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Projeto da refinaria Abreu e Lima, no litoral sul de Pernambuco | Foto: Reprodução/Agência Petrobrás
Edição 316

Lula + Chávez + Dilma deu nisso

O que a Refinaria Abreu e Lima tem a ver com mais uma crise de combustível no Brasil

“Onde isso vai parar?”, resmunga o cliente ao frentista. O rapazinho, de tanto escutar, já sabe que aquilo é um desabafo, não uma pergunta. E se limita a indagar se é para encher o tanque. “Melhor aproveitar, senhor. Semana que vem… sei não.” Enquanto abastece, com o olhar fixo na acelerada progressão dos dígitos do valor a pagar, vê o filho grudado no celular e fica mais impaciente ainda com a alienação do moleque. Por birra, resolve interromper a diversão. “E aí? Não se fala disso aqui lá no teu colégio?” O garoto fecha o sorriso e sai do transe aos poucos. Só consegue lembrar que a professora de História disse, “um dia lá”, qualquer coisa sobre a sorte do Brasil de ter “um monte” de petróleo. Volta ao celular. E o pai arranca com a certeza de que as coisas não se encaixam e que o filho — quem sabe até a professora — está perdido na matéria. Todos estamos, na verdade.

A coluna da semana passada trouxe à superfície novamente um estudo de 2022 que dá números ao grande paradoxo brasileiro. Com a descoberta e a exploração do pré-sal, o país se tornou exportador de petróleo, mas, por falta de investimento em refino, continua até hoje dependente da importação em larga escala de derivados fundamentais como o óleo diesel, o combustível que move a economia brasileira. Move ou paralisa, porque quando o suprimento mundial entra em colapso, o Brasil paga muito caro para trazer do exterior o diesel que não consegue produzir aqui, e que corresponde a um terço do consumo nacional. Tudo poderia ter sido muito diferente, e muito melhor.

De 1954 até 1999, a Petrobras instalou uma capacidade de refino de 2 milhões de barris/dia, tendo investido quase U$ 25 bilhões. Já no pequeno período de 12 anos que se situa entre 2003, início do primeiro governo Lula, e 2015, sob o governo Dilma Rousseff, foram despejados R$ 100 bilhões, quatro vezes mais que todo o montante alocado pela Petrobras em cinco décadas de história. O resultado? Um acréscimo de meros 20% na capacidade de refino, hoje de 2,4 milhões de barris/dia.

A pergunta-chave — onde foi parar tanto dinheiro? — teve resposta na Operação Lava Jato, o megaescândalo de corrupção que o Brasil desvendou e o Supremo Tribunal Federal empurrou para debaixo do tapete por força de acordos políticos espúrios que a história ainda haverá de julgar e sentenciar em um prazo, espera-se, não tão longo.

Enquanto o dia da verdade não chega, convém trazer à memória de brasileiros distraídos, e de gerações que começam a tomar ciência das mazelas do país, episódios que levaram a descalabros como o dos dias atuais. E o caso mais emblemático deste fundo de poço ao qual o país foi jogado por incúria e corrupção atende pelo nome de Abreu e Lima, a refinaria do nordeste, também conhecida no jargão técnico pela sigla RNEST. 

Presidente Lula com 70 funcionários da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco | Foto: Ricardo Stucker/PR

Era um dia de sol abrasador aquele 16 de dezembro de 2005 em Ipojuca, no litoral sul de Pernambuco, Estado natal de Lula. Ali, no complexo portuário de Suape, o presidente brasileiro recebeu Hugo Chávez, o falecido fundador do regime bolivariano que submeteria os venezuelanos a uma feroz ditadura depois comandada por seu sucessor, Nicolás Maduro, hoje preso nos Estados Unidos sob acusação de chefiar um cartel de narcoterrorismo.

A razão para o encontro era o lançamento das obras de construção de uma refinaria novinha em folha no nordeste do Brasil — um projeto criado do zero, ou greenfield, como dizem os experts.

O público teve de suportar cerca de duas horas escutando discursos intermináveis, e com alto teor de ideologia, dos dois governantes. Chávez estava exultante: o empreendimento conjunto de Brasil e Venezuela daria concretude à visão de uma América Latina unida sob bandeiras vermelhas.

Hugo Chávez e Lula
O então ditador venezuelano Hugo Chávez e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em evento voltado à indústria petrolífera — Carabobo, Venezuela, 13/11/2006 | Foto: Wilson Dias/Agência Brasil/Arquivo

Era o sonho da “Pátria Grande” se materializando na parceria com Lula, um dos artífices do Foro de São Paulo, ao lado de Fidel Castro e dele próprio, Chávez. O discurso de Chávez trazia palavras de confiança na reeleição do colega brasileiro, que no ano seguinte, 2006, enfrentaria a disputa chamuscado pelo escândalo do Mensalão — o esquema de suborno levado a efeito pelo Planalto para comprar o voto de congressistas corruptos.

Este era o clima. De petróleo pouco se falava. Nem de refino, que é o que importaria em uma visão de estadistas. No máximo, referências vagas, aquelas de sempre, sobre soberania, autonomia, autossuficiência.

“Por que Abreu e Lima?”, todos se perguntavam sobre o nome dado à refinaria. Foi uma sugestão do “companheiro Chávez”, explicou Lula, maravilhado com a ideia. Primeiro, porque José Inácio Abreu e Lima, misto de intelectual e militar, era pernambucano como Lula, e saíra do Brasil para juntar-se às lutas de independência na Colômbia e na Venezuela. Era um dos generais de Simón Bolívar. O figurino perfeito para o discurso de integração latino-americana contra o imperialismo.

Estava tudo muito bom, estava tudo muito bem. Até o dia seguinte. Era preciso construir a refinaria. Passar das palavras à ação. E, sobretudo, cumprir acordos. A estatal Petróleo de Venezuela (PDVSA), em cuja sede o regime bolivariano já fixou inscrições como “Socialista e Indestructible”, garantiu que arcaria com 40% do custo de implantação de Abreu e Lima. Mas de Caracas o Brasil não recebeu nada, a não ser slogans como “Patria, socialismo o muerte”, lema militar do chavismo. Pois o destino da PDVSA foi praticamente la muerte. Hoje, é incapaz de explorar as formidáveis reservas de petróleo que a Venezuela possui, as maiores do mundo, superiores, com folga, às da Arábia Saudita.

Sí, pero… E a Petrobras, como ficou nessa história? A gigante brasileira ficou esperando, esperando, pendurada na palavra de Chávez. Mas a PDVSA,  ou “Pedeveza”, como é chamada, nunca se tornou sócia formal da Refinaria Abreu e Lima. Discutiu termos do contrato, negaceou, procrastinou e acabou deixando de lado a romântica ideia de colocar dinheiro na terra natal de Lula e do general pernambucano que lutou com Bolívar para “libertar” a Venezuela do colonialismo espanhol.

Ex-presidente Dilma Rousseff | Foto: Reprodução/Agência Petrobrás

Anos depois, já entronizada como sucessora do lulopetismo, a presidente Dilma Rousseff bateu na mesa e reconheceu o óbvio. Os venezuelanos não viriam, mas o projeto iria sair assim mesmo. Era grande demais, e foi anunciado com tanta pompa, que não poderia ser simplesmente esquecido. A Petrobras assumiu 100% dos custos, embalada pelo sentimento ufanista de Dilma, disposta a pisar fundo no acelerador dos investimentos públicos para conseguir o que chamou de “pibão grandão” — referência ao crescimento de mais de 7% do PIB em 2010, último ano do segundo governo Lula.

O “pibão” de Dilma não veio. A gastança, sim. Orçada inicialmente em US$ 2,5 bilhões em 2005, o ano em que Chávez e Lula anunciaram conjuntamente o projeto binacional, a Refinaria Abreu e Lima (RNEST) passou por sucessivas reavaliações de custos — e a cada uma delas as cifras cresciam em proporção notável. Já em 2006, portanto apenas um ano depois, a Petrobras redimensionava o investimento para US$ 4 bilhões. No final de 2009, o orçamento da refinaria do nordeste já passava dos US$ 13 bilhões. Em 2014, com o Brasil em recessão econômica, a Petrobras reestimava novamente o investimento: US$ 18,5 bilhões. Mas o valor total investido até então alcançara, segundo estimativas, ao redor de US$ 20 bilhões.

Tudo isso para conseguir fazer a Refinaria Abreu e Lima funcionar parcialmente — apenas o Trem 1 (que você pode entender como Unidade 1, ou, ainda, Refinaria 1), com capacidade para refinar 130 mil barris/dia. O Trem 2, que duplicará esta capacidade, não entrou em operação até agora, e não será antes de, pelo menos, 2029, mediante novos investimentos da Petrobras cujo montante também não se sabe ao certo, dada a inconstância dos orçamentos.

Polícia Federal, Tribunal de Contas da União e outros órgãos de controle apuraram muito a respeito desta e de outras histórias trágicas sobre como o Brasil pôde gastar tanto e, malgrado todos os investimentos, colher tão pouco, a ponto de ainda hoje precisar buscar no exterior um terço do diesel que movimenta a agricultura, a indústria, o comércio, os serviços, o transporte e, por extensão, o consumo das famílias.

O que o Brasil despejou em Abreu e Lima, e o que obteve em termos de capacidade de refino, revela, pelos padrões internacionais, um investimento cinco vezes mais oneroso — se considerado o custo de refinar um barril de petróleo para dele extrair um derivado fundamental como o óleo diesel.

No diálogo reproduzido no início deste artigo para ilustrar o drama do brasileiro comum, podemos imaginar o garoto voltando à escola e questionando a professora de história sobre, afinal, por que só se fala em crise de combustível no Brasil se ela mesmo andou dizendo para a turma que temos a sorte de possuir tanto petróleo no fundo do mar. Ela pode afirmar que a culpa é de Donald Trump por atacar o Irã e levar os aiatolás a fecharem o Estreito de Ormuz, estrangulando o comércio internacional de petróleo. Ou pode dizer que o Brasil já deveria ser autossuficiente em refino de petróleo, assim como é em exploração de petróleo bruto. Faça sua aposta.

Ilustração: Júlia Xavier/Montagem Revista Oeste/Gerado por IA

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6 comentários
  1. Luiz Fraga
    Luiz Fraga

    Infelizmente a corrupção é cultural neste país; está no DNA do brasileiro.
    “A gente somos inútil!” (Roger, “Ultraje a Rigor”)

    1. Eugênio Esber
      Eugênio Esber

      Volta e meia este refrão me tem vindo à cabeça, Luiz.

  2. Roberto Carlos Furtado De Souza
    Roberto Carlos Furtado De Souza

    Isto é o Brasil sendo Brasil, infelizmente o povo não enxerga ( ou não quer) e continua a colocar ladrões no poder….

    1. Eugênio Esber
      Eugênio Esber

      Não enxerga, Roberto. Acredito que o povo não enxerga. O que aumenta nossa responsabilidade de conversar mais com os nossos circunstantes.

  3. Renato Perim
    Renato Perim

    A “profeçora” invariavelmente vai achar um jeito de culpar o “Boçonaru”.

    1. Eugênio Esber
      Eugênio Esber

      Mais conhecida, Renato, no âmbito da garotada, como Feçora.

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