Pedante é alguém que se deleita mais em apontar erros do que em conhecer a verdade. Na minha biblioteca, tenho vários livros antigos nos quais algum erro insignificante foi marcado a lápis ou a caneta por um proprietário anterior, como se ele tivesse lido o livro inteiro com o propósito expresso de encontrar aquele erro, marcando triunfantemente a página onde aparece.
Confesso que há em mim uma certa dose de pedantismo. É uma tentação permanente. Dá ao pedante a licença de se sentir superior a qualquer autor. O pedantismo também nos aliena das questões mais importantes, porém incômodas. E, claro, é perigoso: o pedante é morto pelo pedantismo. Todos nós cometemos erros e, do mesmo modo, podemos ser alvos da acusação de descuido ou ignorância. O pedante flerta com o risco de ser humilhado por seus semelhantes.

Recentemente, em uma livraria londrina, meu olhar foi atraído por um romance brasileiro, O Crime do Bom Nazista, traduzido para o inglês como The Good Nazi (“O Bom Nazista”, melhor, mais sucinto, surpreendente e contraintuitivo). Eu procurava algo leve para ler no trem de volta para casa, e o que poderia ser melhor que uma história sobre um assassinato cometido em um dos zepelins que voavam regularmente entre a Alemanha e o Brasil nos anos 1930? Não seria apenas uma leitura leve. Nada com nazistas poderia ser completamente desprovido de peso moral, então eu poderia me entreter enquanto pensava estar fazendo algo mais inteligente do que só me distrair ou passar o tempo ociosamente.
Imaginem meu deleite como pedante secreto quando encontrei o que pensei serem erros no texto! Mencionarei apenas dois. O primeiro, na terceira página da edição em inglês. Eis o que estava escrito:
“Bruno bebia seu uísque com soda, lendo uma edição recente do Aurora Alemã (Deutscher Morgen), o semanário do Partido Nazista, publicado pela embaixada em São Paulo.”
Mas a embaixada na época ficava no Rio de Janeiro, não em São Paulo, certo? Nenhum brasileiro, muito menos um autor distinto, poderia ter cometido tal erro elementar, não é mesmo?
Na página seguinte:
“Fiel às suas crenças na superioridade racial alemã, o jornal aderiu ao seu lema totalitário: ‘Deutschland über alles. Alemanha acima de tudo… Ame-a ou deixe-a’.”
Agora, a locução “ame-a ou deixe-a” não poderia ser nazista. Na verdade, é uma expressão patriótica ou chauvinista americana moderna (ou relativamente moderna, dependendo da sua visão, leitor, sobre quando a modernidade começou): “America… love it or leave it”.

Decidi me divertir comprando a edição brasileira do livro e verificando se esses pequenos erros estavam no texto original. Isso, é claro, não tinha a menor importância. Devo apontar que, na época, a guerra no Irã tinha começado. Havia a possibilidade de um conflito muito mais abrangente, e os preços do combustível subiam tão rápido que ameaçavam provocar uma recessão econômica mundial ou até uma depressão, fora uma inflação que atingiria em cheio os mais pobres. Mas não havia nada que eu pudesse fazer a respeito, então reagi como um rato encurralado por um gato, que faz o movimento de lavar as patas para se distrair de sua situação desesperadora. No meu caso, não lavei as mãos, mas comparei as duas versões do livro, a original e a tradução.
O primeiro dos dois trechos em português era o seguinte:
Bruno bebia sozinho seu uísque com soda enquanto lia entediado um exemplar recente do Aurora Alemã, semanário do Partido Nazista publicado em São Paulo pela embaixada.
O segundo era:
E, fiel às suas crenças na superioridade racial alemã, o jornal se ancorava em seu lema totalizante: “Alemanha acima de tudo”. Ame-a ou deixe-a.
Deixando de lado a omissão de que Bruno estava “sozinho e entediado” enquanto bebia seu uísque (na verdade, uma pequena pista de que ele não era propriamente o “bom” nazista, ou seja, totalmente convicto como parecia, pois nazista que é bom jamais ousaria se entediar lendo uma publicação oficial de seu partido), uma tradução melhor teria sido “publicado em São Paulo pela embaixada”, em vez de “publicado pela embaixada em São Paulo”. Essa mudança mínima na ordem das palavras teria evitado qualquer mal-entendido.
No segundo trecho, fica claro que o autor não quis dizer que “Ame-a ou deixe-a” fazia parte de um slogan nazista — impressão deixada pela má colocação das aspas na versão em inglês. É o narrador quem diz: “Ame-a ou deixe-a”, não os nazistas. Na verdade, uma forma melhor, precisa, seria “Ame-a ou fuja dela”.
Bem, diverti-me com esses detalhes minúsculos, mas não quero dar a entender que a tradução foi ruim no todo: pelo contrário. Parece fiel ao original e nem soa como uma tradução. Gostei muito.
Era essencial para a trama da história, e evidência de sua rejeição moral ao nazismo, que nazistas convictos não conseguissem distinguir entre judeus e gentios, confundindo um com o outro. Agora, a mim parece que isso é uma forma um tanto imprudente de abordar a questão, pois implica que, se os nazistas tivessem conseguido fazer essa distinção (como certamente em algumas ocasiões conseguiram), isso de algum modo teria tornado sua doutrina menos ridícula e, portanto, menos maligna. Mas a objeção a qualquer genocídio não advém da impossibilidade de se fazer uma distinção confiável entre o grupo genocida e os povos que ele pretende erradicar, mas da ideia por si só de que erradicar um povo, por mais precisa que seja sua identificação, é errado. Isso me lembra a polícia britânica, cujos porta-vozes, ao descreverem um homicídio, repetem cada vez mais a frase: “Este foi um assassinato sem sentido” — como se acreditassem existir os que têm algum.
Vigie a sua linguagem. O mundo acabará julgando você por suas palavras.
Theodore Dalrymple é pseudônimo do psiquiatra britânico Anthony Daniels. É autor de mais de 30 livros sobre os mais diversos temas. Entre seus clássicos (publicados no Brasil pela editora É Realizações) estão A Vida na Sarjeta, Nossa Cultura… Ou o que Restou Dela e A Faca Entrou. É um nome de destaque global do pensamento conservador contemporâneo. Colabora com frequência para reconhecidos veículos de imprensa, como The New Criterion, The Spectator e City Journal.
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