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Imagem gerada por IA, publicada na conta oficial do presidente Donald Trump no Truth Social | Foto: Reprodução/Truth Social
Edição 320

Messias artificial, estupidez natural

Minha aposta: Trump não dá a mínima se suas falas dificultam a vida do seu sucessor, porque, no fundo, ele não quer um sucessor. Não quer um mundo sem ele mesmo

Quando bati o olho pela primeira vez naquela imagem agora famosa do presidente Trump posando como Cristo, minha reação imediata foi achar que era obra de algum humorista ácido, satirizando as constantes e contraditórias bravatas do presidente. Mas, como costumava dizer meu falecido amigo, o brilhante economista Peter Bauer, o único desemprego verdadeiro hoje em dia, que nenhuma política econômica consegue reduzir, é o dos humoristas. A razão é simples: a realidade se tornou tão absurda que satirizá-la agora é impossível, está além da capacidade mental do ser humano.

Certa vez, escrevi um artigo para mostrar como é fácil criar pânico em relação a questões de saúde. Fiz um alarde em cima de um “estudo científico” que ligava o hábito de beber chá a uma série de doenças. O resultado? As vendas despencaram, mesmo diante da péssima qualidade técnica do estudo. O presidente da associação da indústria de chá publicou uma nota na mesma hora para dizer que beber chá era seguro e benéfico. Ele não foi capaz de perceber a diferença entre sátira e informação.

A sátira também é profecia. Se você publica algo propositalmente absurdo, alguém vai levar isso a sério. Em pouco tempo, da ironia nasce uma política de governo.

Acontece que a imagem de Trump retratado como Cristo não era uma piada. Foi publicada e espalhada pelo próprio homem. A imagem foi obra de inteligência artificial, mas sua distribuição foi um ato de estupidez natural — aquele tipo de estupidez nascida da húbris, uma arrogância desmedida. Normalmente, a ira de Nêmesis (deusa grega da vingança) segue a húbris, mas, não raro, lemos sobre ditadores atrozes que têm o privilégio imerecido de morrer em paz em suas camas.

A divulgação de uma imagem gerada por inteligência artificial que retrata Donald Trump como Cristo expõe a arrogância desmedida e a vaidade sem limites do político | Foto: Reprodução/x

Quem entra na política precisa de uma dose de autoconfiança. Quase todo mundo que faz algo que exige decisões individuais precisa disso. Um encanador tem que acreditar que pode consertar o vazamento; um escritor precisa de um ego robusto o suficiente para achar que o que ele escreve vale o tempo de alguém. Autoconfiança, nesse caso, não é virtude, é necessidade.

No entanto, como qualquer característica, ela pode se tornar inflada, exagerada, mórbida e patológica. Todos conhecemos alguém insuportavelmente cheio de si, mas duvido que alguém supere Trump nesse quesito. Mesmo seus apoiadores, ou aqueles que acham que ele fez algo de bom, não podem ignorar sua autoidolatria sólida, inabalável. Para alguns, a autoidentificação com Cristo foi longe demais. Ele arriscou perder parte do seu apoio que já vem minguando e, de quebra, dificultou a vida de seu sucessor republicano, seja quem for.

Aqui entro no campo da especulação, pois é impossível conhecer o raciocínio de outra pessoa — a menos que ela escolha revelá-lo. Ainda assim, ela pode estar mentindo ou nem sequer entender a si própria. Dizem que o autoconhecimento é desejável, mas impossível. Sendo assim, deixo aos filósofos a missão de decidir se é viável almejar algo impossível. Seja como for, o coração de cada ser humano guarda um mistério que jamais será completamente revelado.

Minha aposta é esta: Trump não dá a mínima se suas falas dificultam a vida do seu sucessor, porque, no fundo, ele não quer um sucessor. Ele não quer um mundo sem ele mesmo. É como o rei Béranger, na peça A Agonia do Rei (1962), de Eugène Ionesco.

Ionesco é o maior dos dramaturgos do absurdo. Ele sempre teve pavor da morte. Na peça, o rei Béranger sempre achou que, por ser rei, poderia escolher a hora de morrer. Quando descobre que vai partir em uma hora e meia, ele protesta:

“Eles vão rir, vão banquetear, vão dançar sobre o meu túmulo. Será como se eu nunca tivesse existido. Ah, que se lembrem de mim! Que chorem, que se desesperem! Que perpetuem minha memória em todos os livros de história. Que todos aprendam a minha vida de cor. Que estudantes e acadêmicos não tenham outro assunto de estudo além de mim, meu reino e minhas façanhas. Que queimem todos os outros livros, destruam todas as outras estátuas e ergam a minha em cada praça pública. Meu retrato em cada ministério, em cada prefeitura, repartição fiscal e hospital. Que deem meu nome a cada avião, cada navio, cada carroça e motor a vapor. Que todos os outros reis, guerreiros, poetas e filósofos sejam esquecidos, e que apenas eu permaneça na mente das pessoas. Apenas um nome de batismo, apenas um sobrenome. Que aprendam a ler soletrando meu nome: B-É-Bé, Béranger. Que eu esteja nos ícones, em milhões de cruzes em cada igreja. Que rezem missas para mim, que eu seja a própria hóstia. Que cada janela tenha a cor e o formato dos meus olhos… que eu seja invocado eternamente, que me supliquem, que me implorem!”

Isso é sátira, claro: uma sátira sobre o egoísmo intrínseco do homem e sobre a extrema futilidade (ou ilusão) do poder. Não é uma ideia original. Um dos meus poemas favoritos, a Elegia Escrita num Cemitério de Aldeia (1751), de Thomas Gray, reflete sobre a morte, que a todos iguala:

“O alarde da heráldica, a pompa do poder,
E tudo o que a beleza e a riqueza um dia deram,
Aguardam, iguais, a hora inevitável.
Os caminhos da glória não levam a outro lugar,
Senão à sepultura.”

Mas a sátira é profecia, e não vejo como poderia alguém ler o discurso de Béranger sem pensar em uma certa figura contemporânea.

Trump observa o Salão Oval, na Casa Branca, em Washington, DC, EUA - 30/1/2026 | Foto: Kevin Lamarque/Reuters
Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump | Foto: Kevin Lamarque/Reuters

Theodore Dalrymple é pseudônimo do psiquiatra britânico Anthony Daniels. É autor de mais de 30 livros sobre os mais diversos temas. Entre seus clássicos (publicados no Brasil pela editora É Realizações) estão A Vida na Sarjeta, Nossa Cultura… Ou o que Restou Dela e A Faca Entrou. É um nome de destaque global do pensamento conservador contemporâneo. Colabora com frequência para reconhecidos veículos de imprensa, como The New Criterion, The Spectator e City Journal.

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8 comentários
  1. Vanessa Días da Silva
    Vanessa Días da Silva

    Acho que se o Trump não tivesse essa motivação de querer ser lembrado, para que iria se empenhar tanto em levantar o moral dos EUA, acabar com a frescurada das forças armadas e com o wokeismo? Ele jahavia sido presidente, é milionario, tev um monte de mulheres lindas. Que bom qu el tem um proposito, aina que seja egocentrico, mas que esteja beneficiando mais do que prejudicando. O colunista deveria parar de olhar pelo lado pessoal e passar a avos resultados. Não interessa aos americanos se ele se acha Deus, jesus ou indispensável. Interessa tornar o pais cada vez mais próspero.

  2. João Carlos SARAIVA-PINHEIRO
    João Carlos SARAIVA-PINHEIRO

    Podemos aplicar sem medo a locura de Béranger ao nosso mandatário?

  3. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    O importante são as ações praticadas por ele em nome dos EUA. Essa questão de querer ser Jesus Cristo não altera em nada pra mim, até porque eu sou spinoziano, substancialista

  4. Daniel BG
    Daniel BG

    (minha nota a parte e não relacionada ao todo do artigo)
    “Dizem que o auto conhecimento é desejável, mas impossível” e a imagem de Trump como CRISTO são incompatíveis.
    Todos sabemos que Cristo é conhecido exatamente pelo auto conhecimento.
    E se auto conhecimento fosse realmente impossível, para que se fazer psicoterapia? (ou uma confissão ao padre?)

  5. Eduardo Fortkamp
    Eduardo Fortkamp

    Esse psiquiatra, calado é um poeta. Ele deveria se restringir a dar remediozinhos inócuos para seus pacientes. Pobres pacientes….

    1. Eduardo Fortkamp
      Eduardo Fortkamp

      Aliás eu não entendi porque esse elemento faz parte dos colunistas da Oeste. Alguém sabe explicar?

    2. Marcos Venicio Zanetti David
      Marcos Venicio Zanetti David

      Por que meu amigo? Muitos como você acham que ser de direita é se ajoelhar e dizer amém para todos os grandes icones da legenda. Pessoas são falíveis e o que o colunista escreveu é verdade? Sim, a mais pura verdade. Então deixa o cara expressar a sua opinião.

    3. Eduardo Fortkamp
      Eduardo Fortkamp

      Muitos como voce, vírgula. Voce não me conhece pra poder dizer o que eu penso.

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