Uma breve consulta às listas das mais ouvidas nos streamings de música revela um cenário que, embora possa ser falseado por artimanhas tecnológicas, ainda assim é assustador. Principalmente porque muitos jovens passam a consumir produtos de baixíssima qualidade pelo simples fato de acreditar que eles estão “bombando”. Na última segunda-feira, 20, por exemplo, o Top 10 do Spotify, o principal aplicativo de música, incluía cinco funks, quatro sertanejos universitários e um piseiro, subespécie do forró. O panorama pouco variou ao longo da semana. As letras, apenas banais no caso do sertanejo, caem de nível no piseiro e atingem o ápice da baixaria no funk. Chamar tais letras de chulas, grosseiras, vulgares ou obscenas ainda é insuficiente para defini-las.
Vejamos alguns trechos da “canção” Famoso Ímã — O Poderoso Chatão, de MC Lele JP, com participação de MC Poze do Rodo e MC Leozinho ZS, uma das campeãs da semana (os palavrões foram abreviados):
“(O muleque é brabo, né?)/(Car…!)
Se eu falei: Te amo, era verdade/Hoje não sinto p… nenhuma […]
Se eu entrar no jogo, é desempate/O amor descarte/Só marchando as pu… […]
Toc, toc, bato na sua porta/Eu não trouxe rosa, só vim te co… […]
Sobe, fica toda empinadinha/Pode deixar seu cabelo solto/Na garupa, essa princesinha
Joga esse bundão no seu piloto/Espirrou lancinha, ficou na ondinha/
Passadão no baile com meu pentão de trinta […]
Joga a bu —, joga a buc… pro menor mal/Pede que bate e chama de pu…
Quer fu… vendo essa vista linda”
Tô tipo ímã, ela posa e pula/No trecho, pede catucada bruta […]
Ela quer viver no Pantanal/Senta baforando um lança no piru de marginal”
Outra em destaque é Bola uma Vela (Trava Chip), de MC Meno K e DJ Yuri Pedrada:
“Bola uma vela pra travar o chip, gin de dez no copo da bitch
Ela vem pra matar o apetite de comer uma carne nova
Sou maluco no pedaço, pode me chamar de Will
Que o tio Phil patrocinou, dez shereq… no…
Ela passa a boca nas ponta, meu guri arrepia
Fica de costa pra banca, sarrada de trina
O menorzão da Esperança vai te buscar de quina
Pra tu ficar mais mansa, senta com a sua rosinha
Senta com a sua rosinha, senta com a sua rosinha”
Na opinião do jornalista, produtor e crítico musical Régis Tadeu, “as canções horríveis presentes no chamado ‘Top 10 do Spotify’ têm suas posições ‘bombadas’ artificialmente pelo excessivo uso de ‘bots’ e ‘robôs’, que fazem com que essas ‘musiquinhas’ apresentem números de execuções completamente irreais, que por sua vez são recebidos por um público abobalhado e com baixíssima capacidade cognitiva como se fosse uma ‘verdade absoluta’”. Para ele, “uma prova desse esquema é a baixa presença de público nos shows desses pseudoartistinhas”.
Conhecido por dispensar meias-palavras e ir direto ao ponto, Régis Tadeu define: “Isso significa que está em andamento um esquema que visa a atrair a atenção dessa molecada debiloide para aquilo que esses ‘nomes de sucesso’ vendem, que é um estilo de vida irreal à base de apostas, rifas e outros ‘produtos’. Essas músicas horríveis, com letras apelativas e de fácil memorização, são apenas as iscas para algo muito maior: a grana do público cretino que consome músicas… cretinas”.
Ainda que se considerem as distorções das listas dos streamings pelo uso de bots, programas automáticos que simulam reproduções das músicas, inflando artificialmente o número de “ouvintes” — algo de difícil apuração —, muito do que está ali acaba entrando nos ouvidos de milhares de jovens.

Em suas origens, o funk surgiu na década de 1960 por obra de músicos afro-americanos, tendo em James Brown uma figura de proa. Da mistura de gêneros nasceu uma música com ênfase no ritmo, na batida, em detrimento da harmonia tradicional. Nas letras, a preocupação com a rima e a métrica deu lugar à busca pela mensagem direta e muitas vezes engajada ou apimentada em variados graus. No entanto, o que muitos autodeclarados funkeiros fazem no Brasil hoje em dia é outra coisa. Letras meramente apelativas no mais alto grau, com apologia a sexo — inclusive não consentido —, drogas, violência física e psicológica, vandalismo, ataques a autoridades e por aí vai. No vídeo a seguir, o músico e influenciador digital Lord Vinheteiro, de opiniões fortes e irreverentes, comenta as diferenças.
Na música Ideologia, de 1988, Cazuza cantou: “Meu sex and drugs não tem nenhum rock ‘n’ roll”. A letra retratava o desencanto diante de um cenário no qual seus sonhos não sobreviviam aos fatos. Também refletia seu estado de espírito um ano depois de ter descoberto ser portador do HIV, e um ano antes de revelar a doença ao público. Da vida de “sexo, drogas e rock ‘n’ roll”, um lema de liberdade e hedonismo da contracultura dos anos 1960/70, havia desaparecido a parte romântica, restara a realidade. No cenário atual, o que desapareceu mesmo foi a qualidade musical. Preferência por gêneros é questão de gosto pessoal. E música ruim sempre existiu, mas jamais neste nível de mediocridade e com letras que atentam contra a dignidade humana e a própria lei. Comparadas com essas, letras como “Pau Que Nasce Torto”, do grupo É o Tchan, parecem canções de ninar.
Lei, por sinal, infringida na prática por alguns funkeiros. MC Ryan SP e MC Poze do Rodo, por exemplo, foram presos pela Polícia Federal na quarta-feira, 15, no âmbito da operação Narco Fluxo. Na quinta-feira, 23, o Superior Tribunal de Justiça determinou a soltura de ambos. Em seguida, a PF pediu a prisão preventiva dos dois. Eles são suspeitos de envolvimento em lavagem de dinheiro por meio de exploração de rifas clandestinas e jogos ilegais. O esquema teria atingido o montante de R$ 1,6 bilhão. A investigação apura também as ligações com o PCC e o Comando Vermelho. A vereadora paulistana Amanda Vetorazzo abordou o assunto em um vídeo publicado no Instagram.
Já Oruam, cuja notoriedade é fruto não apenas de sua “arte”, mas do fato de ele ser filho de Marcinho VP, um dos líderes do Comando Vermelho, é outro que está às voltas com a Justiça. Definido como rapper e trapper (subgênero do rap), suas diferenças para um funkeiro, ou MC, como se intitulam, são irrisórias no estilo e mais ainda no conteúdo. Oruam, que se encontra foragido, tem audiência marcada para o próximo dia 11 de maio. Ele é acusado de dupla tentativa de homicídio de policiais.
Mesmo se considerarmos que casos do gênero são exceção, ainda assim, as próprias letras de muitos funkeiros, principalmente as do chamado “proibidão”, incorrem em ao menos dois tipos de contravenção: apologia ao crime e incitação de violência contra a mulher, incluindo incentivo ao estupro, além de glorificação de facções criminosas.
Sob o disfarce de dar voz à periferia, tais composições acabam por ecoar mesmo é uma visão de mundo distorcida, abjeta e criminosa que ajuda a moldar o comportamento de jovens num país em que a educação já é bastante precária. Na edição de 2022 (a mais recente disponível) do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês), que considera dados de 81 países, o Brasil foi o 65º colocado em matemática, 52º em leitura e 62º em ciências. Na média não oficial (este dado não é publicado), isso significaria a 56ª posição.
A baixa qualidade do ensino é apenas um dos tantos aspectos que contribuem para que as músicas de baixo nível façam sucesso. A ela somam-se as políticas públicas tolerantes com comportamentos ilegais e o posicionamento de autoridades como o próprio presidente Lula. Segundo suas palavras, não há mal nenhum em roubar um celular “para tomar uma cervejinha”, os traficantes são “vítimas dos usuários”, e uma mulher “não pode ser submissa ao homem por causa de um prato de comida”, mas “tem que ser submissa porque gosta dele”. Lula também já disse que “se o cara é corintiano, tudo bem”, ao falar do aumento da violência contra a mulher depois de jogos de futebol.
Ao longo da vida, o ser humano é influenciado pelos lugares que conhece, os livros que lê, os filmes aos quais assiste, as músicas que ouve e assim por diante. Ao escutar repetidamente “obras” com conteúdos agressivos e sexistas, sobretudo num ritmo que “martela” no cérebro, é natural que os jovens acabem adotando comportamentos igualmente distorcidos, resume a professora de filosofia Lúcia Helena Galvão.
“Esse tema me assombra e me preocupa profundamente”, diz Elizabeth Guedes, presidente da Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino (Confenen). “Não se trata de atribuir à música, sozinha, a responsabilidade pela crise social que vivemos, nem de defender a censura, mas também não podemos fingir que conteúdos consumidos em massa não influenciam valores, comportamentos e modos de ver o mundo.”
De acordo com Elizabeth, que tem mais de 30 anos de experiência na área da educação, “a música tem força formadora, especialmente entre os jovens”. Para ela, “quando letras passam a normalizar o crime, erotizar a violência, banalizar as drogas e transformar a humilhação da mulher em entretenimento, elas reforçam uma cultura já marcada pela brutalidade, pela misoginia e pela ausência de limites”.
A música com este tipo de mensagem reforça as características de um contexto já propício às distorções de comportamento, como a baixa qualidade do ensino, as fragilidades familiares e a vulnerabilidade social. “Muitas mães solo fazem o impossível para criar seus filhos, mas disputam, em condições desiguais, com uma indústria cultural poderosa, que muitas vezes lucra justamente com a degradação, o escândalo e a inversão de valores”, comenta Elizabeth. “É claro que a relação entre música e comportamento não é automática, mas a repetição contínua desses estímulos ajuda a naturalizar o desrespeito, a violência e a objetificação da mulher”, afirma. “E isso tem efeitos reais sobre o imaginário e sobre a formação moral de milhares de jovens.”
A resposta para esta questão, opina Elizabeth, não está em simplificações, mas em contemplar aspectos como “educação de qualidade, fortalecimento das famílias, ampliação do repertório cultural e enfrentamento a uma lógica de mercado que, muitas vezes, transforma a barbárie em produto”, avalia. “A cultura não é neutra, e aquilo que ela celebra hoje ajuda a formar o país que teremos amanhã.”

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Pobre geração de QI baixo, cujos idolos tem ficha na delegacia. O gosto pela boa musica começa em casa. Mas de acordo com determinado juiz, nao gostar de funk é preconceito . Lamentável
Excelente artigo! Curioso que, a respeito da normalização da misoginia inserida nessa subcultura, os “artistes” se calam.
Esses jovens de hoje só gostam dessas música porque são jumentos alienados e viciados em drogas e esperteza (enganar os outros pra tirar vantagens)
Brilhante artigo sobre o lixo que é são as músicas ouvidas pela nossa juventude. Será de grande valia para comentar com os jovens que gostam desse tipo de “música” em sala de aula.