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Foto: Montagem Revista Oeste/IA
Edição 320

O futuro aconteceu

Muitas das previsões tecnológicas feitas em filmes, séries e até desenhos já se tornaram realidade e outras estão sendo desenvolvidas numa velocidade maior que a esperada

Era uma vez uma família chamada Jetson. Eles viviam em 2062, no alto de um arranha-céu. O pai, George, era um dedicado funcionário da empresa Spacely, onde chegava de carro voador (que se transformava numa maleta quando ele desembarcava) e trabalhava duro — às vezes até três horas por dia! A mulher de George, Jane, administrava o apartamento do casal e cuidava dos dois filhos, Judy e Elroy, além do cão Astro. Quando precisava conversar com o marido, Jane usava um estranho aparelho que transmitia som e imagem ao mesmo tempo. Quando George queria assistir a uma partida de futebol entre robôs, sua imitação eletrônica conversava com Jane dizendo que não podia ir para casa pois estava fazendo hora extra. 

No 2062 descrito pela série de animação Os Jetsons (produzida um século antes), enganar a mulher com uma imagem falsa ainda não se chamava deep fake. E a comunicação por vídeo e imagem era feita por um aparelho grandão, e não pelos minúsculos smartphones de hoje. Mas — segundo matéria de Nicole Nguyen para The Wall Street Journal — a série previu muita coisa que está acontecendo hoje, ou está para acontecer.

Carro voador? Temos até um projeto brasileiro, o EVE, da Embraer, que poderá voar já no ano que vem. Robôs domésticos como a prestativa Rose, apresentada logo no primeiro episódio? Já estão dando seus primeiros passos entre os humanos. Futebol entre robôs? Check.   

Muitas vezes, as melhores profecias surgem da boa e velha imaginação. Vamos ver alguns exemplos de previsões da cultura pop na área de tecnologia e conferir se elas viraram ou estão a caminho de se tornar realidade.

2001: uma Odisseia no Espaço (1968)

O filme dirigido por Stanley Kubrick apostou que a humanidade estaria se hospedando no Hilton Lua e partindo para a exploração de Júpiter. Em 2026, a Lua continua sem um hotel. E não pisamos nem em Marte, quanto mais em Júpiter. O projeto americano Artemis pretende iniciar o estabelecimento de uma base permanente no nosso satélite só no início da próxima década. Mas num ponto o filme previu nossa época: os conflitos éticos e morais estabelecidos pela inteligência artificial, tão bem retratados por HAL 9000, o computador com sentimentos.

De Volta para o Futuro 2 (1989)

Muitas previsões do filme de Robert Zemeckis e Bob Gale se confirmaram. No filme, o Marty McFly (Michael J. Fox) do futuro conversa com o chefe pela TV em uma videoconferência, o que virou rotina hoje com aplicativos como Zoom e Google Meet. Biometria: a filha de Marty abre a porta de casa usando apenas a impressão digital, uma tecnologia hoje comum em fechaduras eletrônicas. O filme mostra um drone do jornal USA Today tirando fotos de um evento, o que se tornou uma ferramenta padrão no jornalismo moderno. Tecnologia vestível (wearables): os filhos de Marty usam óculos que exibem vídeos e atendem chamadas, antecipando conceitos de dispositivos como o Google Glass e os headsets de realidade virtual. Marty é abordado para fazer uma doação através de um dispositivo portátil de cartão, muito similar às nossas máquinas atuais. Mas o skate voador ainda não existe.

Minority Report – A Nova Lei (2002)

As telas de computador que se deslocavam e eram manipuladas por gestos no filme de Steven Spielberg já existem. Ainda não se popularizaram, mas está em tempo. A trama, que se passa em 2054, também previu a chegada da publicidade personalizada, hoje comum na internet. Previsão de crimes futuros? Ainda não chegamos lá.

Jornada nas Estrelas (1964) 

A série original criada por Gene Roddenberry se passa num futuro ainda muito distante: 2265. Mas suas previsões tecnológicas são consideradas algumas das mais bem-sucedidas. Por exemplo, o comunicador usado pelo Capitão Kirk (William Shatner) inspirou Martin Cooper, o inventor do primeiro celular da Motorola, em 1973. Os tripulantes da nave Enterprise usavam dispositivos chamados PADDs (“aparelhos pessoais de acesso a dados”), que funcionavam de forma idêntica aos tablets modernos. Numa época em que computadores eram máquinas gigantescas, a série mostrou aparelhos acessíveis e interfaces controladas por voz — precursoras de sistemas como a Alexa e o Google Assistant. A série apresentava um dispositivo que traduzia idiomas alienígenas em tempo real, conceito hoje aplicado em ferramentas como o Google Tradutor. O médico de bordo da Enterprise, doutor McCoy (DeForrest Kelley), usava um aparelho chamado Tricorder para escanear sinais vitais sem cirurgia invasiva. Previu tecnologias atuais de diagnóstico, como a ressonância magnética e a tomografia.

O Exterminador do Futuro (1984)

O cineasta James Cameron um dia sonhou que era perseguido por um robô que não parava por nada. A partir desse sonho, Cameron construiu um dos maiores sucessos do cinema, especialmente com  sua continuação, em 1991. Criou também um dos maiores ícones da paranoia anti-inteligência artificial, o robô de olhos vermelhos vindo do futuro (2029), que atirava nos humanos por vontade própria. De certa forma, chegamos lá. Para resistir aos invasores russos, os ucranianos desenvolveram drones que agem por conta própria, localizando os soldados inimigos e atirando neles sem precisar de ordens humanas. Em pelo menos um caso, os russos se renderam ao drone. A China e os EUA também estão entrando nessa corrida por soldados autônomos.

Ela (2013)

Quando o filme foi lançado, a ideia pareceu bizarra demais: Theodore (Joaquin Phoenix), um personagem solitário e retraído, se apaixona pela voz da sua atendente pessoal no celular (Scarlett Johansson). Hoje existem aplicativos específicos de namoro com personalidades criadas por inteligência artificial, como Replika, Anima AI e AI Girlfriend Simulator. Em alguns países, chegaram a acontecer cerimônias simbólicas de união entre usuários e personagens. 

A.I. Inteligência Artificial (2001) 

O filme foi concebido por Stanley Kubrick e virou realidade com Steven Spielberg. Conta a história de um casal cujo filho sofre um acidente e entra em coma. Vendo a depressão da mulher (Frances O’Connor), o marido (Sam Robards) compra um modelo experimental de robô-menino com sentimento (Haley Joel Osment). Ainda não chegamos lá, mas parece óbvio que estamos caminhando para isso. Robôs estão evoluindo e a inteligência artificial parece cada vez mais humana.

Jurassic Park – O Parque dos Dinossauros (1993)

A ideia foi concebida pelo escritor Michael Crichton em 1990 e transformada por Steven Spielberg num dos maiores sucessos do cinema. E se a manipulação genética recriasse animais pré-históricos? O filme fez um sucesso tão grande que continua gerando sequências. No mundo real, os tiranossauros não voltaram a rugir. Mas no ano passado, a empresa Colossal Biosciences anunciou o nascimento dos três primeiros filhotes do dire wolf (“lobo-terrível”), que ficou famoso com a série Game of Thrones. O dire wolf está extinto há mais de 10 mil anos. A mesma Colossal está trabalhando na “desextinção” de três outras espécies: o mamute, o tigre-da-tasmânia e a ave dodô. 

O Show de Truman (1998)

Truman Burbank (Jim Carrey) é um homem que tem sua vida transmitida para o resto do mundo sem que ele saiba. Era uma perspectiva assustadora na época. No ano seguinte, foi criado na Holanda o programa Big Brother. Hoje o mundo virou um grande “Show de Truman”, com os programas do gênero se multiplicando, e milhões de pessoas transmitindo sua intimidade pelas redes sociais. A garota que se identifica como EmilyCC se tornou um exemplo desse novo tempo, ao transmitir — voluntariamente — sua vida, 24 horas por dia, através da plataforma Twitch.

O Vingador do Futuro (1990)

O filme com Arnold Schwarzenegger, ambientado em 2048,  mostrou o “Johnny Cab”, um táxi dirigido por um robô. Previsão antecipada. Hoje, táxis autônomos (que dispensam a figura de um robô) atuam pela empresa Waymo/Uber em cidades dos EUA como São Francisco, Phoenix e Los Angeles. A Baidu implantou os táxis sem motorista em 22 cidades, especialmente em Wuhan.

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6 comentários
  1. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Aqui no Brasil o exterminador do futuro político é Romeu Zema

  2. Denis R.
    Denis R.

    Nota 9.9 pois a previsão e julgamento de crimes que ainda não ocorreram já existe sim e é realizada pelo STF. Distópico, mas acontece infelizmente.

  3. Valesca Frois Nassif
    Valesca Frois Nassif

    Perfeito, Dagomir! Para alguém como eu, com idade suficpra ter visto todos esses filmes e series, foi uma deliciosa lembrança . Os que nao viram, com essa informação toda, estarão motivados a buscá-los e conhecer, nem que seja pra conferir, acredito. Parabéns !

  4. Francisco de Assis Bonfati
    Francisco de Assis Bonfati

    Vc errou, o STF prevê crimes sim, o fez com o Dallagnol e outros inocentes perseguidos.

  5. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Saudades da família Jetson,desenho muito assistido pós mim na TV. Os filmes mencionados no artigo de Dagomir Marquezi são ótimos, vale conferir.

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