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Foto: Douglas Marcal/Shutterstock
Edição 318

Oriente Médio e franguinho na panela

O Brasil é o terceiro maior produtor, com mais de 15 milhões de toneladas por ano

“Mas lá no meu ranchinho
A mulher e os filhinhos
Tem franguinho na panela”
(Franguinho na Panela,
Lourenço & Lourival)

A guerra EUA, Israel e Irã chegou na avicultura brasileira. Veja a situação: 91% da carne de frango importada pela Jordânia vem do Brasil. No Líbano, 85%; nos Emirados Árabes Unidos, 74%; no Iémen, 71%; no Catar, 66%; no Kuwait, 61%; na Arábia Saudita, 57%; em Omã, 51%; na Turquia, 39%; e no Barein, 37%. Se o Brasil não continuar fornecendo carne de frango a esses países durante o conflito do Oriente Médio, como ficarão seus mercados internos e sua segurança alimentar em proteínas animais? E qual destino o Brasil dará a toda essa produção?

Os dados são da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA): em 2025, os países do Oriente Médio representaram 30% das exportações brasileiras de carne de frango. Em janeiro deste ano, foram 29%. Em particular, em 2025, os países do Golfo e o Irã totalizaram 23% das exportações brasileiras de carne de frango. Em janeiro deste ano, alcançaram 24%. Apenas no caso isolado do Irã, as exportações de carne de frango do Brasil representam menos de 1% de suas importações totais.

O Brasil é o terceiro maior produtor mundial de carne de frango, com mais de 15 milhões de toneladas por ano. São cerca de 5,4 bilhões de aves abatidas por ano, 14,4% da produção global. Dessa carne, 65% são consumidos pelos brasileiros, no mercado interno. Não falta, nem faltará franguinho na panela. O restante da produção faz do Brasil o primeiro exportador mundial, com 5,3 milhões de toneladas, uma receita de US$ 9,9 bilhões ou 38,6% das exportações globais de carne de frango.

Das exportações brasileiras de frango, cerca de 30% têm como destino o Oriente Médio. É um mercado crítico e altamente conectado com o Brasil. Para atendê-lo, são embarcados 200 contêineres (25 a 27 toneladas de carne de frango) por dia útil. O Brasil é o maior fornecedor de carne halal (bovina e de frango) para o mundo islâmico. O país lidera as exportações dessas proteínas, cujo abate (voltado para a Meca) segue as leis islâmicas, com vendas bilionárias para países da Organização para a Cooperação Islâmica.

Em 2025, os países do Oriente Médio representaram 30% das exportações brasileiras de carne de frango | Foto: Shutterstock

Na carne de frango exportada ao Oriente Médio, a guerra entre EUA, Israel e Irã, até agora, teve um impacto essencialmente logístico, na logística marítima global, e não de mercado. As exportações prosseguem apesar da instabilidade e de ameaças em rotas críticas pelo Estreito de Ormuz e o Canal de Suez, graças à proatividade do setor privado brasileiro.

Segundo Ricardo Santin, presidente da ABPA, na situação atual não há um embargo comercial, nem cancelamentos relevantes de embarques. As cargas seguem em trânsito, quando encontram caminhos possíveis. Nisso está empenhado o setor privado do agronegócio brasileiro. Quando ocorreu a imposição de tarifas ao agro brasileiro pelos EUA em 2025, o setor privado teve uma atuação decisiva face a inoperância do Governo Federal. A história se repete. O protagonismo das entidades do agronegócio, como a ABPA e a ABIEC, é fundamental no caso do Oriente Médio. Sobretudo dada a crise dos organismos de governança global (ONU, OMC, Otan…), sua inoperância atual face a esse e outros conflitos. Agravam o contexto os posicionamentos histriônicos do governo brasileiro, com risco de um maior isolamento internacional do país.

Ricardo Santin, presidente da ABPA | Foto: Divulgação

Graças à atuação coordenada de frigoríficos, armadores, agroindústrias exportadoras e suas organizações, buscam-se novos caminhos na logística global para a destinação do frango exportado. O setor trabalha com redirecionamento de rotas, tanto pelo Mar Mediterrâneo até Egito e Turquia, como pelo Cabo da Boa Esperança (+10 a 15 dias). (Mapa 1) Isso leva a escalas adicionais, espera em portos intermediários, criação e uso de novos hubs logísticos, combinando transporte marítimo com novos trechos rodoviários e caminhões refrigerados: porto de Sohar em Omã; porto de Khor Fakkan nos Emirados Árabes; porto de Jeddah na Arábia Saudita; porto de Aqaba na Jordânia e porto de Mersin na Turquia. (Mapa 2) Algumas cargas também estão sendo redirecionadas temporariamente para alternativas na África e na Ásia.

Rotas Marítimas para a Exportação de Carne de Frango | Fonte: ABPA
Opções alternativas para entrada da carne de frango no Oriente Médio | Fonte: ABPA

Essa situação leva a um aumento dos custos por razões operacionais e a uma escalada sistêmica de preços ao longo da cadeia de produção e distribuição. Na logística internacional, está a ocorrer um aumento no tempo de trânsito das cargas; um maior consumo de combustível; um crescimento nos custos de transbordo e armazenagem, aos quais se agregam taxas de “guerra” ou sobretaxas de risco nos seguros (aumento nos prêmios dos seguros marítimos). Os fretes e combustíveis já tiveram uma alta entre 10% e 20% de forma generalizada. A alta prossegue. Até interferências de natureza militar nos sistemas de GPS prejudicam a navegação na região!

O mercado interno no Brasil não está isolado dessa dinâmica. Existe uma propagação desses novos custos e o agravamento de gargalos estruturais: congestionamento de rotas; menor disponibilidade de equipamentos portuários e redução da previsibilidade logística. O aumento no preço do diesel no Brasil, por exemplo, afeta diretamente o transporte de insumos para a produção de aves, como o milho, a soja, rações e suplementos.

O aumento no preço do diesel no Brasil afeta diretamente o transporte de insumos para a produção de aves, como o milho, a soja, rações e suplementos | Foto: Shutterstock

A cadeia produtiva da avicultura é altamente dependente de logística na produção e na distribuição. O preço da comercialização interna da carne de frango será afetado pelo preço do combustível e pelo aumento no custo das embalagens, de até 30%, dada a alta no preço das resinas plásticas importadas para sua fabricação (polipropileno) e de outros insumos vinculados à petroquímica. O grande impacto da guerra não é, nem será, sobre a oferta de carne de frango, e sim sobre seu custo de produção e distribuição. Haverá o repasse parcial desses custos no mercado brasileiro e os impactos já começam a atingir o consumidor — interno e externo.

Se os riscos e as instabilidades ameaçam, o conflito no Oriente Médio é uma oportunidade para o Brasil se consolidar ainda mais como um fornecedor confiável de alimentos e proteínas animais para o mundo. O Brasil nunca praticou a “weaponização” no comércio internacional de sua produção agrícola, como fazem outras potências. Não cabe ao país assumir posicionamentos ideológicos alinhados num conflito geopolítico completamente fora da dimensão geoeconômica e do poder militar do Brasil. Com neutralidade e postura low profile, o país pode sair fortalecido em seu papel de contribuir, de forma confiável e competitiva, na segurança alimentar no mundo (soft power).

Graças à ação coordenada do setor privado, à sua capacidade de diálogo com armadores, operadores, importadores e governos estrangeiros, o país está exercendo seu protagonismo no contexto atual. No futuro, precisará melhorar e ampliar sua infraestrutura logística e de armazenagem, construir mais alternativas viáveis de acesso à Ásia e ao Oriente Médio, através de novas rotas ferroviárias e rodoviárias bioceânicas de acesso aos portos do Pacífico, como o de Antofagasta no Chile e o de Chancay no Peru.

O conflito no Oriente Médio revela graves limitações e fraquezas do agronegócio e das políticas do Estado brasileiro. Sua dependência externa crônica e aguda de fertilizantes prossegue dado o bloqueio cego do ambientalismo estatal agrofóbico à exploração das jazidas brasileiras e a perda de competitividade de fábricas de adubos no Brasil em razão da enorme carga tributária existente. O agro também depende da importação de insumos químicos, energia e até de tecnologias.

Num momento de instabilidade regulatória em mercados, crescem os custos e o setor sofre com a variação de margens e aumenta sua demanda e necessidade por capital de giro. O diálogo com o Governo Federal é essencial. Ele deveria fazer sua parte e atender os pleitos do setor: ampliação do acesso ao crédito através do Plano Brasil Soberano, com recursos do Fundo de Garantia à Exportação (FGE); redução de impostos ao longo da cadeia; desburocratização administrativa; ações rápidas em situação de crise e articulação mais coordenada com o conjunto de agentes da cadeia produtiva. Esta crise não pode ser tratada pelo governo com taticismos, apenas na ótica de oportunidade eleitoral!

O agro e o setor de proteína animal atravessaram as crises da “Carne Fraca”, da greve de caminhoneiros, da pandemia da covid-19, da guerra da Ucrânia, do foco de gripe aviária etc. A retomada pós-guerra no Oriente Médio virá e trará aumento na demanda por alimentos e proteína animal. Será uma nova oportunidade para consolidar ainda mais a posição do Brasil como protagonista confiável e de low profile na segurança alimentar do planeta. Só o agronegócio garante hoje alguma relevância geopolítica ao país. O soft power do Brasil é seu food power. Atenção, Brasília! Repito: o soft power do Brasil é seu food power. Precisa explicar?

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3 comentários
  1. Rosely M G Goeckler
    Rosely M G Goeckler

    Esclarecedor!

    Mais uma vez o desgoverno no plantão é omisso quanto à infraestrutura e, pior, “arisco” “inimigo “ do agro, o principal setor na formação do PIB!

  2. Alice Helena Rosante Garcia
    Alice Helena Rosante Garcia

    Ate quando esse descaso com a locomotiva do Brasil que é o agronegocio
    Se nao houver uma mudança no rumo da nossa politica externa nao havera esperança para o Brasil
    Se Deus quiser havera uma reviravolta nas proximas eleiçoes. Eu creio

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