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Pilhas de enxofre à beira-mar à noite, no Porto de Vancouver | Foto: Shutterstock
Edição 318

O paradoxo da Margem Equatorial

A transição energética e a produção de fertilizantes dependem, em grande medida, de um insumo gerado pela indústria que se pretende substituir

Você deve ter lido que a Mosaic está fechando várias fábricas de fertilizantes no Brasil — uma decisão que pode afetar quase 20% da produção nacional. Produzimos muito menos do que precisamos, e o impacto será especialmente forte nos superfosfatados simples (SSP). A notícia surpreendeu muita gente, sobretudo porque somos grandes importadores de fertilizantes.

Como se sabe, os fertilizantes são o ponto fraco do nosso agro. O Brasil não só é o maior importador mundial desse insumo — esse produto também lidera a pauta de importações do país e é onde mais gastamos. Isso indica que o Plano Nacional de Fertilizantes não vem funcionando como previsto: em vez de reduzir a dependência externa, seguimos no caminho oposto.

Veja, na tabela abaixo, como essa dinâmica afeta menos o nosso principal concorrente, a agricultura americana.

Nos Estados Unidos, o único produto importado em larga escala é o potássio — mas, diferentemente do que acontece aqui, ele vem majoritariamente do Canadá, um fornecedor próximo e estável. Já o Brasil depende de países distantes, como Rússia e Bielorrússia.

A empresa brasileira informou que a razão do fechamento das fábricas foi a elevação dos preços do enxofre, um insumo fundamental na produção do SSP.

É a partir daqui que se revela a fragilidade do agro brasileiro. Também é possível tirar duas lições importantes. A primeira é o peso da burocracia, que dificulta a exploração das nossas próprias jazidas. A segunda é a exposição a fatores externos: conflitos no Irã, por exemplo, impactam diretamente o preço dos fertilizantes.

Mas há um ponto ainda mais relevante nessa história: o enxofre. O ácido sulfúrico, produzido a partir dele, é insubstituível tanto na fabricação de fertilizantes quanto em componentes de energias renováveis — como painéis solares, ímãs de turbinas eólicas e motores de veículos elétricos.

Produção de enxofre elementar em usina russa | Foto: Shutterstock

Além disso, o enxofre é, ele próprio, um fertilizante. É considerado o quarto macronutriente mais exigido pelas plantas. O ácido sulfúrico, por sua vez, é a base para a produção de fertilizantes fosfatados e nitrogenados, como o sulfato de amônia. Ou seja: o aumento do custo desse insumo ajuda a explicar o fechamento das fábricas no Brasil.

Mas de onde vem o enxofre?

Embora possa ser extraído diretamente do solo — um processo caro e complexo — cerca de 90% do fornecimento global vem do refino de petróleo. Sim: para viabilizar a transição energética e garantir fertilizantes, ainda dependemos do petróleo.

E aqui está um limite estrutural que raramente entra no debate. A oferta de enxofre depende diretamente da quantidade de petróleo e gás processada no mundo. Quanto menor o refino, menor a oferta desse insumo. É justamente nesse ponto que reside uma das maiores vulnerabilidades do Brasil. O país não expandiu suas refinarias. Ao contrário: projetos como a Refinaria Abreu e Lima e o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) ficaram marcados por atrasos, custos elevados e escândalos de corrupção, como o Petrolão.

Vista aérea da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, Brasil (02/12/2020) | Foto: Shutterstock

O que o Estreito de Ormuz revelou não é apenas um choque momentâneo, mas uma vulnerabilidade permanente da própria transição energética. De um lado, ela aumenta a demanda por ácido sulfúrico. De outro, reduz a produção de combustíveis fósseis que geram esse insumo como subproduto.

No longo prazo, essa tensão tende a se agravar. Uma alternativa seria ampliar a exploração de petróleo no país, especialmente na Margem Equatorial. Mas, mais uma vez, a burocracia trava o avanço. Enquanto isso, a Guiana avança rapidamente. Em poucos anos, passou de um país sem produção relevante para o 4º maior fornecedor de petróleo para o Brasil.

É aqui que surge o paradoxo que dá sentido ao título deste artigo: a transição energética e a produção de fertilizantes dependem, em grande medida, de um insumo gerado pela indústria que se pretende substituir.

A crise no Estreito de Ormuz apenas tornou esse custo mais visível: insumos mais caros em toda a cadeia. No fim, a conclusão é inevitável: ainda precisaremos dos combustíveis fósseis para viabilizar a própria transição energética — e para garantir a produção de fertilizantes.

Afinal, sem fertilizante, não há comida no prato.

Zona industrial de produção de fertilizantes químicos e minerais e pesticidas | Foto: Shutterstock

Antonio Cabrera é veterinário com pós-graduação em produção animal e presidente do Grupo Cabrera, que atua no agronegócio. Foi ministro da Agricultura e Reforma Agrária no governo Fernando Collor e ex-secretário da Agricultura e Abastecimento do Estado de SP durante a gestão Mário Covas. Atualmente, é titular da Sociedade Nacional de Agricultura e membro de várias entidades nacionais e internacionais, além de cônsul honorário da Espanha. Ele está no LinkedIn: Antonio Cabrera

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