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A inadimplência que assola o Brasil | Foto: Ilustração Revista Oeste
Edição 318

País de inadimplentes

Mais de 80 milhões de brasileiros têm ao menos uma conta atrasada

A vida de Leonilde Rêgo, de 36 anos, e João Pereira Silva Neto, de 50, soa comum aos brasileiros que tentam empreender. Trabalho árduo e sem saber o que é horário comercial, fim de semana ou feriado. O casal, que vende itens de cama, mesa e banho, está sempre à disposição da clientela. Juntos, realizam entregas sem nem saber em qual hemisfério estão, pois cruzam e descruzam as ruas e avenidas de Macapá, única capital estadual do país a ser atravessada pela Linha do Equador. Apesar de perderem por vezes a noção se estão no norte ou no sul da Terra, eles têm uma certeza: a de, mesmo batalhando tanto, integrarem as estatísticas de inadimplentes do Brasil.

Segundo a mais recente edição do “Mapa da Inadimplência e Negociação de Dívidas no Brasil”, o país bateu recorde no número de inadimplentes em fevereiro. São 81,7 milhões com ao menos uma conta não paga até a data de vencimento. Eram 81,3 milhões em janeiro, avanço de 0,5% de um mês para o outro. Em dez anos, mais de 20 milhões de brasileiros entraram para a lista de inadimplência mapeada pela Serasa. Em fevereiro de 2016, eram 59 milhões. No mesmo mês em 2022, último ano do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, a inadimplência afetava 65,2 milhões de pessoas. Desde que Luiz Inácio Lula da Silva voltou ao poder, o patamar esteve sempre acima dos 70 milhões, mas nos últimos 12 meses o crescimento acelerou, saltando quase 7 milhões.

Desde que Lula reassumiu a Presidência da República, mais de 70 milhões de brasileiros estão inadimplentes | Foto: Divulgação/Serasa Experian

A situação de Leonilde e João é comum no Amapá, onde 6 em cada 10 pessoas estão com contas atrasadas. Com 64% da população adulta (18 anos ou mais) nessa condição, o Estado lidera o ranking do “Mapa da Inadimplência”. O Distrito Federal ocupa a segunda colocação, com 62%. Mato Grosso do Sul, Amazonas e Rio de Janeiro completam as cinco primeiras posições, com 58%. A ponta inversa tem Santa Catarina, única unidade da Federação com menos de 40% de inadimplentes.

Cartões de crédito aparecem como o principal vilão: 26% dos inadimplentes brasileiros têm problemas em não conseguir honrar os compromissos com faturas desse tipo de serviço financeiro. O segmento de contas básicas, o que na classificação da Serasa agrupa serviços como água, luz e gás, surge na segunda posição, com 21%.

Inadimplência reincidente

Para boa parte da população, a inadimplência tornou-se um problema crônico. Da atual lista de inadimplentes, 42% (34 milhões) estavam nessa mesma situação em 2016. Especialista em educação financeira da Serasa, Aline Vieira afirma que há dois fatores para a reincidência em não conseguir pagar contas: o cenário econômico do país e a falta de planejamento orçamentário dos cidadãos. “Os últimos dez anos foram marcados por juros elevados e pressão inflacionária, que impactaram diretamente o orçamento das famílias”, avalia. “Ao mesmo tempo, houve ampliação do acesso ao crédito, muitas vezes sem o devido planejamento, levando parte dos consumidores a utilizá-lo como complemento de renda, e não como um recurso pontual.”

Sócio-fundador da Macro Assessoria de Investimentos, o economista Gabriel Rech corrobora a análise de Aline. Ele entende que a disciplina financeira é indispensável, o que passa por registrar, numa planilha de Excel ou em folhas de papel, todos os ganhos e gastos de um mês, assim como ter a iniciativa de ir conversar com os credores. “É necessário evitar usar crédito caro para despesas do dia a dia e buscar renegociar cedo, antes que a dívida vire bola de neve”, afirma. “Em um ambiente em que o endividamento já está perto do limite, prudência deixou de ser opção e se tornou item de sobrevivência financeira.”

Segundo a Serasa, 48% dos inadimplentes são trabalhadores com renda de até um salário mínimo, atualmente em R$ 1.621. Mais da metade desse valor é comprometida, por exemplo, para comprar uma cesta básica na cidade de São Paulo, onde a média de custo supera os R$ 860, informa o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Levando em consideração despesas com alimentação, educação, moradia, higiene, lazer, previdência, saúde, transporte e vestuário, o Dieese estimou, em dezembro do ano passado, o salário mínimo ideal na casa dos R$ 7,4 mil.

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Praticamente metade dos brasileiros inadimplentes ganha até um salário mínimo | Foto: Divulgação/Serasa Experian

Famílias e empresas sofrem

Diferentemente da Serasa, que mapeia a quantidade de pessoas inadimplentes, a “Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor” (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), acompanha o estado financeiro das famílias. Divulgada em março, a última Peic afirma que há 5,5 milhões de famílias brasileiras com contas em atraso, retração de 0,2% em relação a fevereiro, que segue como recorde nesse sentido. O indicador está acima de 5 milhões de forma ininterrupta há 11 meses, desde maio do ano passado. O menor patamar da série histórica, iniciada em janeiro de 2010, é 2,5 milhões, em fevereiro de 2015.

Economista-chefe da CNC, Fabio Bentes não demonstra otimismo no curto prazo. Ele vislumbra a presença do fantasma inflacionário. “Vemos uma nova rodada de reajuste das expectativas de inflação para os próximos meses”, diz. “Fenômeno que, se confirmado, pressionará desproporcionalmente o orçamento das famílias de renda mais baixa.” O temor de Bentes se dá em meio às perspectivas do mercado financeiro. Na última segunda-feira, 13, analistas ouvidos pelo Banco Central aumentaram pela quinta semana seguida a projeção da inflação do país. De acordo com eles, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo vai fechar 2026 em 4,71%, o que supera o teto da meta, de 4,5%.

A inadimplência também afeta pessoas jurídicas. Problema que bateu recorde em novembro de 2025, com 8,9 milhões de empresas negativadas. O patamar se repetiu em dezembro e teve leve oscilação em janeiro, com 8,7 milhões de CNPJs não conseguindo pagar em dia todos os seus compromissos, conforme a Serasa. O montante de dívidas atrasadas ultrapassa R$ 200 bilhões. Do total de corporações inadimplentes, 8,3 milhões são micro e pequenas — empresas que, de modo geral, têm até 50 funcionários e faturamento anual abaixo de R$ 400 mil.

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Evolução, mês a mês, da quantidade de CNPJs inadimplentes no Brasil | Foto: Divulgação/Serasa Experian

“As micro e pequenas empresas, que concentram a maior parte das companhias inadimplentes, têm, em geral, menor acesso a linhas de crédito estruturadas e dependem mais de recursos de curto prazo”, observa a economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack. “Em um cenário de custo financeiro elevado e maior seletividade na concessão, a capacidade de renegociação e de alongamento das dívidas fica reduzida, o que ajuda a explicar a concentração da inadimplência nesse grupo.”

Com milhões de pessoas, famílias e empresas lidando com a inadimplência, Gabriel Rech acredita na necessidade de medidas por parte do poder público. “O ajuste mais consistente precisa vir da política fiscal. Um governo que sinaliza responsabilidade com as contas públicas, com gasto mais eficiente e trajetória crível de dívida, abre espaço para uma queda sustentável da taxa de juros”, afirma o economista-chefe da Macro Assessoria de Investimentos. “Essa combinação de fiscal mais austero com juros menores é o que, de fato, melhora o ambiente de crédito, reduz o custo das dívidas e ajuda a tirar a inadimplência dos níveis atuais.”

Penduricalhos e viagens a pagar

A austeridade defendida por Rech não está no radar da Praça dos Três Poderes. No Judiciário, o Supremo Tribunal Federal, em vez de acabar com os “penduricalhos”, resolveu institucionalizar regras para bonificações voltadas a servidores públicos. Análise de risco presente na Lei de Diretrizes Orçamentárias deste ano mostra que somente um desses benefícios, o adicional por tempo de serviço, vai consumir mais de R$ 1 bilhão dos pagadores de impostos

No Legislativo, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), é outro a dar mau exemplo em relação a gastos. No início deste ano, ele abriu processo de licitação no valor de R$ 90 milhões para a contratação de duas agências de publicidade, que terão a missão de promover a Casa na mídia. Já no mês passado, virou notícia por uma decisão peculiar: enviou ofício a ele mesmo para liberar aproximadamente R$ 400 mil em emendas parlamentares.

Já no Executivo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem outras prioridades. Desde que voltou ao comando do Palácio do Planalto, fez mais de 40 viagens internacionais, o que consumiu quase R$ 4 bilhões em gastos somente com diárias. Inclusive, partiu para a Europa nesta quinta-feira, 16. No tour, ele tem a companhia da primeira-dama Janja e de 15 ministros, o que forma comitiva recorde na atual gestão.

Enquanto Alcolumbre manda ofício para ele mesmo e Lula viaja, o casal Leonilde e João encara, assim como tantos milhões de brasileiros, o desafio de trabalhar (e muito) para escapar da lista de inadimplentes.

Com colaboração de Isabela Jordão.

Leia também “O tombo no PIB e a guerra no Irã”

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5 comentários
  1. Lauro Patzer
    Lauro Patzer

    O que indica a taxa de inadimplência? A alta taxa, 81,7% de brasileiros inadimplentes desfaz a bazófia que afirma que o Brasil está economicamente bem e pulveriza as falsas propagandas do governo. O percentual denuncia que a economia está péssima. Outro favor que contribui é a debandada de empresas para o Paraguai, onde os impostos são menores e onde o custo de uma empresa é suportável.

  2. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Só podemos é lamentar profundamente vivermos num país privilegiado em tamanho e posição geográfica com recursos naturais de dá inveja a outros países e ter uma corja de ladrão comunista terrorista narcotraficante assassinos vigaristas imundos podres nos três poderes tomando decisões. Esperemos que mude imediatamente

  3. Sandra A. Hipolito
    Sandra A. Hipolito

    A era lula de implantar socialismo e chegar ao comunismo , teria que enxugar a CLASSE MEDIA e implantar o pobre que depende do ESTADO. A INTERRUPÇÃO DE 04 ANOS MOSTROU que podemos melhorar, mas as armas fora da lei , e o desânimo CONFISCO, PANDEMIA DESTRUIÇÃO ROUBO COM POLÍTICOS E MILICIAS, está destruindo a população e fechando empresas destruindo a classe média. Os filhos do Lula o que recebem do casamento é o que o “pai” da pra chegar a comunismo são destruídos da shinkariol a JBS, passando pela TELEFONIA OI, celulose..são destruição e impostos pra sustentar a naquela pública.

  4. Sandra A. Hipolito
    Sandra A. Hipolito

    É , após a era COLLOR o confisco efetuado deu aos brasileiros e aos filhos dos que morreram e se mataram não adiantava guardar dinheiro e investir no futuro. Esse FUTURO foi o CONFISCO do dinheiro que seria investir estudo, negocio, na casa própria o sonho da casa de praia ..

  5. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Sim com as micros e pequenas empresas pagando vinte e sete por cento de impostos para nababos viajarem e penduricalhos
    Sem fim, a conta não fecha mesmo.Como sair de um patamar de seis e meio por cento no governo anterior e passar para vinte e sete e meio por cento no atual governo? Impossível, são pequenos empreendedores em busca de apenas sobreviver.

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