar tecnologia de ponta, se interessou pelo projeto de Yurii. Mas não tinha lança-granadas suficientes para o teste. Pediram para Yurii adaptar a ideia para espingardas. 

O teste inicial funcionou muito bem. A Terceira Brigada encomendou cem protótipos para testar no campo de batalha. A princípio essa encomenda ficou meio emperrada, mas as forças especiais operando em Kursk usaram o projeto para derrubar drones russos de ataque e reconhecimento. Por uma pechincha.

Ilustração: Dagomir Marquezi/Revista Oeste/Feito por IA

Startups de guerra

A rede barata de Yurii vai além de salvar a vida dos compatriotas. Ela revela uma nova realidade da economia de guerra.

A Rússia depende de fábricas gigantes, como a instalação de Alabuga, que produz 5 mil drones pesados por mês. O que revela uma economia centralizada, burocrática, dependente de decisões estatais. 

A Ucrânia partiu para a descentralização. Produz armamentos em pequenas oficinas, apartamentos, porões e armazéns. Com essa agilidade, a resposta aos novos armamentos russos aparece em poucas semanas. Ao invés das mega construções estatais russas, a Ucrânia criou o Brave1, que incentiva a criação de armamentos baratos em startups, com base na iniciativa privada. 

O Brave1 ajuda os inventores e coordena sua produção com o aparato militar. E chega a resultados surpreendentes, como a pistola antidrones. Ela emite frequências de rádio que desligam os controles dos drones inimigos a 100 metros de distância. 

Os barcos suicidas

Nem todo drone voa. Os ucranianos desenvolveram o Magura, um drone marítimo que já afundou quase um terço da frota russa no mar Negro e botou muitos navios para fugir. Os Maguras são, segundo matéria do jornal britânico The Times, “barcos suicidas” operados por meio de links de satélites. 

Esses barcos estão armados com torpedos, drones aéreos e metralhadoras. E não levam ninguém a bordo. “A Ucrânia avançou para a próxima geração da guerra naval com drones”, resumiu o autor do artigo, Maxim Tucker. Os ucranianos chegaram ao ponto de automatizar suas armas.

Enquanto os russos desfilam seus navios na TV estatal, os técnicos ucranianos alimentam seus programas de IA com as imagens das embarcações. No monitor, a Inteligência Artificial identifica navios civis com um sinal verde, os navios de apoio com um sinal amarelo e as embarcações militares com um sinal vermelho. 

Quando aparece o sinal vermelho, os drones ucranianos vão atrás. Operadores humanos em terra, protegidos em suas salas de controle, coordenam o ataque com os drones. Se os russos interferem na comunicação, os ucranianos mudam a frequência. Se o sinal se perde de vez, os Maguras já sabem onde está o inimigo identificado com o sinal vermelho. E atacam por conta própria.

Se rendendo a robôs

No início deste mês, drones ucranianos realizaram um ato inédito: causaram a rendição de um grupo de soldados russos. 

Primeiro, os soldados da Ucrânia mandaram um drone terrestre carregado com uma bomba na direção dos invasores, estacionados perto da cidade de Kharkiv. Os soldados russos saíram da toca com um cartaz escrito: “Queremos nos render”. Foi a vez de aparecer um drone aéreo, que indicou o caminho que os russos deveriam percorrer até serem aprisionados pelos soldados ucranianos.

O jornal The Times relata que, com o tempo, as forças ucranianas criaram uma linha telefônica chamada “Eu quero viver”, que já recebeu centenas de chamados. O soldado russo querendo se render liga e recebe indicação de um ponto de encontro. Algum tempo depois um drone ucraniano aparece, como um Uber, e o leva até o local de rendição.

Um militar ucraniano do 14º Regimento Independente de Sistemas Aéreos Não Tripulados das Forças de Sistemas Não Tripulados (USF) das Forças Armadas da Ucrânia caminha ao lado de um veículo aéreo não tripulado de ataque profundo antes de lançá-lo em direção ao território russo, em meio ao ataque da Rússia à Ucrânia | Foto: Valentyn Ogirenko/Reute

Os novos heróis de guerra

Essa revolução nas operações militares ucranianas está criando um novo tipo de herói: o piloto de drone, geralmente um garotão com muitas horas de videogame. Como nas competições, eles trocam os vídeos de seus maiores sucessos no campo de batalha. O maior sinal de vitória não é a morte do inimigo, mas sua rendição — usada depois como moeda na troca de prisioneiros.

Mas a vida dos pilotos ucranianos de drones não está fácil. Segundo o jornal Financial Times, os russos criaram um comando chamado Rubikon, especializado em localizar e matar os operadores ucranianos. “É fácil substituir um drone”, diz Dmytro, um desses operadores. “Mas é difícil substituir um piloto de drone”. O que fazer? “Seja humilde, seja silencioso, esconda sua posição e não se mexa quando não for necessário”, aconselha Dmytro.

O Brasil já teve um gosto amargo dessa realidade quando descobriu que o Comando Vermelho estava usando drones contra policiais cariocas.

Quanto à Rússia… Eles também usam drones, muitas vezes operados de luxuosos apartamentos em Moscou. Mas Vladimir Putin não consegue se desligar da mentalidade do passado. Reportagem do Wall Street Journal mostrou o treinamento militar convencional de crianças entre 6 e 8 anos nas escolas. Na oitava série, aprendem disciplina militar, como armar metralhadoras Kalashnikov e pilotar drones. 

Livros escolares doutrinam estudantes com a noção que o Ocidente é inimigo da Rússia. O Ministério da Defesa tem seu próprio Exército da Juventude com 1,85 milhão de membros entre os 8 e os 18 anos. As escolas russas começam a semana com uma hora de doutrinação sobre os valores russos e frases como “viver significa servir à sua pátria”. 

Desde o ano passado, estudantes estão aprendendo como parte do currículo escolar a manejar metralhadoras, armas antitanques e rifles para snipers, além de matérias como “operações psicológicas” e “unidades de comando”. 

Na Ucrânia, o jovem Yurii cria armas contra os invasores em startups no dinamismo econômico típico do século 21. A Rússia de Vladimir Putin permanece na mentalidade da “pátria mãe” que Josef Stalin implantou na União Soviética na década de 1930.

Militares de uma unidade de defesa aérea da 115ª Brigada Mecanizada Separada preparam um drone interceptor FPV durante um turno de combate perto da cidade fronteiriça de Kupiansk, em meio ao ataque da Rússia à Ucrânia, na região de Kharkiv, Ucrânia, em 14 de novembro de 2025 | Foto: Sofiia Gatilova/Reuters

“Vigilância eterna”

Os russos também estão investindo pesadamente em drones. Eles preferem o ataque de enxames de combinados com mísseis atacando a infraestrutura da Ucrânia e a população civil. Só no mês de setembro foram mais de mil drones, segundo o New York Times. Numa única noite, os russos realizaram 810 ataques de drones — e a Ucrânia garante que derrubou 92% deles. Parques frequentados por crianças, edifícios de apartamentos, hospitais e escolas já foram alvos dos drones russos. Os ataques não se limitam à Ucrânia. Recentemente a Rússia mandou drones para provocar países da Otan, como a Polônia, a Romênia e a Dinamarca.

A Ucrânia vai vencer o gigante russo? Dificilmente. Mas já está resistindo há quase quatro anos a uma invasão que Vladimir Putin achou que ia ser um passeio.

Mesmo assim, o problema só aumenta. Em depoimento ao Financial Times, o empresário ucraniano Serhiy Skoryk declarou que existem cerca de 40 mil operadores de drones na Rússia. Mesmo que a guerra acabe, muitos deles irão trabalhar para criminosos, terroristas e traficantes. O Brasil já teve um gosto amargo dessa realidade quando descobriu que o Comando Vermelho estava usando drones contra policiais cariocas.

“A lição da Ucrânia é que a tecnologia de drones já mudou para sempre as regras da guerra — e da paz”, conclui o colunista John Thornhill, do Financial Times. “A verdade dura é que as defesas contra drones agora exigirão vigilância eterna, não apenas investimentos emergenciais.”


dagomirmarquezi.com
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1 comentário
  1. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Essa tecnologia tá levando o homem para sua própria eliminação. Nós brasileiros não sabemos da missa um centésimo graças a prioridade desse sistema socialista de engessamento do país. Nossos drones são a afanação do dinheiro público, nesse ramo somos a maior potência do mundo

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