Após mais de um mês do início da guerra no Irã, as cotações do barril de petróleo chegaram a beirar os US$ 120. O preço dobrou em comparação com o começo do ano. Com consequências dramáticas para todas as principais economias do mundo. Inclusive a do Brasil.
Para Pedro Rodrigues, sócio-diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), o governo Lula está respondendo a essa crise subsidiando os combustíveis e atacando os distribuidores. “Não vai resolver. Querer alterar a lei da oferta e procura com uma canetada nunca deu certo. Vai desorganizar o mercado e provocar distorções ulteriores”, explica o analista.
Segundo Rodrigues, em um cenário de choque de oferta como esse, medidas como o corte de impostos decidido pelo Executivo são apenas paliativos e, se a guerra continuar por mais tempo, um tarifaço será inevitável. Acarretando uma série de consequências, principalmente uma alta da inflação.
Confira os melhores trechos da entrevista com Pedro Rodrigues.
Quais serão as consequências para o mercado petrolífero mundial se o Estreito de Ormuz não for reaberto em tempos rápidos?
O Estreito é como uma artéria que bombeia sangue no coração. Se ela fica entupida um dia, depois consegue se desentupir, vida que segue. Mas se ficar muito tempo entupida, o sangue vai se represando de lado, criando outros problemas ao corpo. Em Ormuz, o princípio é o mesmo. Cerca de um barril de petróleo a cada cinco consumidos no mundo passa por lá. Agora que está fechado, dezenas de petroleiros estão parados nos lados do estreito. Não conseguem passar por causa das ameaças iranianas. Começa a faltar petróleo no mundo. Os estoques dos países produtores ficam cheios. Eles são forçados a fechar campos petrolíferos. Os problemas se tornam estruturais. Será difícil voltar à normalidade quando tudo isso acabar. Demorará semanas. Enquanto isso, o preço do petróleo continuará disparando. Faltarão tipos de combustíveis em vários países. Serão meses complicados.
Quando o Brasil será afetado por essa crise?
O Brasil vive uma situação sui generis. A Petrobras não estava praticando o Preço de Paridade Internacional (PPI). Por 300 dias antes do começo da guerra, a estatal não reajustou o preço, mesmo quando as cotações do petróleo estavam caindo. Por um período, o Brasil pagou mais caro o combustível no mercado interno do que as cotações internacionais. Isso deu um caixa bom para a Petrobras. Agora estamos na situação oposta. A Petrobras não está reajustando para cima os preços. Os mantêm artificialmente baixos. Reprisados. Está aguardando para ver o que acontece. E nesse meio termo, absorve o prejuízo graças aos ganhos com a exportação de petróleo brasileiro. Só que os preços são a primeira informação que possuímos sobre um determinado produto. Se os preços são alterados, as informações chegam confusas. E as pessoas tomam decisões distorcidas. Além disso, depois de um tempo, ela não aguentará mais segurar os preços. E um tarifaço virá. Como foi em 2023.
O governo está tentando evitar uma alta dos preços em ano eleitoral. Vai conseguir? E quais efeitos provocará?
O governo está olhando para a coisa pelo lado errado. Quer reduzir o preço na marra. Culpa pessoas erradas, empresas que não têm nada a ver com a história e cria políticas malucas que mais pioram do que ajudam. Lula está acusando os postos de gasolina e as distribuidoras de estarem especulando. Mas os preços no Brasil são livres. Ao menos que não se demonstre que há um cartel em andamento, não existe crime em elevar preços de bens. Especialmente em uma situação como essa, em que as cotações internacionais vêm aumentando. A decisão de retirar impostos federais dos combustíveis, como PIS e Cofins, pode até ser louvável, mas é um paliativo. Não resolve o problema. Além disso, quem pagará por esse benefício tributário? O governo recriou novamente o imposto sobre a exportação de petróleo bruto, como foi em 2023, para tentar compensar essa desoneração. A desculpa utilizada pelo Executivo é que as petrolíferas estão ganhando muito dinheiro. Não deu certo na época, não dará agora. E a maior prejudicada será a própria Petrobras, que é estatal. Com isso, o mercado começa a se desarrumar, pois há uma interferência que cria preços artificiais. Vai criar problemas para a cadeia dos combustíveis. O governo que cobre a cabeça, mas acaba deixando os pés descobertos.
Quais problemas o setor está enfrentando por causa das decisões do governo Lula?
A escassez de diesel em várias regiões do país é uma delas. Hoje, o Brasil importa entre 25% e 30% do seu consumo de diesel. Se o governo cria um subsídio para que a Petrobras venda o combustível a um preço mais baixo no mercado interno, vai desincentivar a importação, pois nenhum importador vai comprar a 120 lá fora e vender a 50 internamente. Vai acabar quebrando. A Petrobras pode fazer isso, pois é estatal e tem subsídio público. E a Agência Nacional de Petróleo (ANP) acaba de chancelar o chamado “preço de referência” abaixo do preço internacional. Além disso, quem pode comprar combustível da Petrobras e estocar, sabendo que o preço vai subir, vai fazer isso. E estão fazendo. O mercado vai se desarrumando. E o combustível começa a faltar. Se o governo rejeita o mercado, tentando controlar os preços, efeitos colaterais não tardarão a aparecer. Não se pode criminalizar o aumento de preços em situações como essa. O Executivo tenta revogar a lei da demanda e da oferta na marra. Mas é como desafiar a lei da gravidade na física. Vai dar com o nariz no chão, não adianta.

Por quanto tempo você acha que a Petrobras vai conseguir resistir? Teremos outro balanço devastado da estatal como foi no período pré-Operação Lava Jato?
O mercado ainda não conseguiu entender e precificar a real situação do balanço da Petrobras. Sem dúvida, existe uma compensação entre o petróleo exportado a preço mais alto e o combustível vendido internamente a preço mais baixo. Nesse caso, a Petrobras sequer está perdendo dinheiro: tecnicamente está deixando de ganhar. Pois ela usa o petróleo que extrai e o refina em suas plantas. Durante o governo Dilma, a estatal chegou a importar diesel e vender o combustível internamente a preço mais baixo do que comprava. Isso gerou um rombo de R$ 50 bilhões e transformou a Petrobras na empresa mais endividada do mundo. Sem contar a corrupção, as obras superfaturadas, a refinaria de Pasadena etc. Hoje ainda vigora a lei das estatais, que provocou enormes mudanças nas regras de controle interno. Mas há acionistas minoritários que poderiam se irritar com essa situação, e no passado já processaram a empresa em Nova York, ganhando um ressarcimento bilionário.
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O artigo é bom, mas começou com o nome errado do entrevistado e os preços não são reprisados, mas represados.
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