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Edição 317

A deficiência é cultural

Crianças saudáveis são levadas a uma vida de dependência e desperdício de potencial

Hoje, um em cada oito pais relata que o filho tem uma deficiência. Isso significa que 12% das crianças britânicas — cerca de 1,7 milhão — são classificadas como portadoras de uma doença crônica, deficiência ou incapacidade, de acordo com dados recém-divulgados pelo Departamento de Trabalho e Pensões (DWP). Esses números quase dobraram desde 2015, quando cerca de 7% dos pais relataram que o filho tinha uma deficiência. Essa alta vertiginosa do número de crianças consideradas deficientes foi impulsionada pelo aumento significativo de diagnósticos de supostos problemas comportamentais, como autismo e TDAH. Segundo o DWP, os “problemas comportamentais” agora representam dois terços das deficiências infantis.

O motivo pelo qual não fico mais surpreso com essa ascensão contínua dos diagnósticos de deficiências na infância é que venho acompanhando esse fenômeno há mais de três décadas. Lembro que em 1996, autoridades do governo britânico descobriram que, desde 1985, houve um aumento de 40% na proporção de britânicos que se consideravam deficientes. De acordo com a pesquisa, o aumento foi muito maior entre adolescentes de 16 a 19 anos. Parecia que quanto mais jovem você fosse, maior a chance de ter uma deficiência.

A explosão contínua de diagnósticos na infância revela uma tendência histórica assustadora de classificar precocemente o comportamento das novas gerações como doença ou deficiência | Foto: Shutterstock

Os autores daquela pesquisa concluíram que a diferença entre os dados de 1985 e 1996 era “grande demais para ser explicada por um aumento real do número de deficiências”. Não surpreende. Afinal, não houve nesse período guerra ou surto de doença grave que pudesse ter incapacitado tamanha parcela da população. É evidente que os autores não conseguiram explicar em termos epidemiológicos essa alta excepcional dos anos 1990. Há 30 ou 40 anos, a sociedade tinha uma visão muito mais restrita do conceito de deficiência.

A explicação para essa ascensão inesperada do número de jovens deficientes não está na epidemiologia, mas em uma cultura que incentiva pessoas a classificarem a si mesmas como inválidas. É importante enfatizar que o modo como as pessoas interpretam experiências negativas é fortemente influenciado por fatores culturais e históricos. Fatores que podem aumentar ou reduzir a capacidade do indivíduo de lidar com circunstâncias adversas.

Nas últimas décadas, a definição de deficiência passou por uma mudança semântica drástica. Isso faz parte de uma tendência mais ampla de medicalizar aspectos negativos da experiência e do comportamento humano. Além disso, surgiu um grande “lobby da deficiência”, que constantemente exige que uma variedade de deficiências recém-descobertas tenha um diagnóstico formal reconhecido. O resultado mais importante desse lobby foi alterar a percepção pública sobre a relação entre capacidade e deficiência. Também conseguiu transformar em problema de saúde aquilo que antes era considerado mau comportamento.

Muitos dos “problemas comportamentais” agora designados às crianças sempre fizeram parte da vida familiar. Desobediência, agressividade, comportamento disruptivo e antissocial — agora definido como Transtorno Opositivo Desafiador (TOD) — sempre foram um desafio para pais e escolas. No entanto, esses padrões difíceis de comportamento agora são cada vez mais rotulados como problemas psicológicos ou médicos. E assim eles se tornam aceitos, em vez de algo a ser corrigido com orientação adulta ou disciplina firme.

É compreensível, portanto, que os pais agora busquem diagnósticos de deficiência para os filhos. Afinal, a descoberta de transtornos infantis recém-inventados fornece uma explicação conveniente para o mau comportamento ou o mau desempenho escolar dos filhos: “Ela não é arteira, ela é doente”. É inegável que os muitos benefícios voltados ao bem-estar da criança com deficiência também têm seu papel. Assim como a atuação de parte dos professores, que promove o diagnóstico de transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) como alternativa ao uso de disciplina e autoridade para gerir o mau comportamento em sala de aula. O aluno que não termina a lição de casa, não se concentra na discussão em classe e se mostra entediado na escola agora está amparado por algum “diagnóstico”.

A terceirização da autoridade em sala de aula transforma o mau comportamento em doença e consolida o TDAH como desculpa para a falta de limites | Foto: Shutterstock

Não é surpresa que, nos últimos 30 anos ou mais, as crianças tenham interiorizado a narrativa da deficiência. Os jovens de hoje comunicam seus problemas com facilidade em um vocabulário psicológico. Eles descrevem seus sentimentos em termos de estresse, trauma e depressão.

Uma das consequências mais graves da cultura da deficiência é que muitas crianças nem vão mais à escola. No ano passado, foi relatado que o número de crianças ausentes em mais de 50% do ano letivo em Oxfordshire aumentou mais de cinco vezes em 10 anos. Isso foi atribuído ao ato de “evitar a escola em razão das emoções”, como estresse e ansiedade, que a criança apresenta no ambiente escolar. No ano passado, metade dos alunos do ensino médio no Reino Unido deixou de ir à escola devido à ansiedade em algum momento.

Quando crianças, meus amigos e eu adorávamos não ir à escola. E tínhamos a nossa cota de ansiedade. Mas também sabíamos que nossos pais e o resto da sociedade adulta não eram solidários à nossa situação, e que faltar à escola não era uma opção. Hoje em dia, os adultos se tornaram cúmplices da evasão escolar.

Está na hora de a sociedade acordar para o fato de que a epidemia atual de deficiências infantis não é um problema médico. É um problema cultural. Dizer às crianças que elas têm uma deficiência e são, portanto, incapazes de lidar com as demandas inerentes à existência implica condená-las a uma vida de dependência e potencial desperdiçado. Nossas crianças merecem coisa melhor.


Frank Furedi é diretor-executivo do think tank MCC-Bruxelas.

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3 comentários
  1. Jaime Moreira Filho
    Jaime Moreira Filho

    Muito boa explicação. Digo simplesmente: é muito mi mi mi. Que enoja.

  2. João Carlos Ribeiro Previdi
    João Carlos Ribeiro Previdi

    Minha esposa dá aulas na APAE da cidade dela, a quantidade de crianças que chegam lá, segundo ela com diagnóstico de TEA nível 1 e TDHA é incrivel.
    Mas, o triste é que a maior parte é descartada pelo Neuropediatra que é contratado da APAE, após avaliação multi profissional

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