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Ilustração: Montagem Revista Oeste/Gerado por IA
Edição 318

O hino que esquecemos de cantar

Pouca gente sabe, mas 13 de abril é uma das datas mais simbólicas da nossa identidade: o Dia do Hino Nacional

A música, composta por Francisco Manuel da Silva, ainda no século 19, nasceu antes mesmo da letra. Era uma melodia de celebração, de afirmação, de independência. Anos depois, a letra viria pelas mãos de Joaquim Osório Duque Estrada — e não foi feita apenas para ser cantada. Foi feita para despertar. O Hino Nacional não é apenas um conjunto de palavras difíceis, como muitos repetem. Ele é, antes de tudo, um chamado à consciência, à grandeza, à responsabilidade.

Mas aqui está o paradoxo. Quantos brasileiros sabem cantar o hino completo? Quantos entendem o que ele diz? Quantos param para refletir sobre cada verso? Quantos sabem que o hino tinha uma introdução cantada que praticamente desapareceu do uso popular?

Poucos sabem que, por tradição, a parte inicial instrumental — aquela que antecede “Ouviram do Ipiranga…” — chegou a receber versos no início do século 20, mas que nunca foram oficialmente incorporados e, com o tempo, deixaram de ser ensinados e cantados, ficando restritos a registros históricos e interpretações raras. Isto revela que, pouco a pouco, fomos nos afastando dos nossos próprios símbolos, e quando um povo se afasta dos seus símbolos, ele começa a se afastar de si mesmo, porque o hino não é apenas música. Ele é mensagem. Vamos aos versos.

“Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
De um povo heroico o brado retumbante, …”

Ali está o nascimento de uma nação. Ali está o momento em que um povo deixa de ser espectador e decide ser protagonista.

“E o sol da liberdade, em raios fúlgidos,
Brilhou no céu da pátria nesse instante.”

Ilustração: Júlia Xavier/Montagem Revista Oeste/Gerado por IA

Liberdade não é apenas uma palavra bonita. É uma conquista. E, mais importante, é uma responsabilidade permanente.

“Se o penhor dessa igualdade
Conseguimos conquistar com braço forte, …”

Nada foi dado. Tudo foi conquistado. E tudo que é conquistado precisa ser preservado.

“Em teu seio, ó liberdade,
Desafia o nosso peito a própria morte!”

Isso não é poesia vazia. É compromisso. É coragem. É disposição de defender aquilo que é essencial.

E então vem o verso que todos conhecem:

“Gigante pela própria natureza, …”

Ilustração: Júlia Xavier/Montagem Revista Oeste/Gerado por IA

Sim, nascemos um gigante. Mas será que estamos sendo esse gigante ou estamos apenas ocupando um espaço geográfico imenso… sem ocupar o espaço histórico que nos cabe?

O hino fala de grandeza. Mas grandeza exige compromisso. Exige participação. Exige responsabilidade. Exige atitude, e talvez seja exatamente isso que esteja faltando. Porque o hino não fala de acomodação. Fala de luta.

“Verás que um filho teu não foge à luta, …” Ou, pelo menos, não deveria fugir.

Mas o que vemos hoje, muitas vezes, é o contrário: silêncio onde deveria haver voz. Omissão onde deveria haver ação. Indiferença onde deveria haver compromisso.

O “brado retumbante” que ecoou na história precisa voltar a ser ouvido. Não apenas nos livros. Não apenas nas cerimônias oficiais. Mas nas ruas. Na consciência. Na postura de cada cidadão. Porque uma República só se sustenta quando é respeitada e respeitar a República é, antes de tudo, respeitar seus fundamentos. Entre eles, um dos mais importantes: a Constituição. Não como um documento distante. Mas como o símbolo máximo das regras que garantem liberdade, direitos e deveres. Cabe a todos — e sobretudo àqueles que exercem poder — preservar esse equilíbrio.

Ainda há esperança. Sempre há esperança. Porque o próprio hino nos lembra de um Brasil que não é apenas o que vemos… mas o que podemos construir.

“Mas, se ergues da justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta, …”

E mais adiante:

“Brasil, um sonho intenso, um raio vívido
De amor e de esperança à terra desce, …”

Isso é visão de futuro. Isso é projeto de país. Isso é identidade.

Talvez a mudança comece por algo simples, mas profundamente transformador: ensinar. Ensinar nossas crianças. Ensinar nossos jovens. Ensinar o significado de ser brasileiro. Se cantar o Hino Nacional voltasse a ser parte do cotidiano nas escolas — públicas e privadas — não seria apenas um ato simbólico. Seria um resgate. Um resgate do orgulho. Resgate da identidade. Resgate da consciência de que todos fazemos parte de algo maior.

Um país não se constrói apenas com leis. Se constrói com pessoas que entendem o seu papel, e o nosso papel está escrito ali… em versos que muitos já esqueceram, mas que ainda podem nos lembrar quem somos — e, principalmente, quem podemos ser.

“Deitado eternamente em berço esplêndido, …”

Talvez esteja aí um alerta. Não fomos feitos para permanecer deitados. Fomos feitos para levantar. Para construir.

“Brasil, de amor eterno seja símbolo
O lábaro que ostentas estrelado, …”

O hino nos aponta um caminho. Um caminho de grandeza, de responsabilidade e de participação, mas esse caminho não se percorre sozinho. Depende de cada um de nós. Podemos — e devemos — lutar para ver um Brasil:

“…, florão da América,
Iluminado ao sol do Novo Mundo!”

Mas isso não virá por acaso. Virá por atitude. Virá por compromisso. Virá por consciência. Porque um país que esquece o próprio hino corre o risco de esquecer também o seu propósito e, sem propósito… nenhum gigante se levanta. Nenhuma nação se reconstrói.

O Brasil ainda pode ser o gigante que canta, mas, antes disso, precisa voltar a lembrar por que canta. E, mais importante ainda… Precisa voltar a acreditar no que canta. Uma nação que não conhece o seu hino perde a sua voz — e um país sem voz jamais será ouvido na história.

Ilustração: Montagem Revista Oeste/Gerado por IA

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12 comentários
  1. Vanessa Días da Silva
    Vanessa Días da Silva

    Aplaudindo de pé . Precisou que um argentino nos desse um chacoalhar para acordarmos e termos orgulho de quem somos, porque nossos representantes só nos envergonham

  2. DONIZETE LOURENCO
    DONIZETE LOURENCO

    Gustavo Segré, seu artigo me emocionou e fiz uma viagem no tempo.
    Retornei aos tempos de escola primária e ginasial quando no pátio os alunos perfilavam, havia o hasteamento da bandeira Nacional e alunos e professores cantavam o Hino Nacional.
    Infelizmento perdemos a noção de pátria e nos dias atuais nem a “Ministra” da cultura conhece a letra do Hino do próprio país.
    Hoje nossas crianças e jovens não possuem referências, não tem ídolos para se espelhar. Estamos carentes de Zicos, Ayrtons, Gugas e outros que influenciaram positivamente na formação de cidadãos.

  3. Joao Teodoro Arruda de Araujo
    Joao Teodoro Arruda de Araujo

    Excelente artigo do Segré. Um argentino que é mais brasileiro do que a maioria de nós.

  4. Antonio Carlos Neves
    Antonio Carlos Neves

    Segre, não é o assunto do teu artigo, mas sei que você batalha com os brasileiros para sanear este pais, e tenho certeza que buscará a informação que seguramente esclarecera a maioria dos brasileiros de centro direita, que é a sabatina (convescote) do Senado Federal para nomear o estranho MESSIAS no STF.
    Portanto pergunto se você pode levantar junto aos Juristas de notável saber, se, 41 senadores que dizem não apoiar o sabatinado, faltarem nesse evento, automaticamente a seção não será aberta ou MESSIAS será rejeitado?.
    Creio que será a melhor forma de identificarmos os verdadeiros senadores opositores desse desgoverno que votaram não ao MESSIAS, e que poderão ter o apoio dos eleitores neste ano.

  5. Emerson Luiz Degan
    Emerson Luiz Degan

    Perfeito o texto. Parabens por escrever o q o brasileiro precisa praticar

  6. Antonio Carlos Neves
    Antonio Carlos Neves

    Parabéns Segre o argentino que fez a mais perfeita tradução de nosso hino nacional brasileiro. Seguramente tem mais estima, amor e respeito pelo nosso pais que mais de 30% de nossa população.

  7. Valesca Frois Nassif
    Valesca Frois Nassif

    Infelizmente a canhotada que tomou conta da nossa vida acadêmica passou a impor aos alunos a ideia de que ser patriota é ser de extrema direita. No pacote de rechaço aos militares após o golpe de 64 estava incluido o ódio aos símbolos pátrios.
    Dificil reverter um processo que , além de tudo, coaduna com o espírito irreverente e nada afeito a rituais do pessoal jovem.
    Obrigada , Segré, por tão generosamente, tentar reverter essa situação .

  8. Jaime Moreira Filho
    Jaime Moreira Filho

    Realmente estamos no fundo do poço. Quando não sabemos cantar e interpretar nosso hino nacional. Quando não valorizamos o nosso hino o que se pode esperar. O povo inconsciente espera BV – Bolsa Vagabundo, pois não tem discernimento para amar o País, vai “mamar” no país, para cada vez ir para o fundo poço. O difícil é parabenizar um argentino que vem destrinchar o hino para o brasileiro que não sabe nada. Este argentino é muito mais brasileiro do que uma grande parcela de nossa população. Veio nos ensinar, nos alertar, nos incentivar a ser brasileiros de verdade. Parabéns a Gustavo Segré, um argentino brasileiro, um argentino de coração grande e inteligência maior ainda que vê no Brasil também a sua pátria, mais que muitos nossos. Muito obrigado e parabéns pelas explicações e orientações.

  9. João Luiz Bosso
    João Luiz Bosso

    Perfeita e emocionante descrição do nosso Hino!
    A esquerda odeia esse símbolo maior da nossa Pátria, assim como nossa bandeira e o país como um todo; prefeririam que fossemos uma Coreia do Norte!
    Não é difícil de entender o arrepio que sentimos quando essa poesia musicada é executado em disputas esportivas ou em outra situação cerimonial; mexe com nosso íntimo de patriotas e até traz lágrimas aos olhos.
    Quem despreza essa magnífica obra que nos representa como nação, não merece viver aqui.
    Engraçado que quem detalhou esses maravilhosos versos não foi um brasileiro! Creio que é por isso que ele é considerado o argentino mais amado do Brasil. Parabéns, Segré. Deus o abençoe sempre.
    “Uma salma de palvas”, (isso é Janjês).

  10. Jorge Alberto de Oliveira Marum
    Jorge Alberto de Oliveira Marum

    Infelizmente, desde os anos 80 o nosso hino é ridicularizado pelos professores, a grande maioria esquerdistas.

    1. Vanessa Días da Silva
      Vanessa Días da Silva

      Eles sequer conseguem entender a letra. Geracde professores ineptos.

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