Há algumas semanas, parte de Belém ficou parada em razão da COP30 —mesmo depois de passados meses de seu encerramento. Em 6 de março, a passarela da Avenida Júlio César, inaugurada para o evento, teve de ser desmontada. O projeto foi concebido para durar gerações, mas a estrutura apresentava risco de queda. O complexo do qual a passarela fazia parte ainda nem foi concluído. Trata-se do Parque Urbano Igarapé São Joaquim, orçado em R$ 150 milhões. Esse é apenas um entre muitos projetos de intervenção planejados na cidade.
A capital do Pará conseguiu mais de R$ 2 bilhões para se repaginar. O governo federal direcionou recursos de todo lado. Parte da verba para o São Joaquim, por exemplo, veio da Usina Hidrelétrica de Itaipu. A estatal também ajudou a bancar outros nove projetos. Só aí foram R$ 1,4 bilhão. Ao todo, a Secretaria de Obras Públicas do Estado do Pará firmou 22 contratos. Há estruturas de todo tipo: drenagem, pavimentação, saneamento e até revitalização. No papel, Belém parece estar diante de uma revolução urbanística. Nas ruas, o cenário é bem diferente.

A obra mais cara é a do Parque Linear Nova Doca, na Avenida Visconde de Souza Franco, com 1,2 quilômetro de extensão, ao custo de R$ 365 milhões. A ideia era acabar com o esgoto a céu aberto no canal que corta o lugar e criar, na margem, um ambiente moderno, digno de grandes capitais, com lanchonetes, banheiros e academias ao ar livre. Embora a cidade tenha reivindicado o título de representante da Amazônia, o paisagista decidiu não plantar árvores. Em vez disso, optou por implantar estruturas de metal e concreto que as imitassem, forradas com plantas menores. Tecnicamente, a justificativa seria evitar raízes profundas, que estragariam as obras feitas sob o solo, como as galerias destinadas a impedir a chegada do esgoto. Mas o mau cheiro por toda parte não deixa dúvida de que a água suja continua no mesmo lugar, expulsando a população.
A cerca de 2 quilômetros dali fica a Vila da Barca, um dos mais famosos, verdadeiros e inconvenientes retratos de Belém. O cartão-postal às avessas do Brasil profundo.
A maior parte da Vila da Barca é formada por casas de palafita, estruturas de madeira erguidas sobre a várzea. Não é uma favela vertical, como a Rocinha, no Rio de Janeiro. Em vez disso, os barracos ocupam a área alagada. Entretanto, de modo semelhante, conforme as famílias aumentavam, os novos membros se aglomeravam. Mãe, filha, neto, bisneto, primo, irmão, cunhado chegavam e ficavam, num processo que começou há cem anos. Nesse tempo todo, com ou sem COP, não houve solução para eles.
Segundo o IBGE, em torno de 7 mil pessoas moram nessa vila atualmente. Existe um projeto de reurbanização que começou há mais de 20 anos, na virada do milênio, pouco antes de Luiz Inácio Lula da Silva se tornar presidente da República pela primeira vez. Desde então, por volta de 150 casas foram construídas. Elas ficam na parte “mais nobre”, na entrada do bairro, onde a várzea foi aterrada e as construções são de alvenaria. Por ser a área mais acessível, é comum o movimento de traficantes.
“A Vila da Barca aceita todo mundo”, explica Rose Farias, 56 anos. Ela mora em uma área com outros sete barracos, além do dela. Os demais pertencem aos irmãos. “Ninguém além de nós constrói aqui porque nossa mãe chegou nesse terreno primeiro. Todo mundo respeita isso. Quando a gente quer vender, faz um contrato, assina e registra no cartório.” Mesmo sem escrituras ou matrículas em cartório, os moradores reconhecem mutuamente o direito de posse dos barracos em que estão, a ponto de haver o comércio deles.

Também existe o aluguel, como no caso de Elizabeth Pereira Barros, 80 anos. Ela mora em um pequeno cômodo escuro e de madeira. Vive com R$ 600 por mês. Desses, R$ 400 vão para pagar a moradia. O mês fecha com a ajuda dos vizinhos e alguns bicos feitos na máquina de costura doada. “Ontem, ganhei frango e carne”, comenta. “Amanhã, vou receber R$ 30 pelos remendos nessas roupas.” A renda bruta dela é maior, em torno de R$ 1,5 mil, mas o empréstimo feito logo depois da morte do marido, quando o barraco deixado por ele pegou fogo, consome a maior parte do pagamento.
Algumas centenas de metros adiante mora Leandro Silva, 29 anos, junto da mãe e da avó. Ele trabalha numa empresa de telemarketing e sonha em empreender. Não recebe auxílio do Estado porque quer ser dono do próprio destino. No fim da viela mora Dorivaldo Barros, 54 anos. Em um mundo digital, onde todos têm celular e chave Pix, ele nem sequer possui certidão de nascimento. Portanto, não existe para o Estado. Assim, nada de carteira de trabalho. Dorivaldo é eletricista e desempenha um punhado de funções similares, como encanador e pedreiro. Ele tentou conseguir os documentos algumas vezes, mas esbarrou na burocracia. “Consigo, no máximo, um protocolo”, diz.

Belém abriga 1,3 milhão de habitantes. Quase 60% deles estão em favelas. É a maior proporção do país. São 750 mil pessoas em moradias precárias, muitas delas sem canalização de esgoto ou com sistemas precários. Na Vila da Barca, por exemplo, a tubulação de água e esgoto recentemente instalada é formada por canos e mangueiras semelhantes aos usados em jardins. Além disso, os moradores não confiam na água que sai da torneira. Shirley Freitas Furtado, costureira, 56 anos, afirma usá-la apenas para tomar banho, lavar louça e roupas. “Beber mesmo, apenas a comprada”, avisa.
A desconfiança de Shirley é compartilhada pelos vizinhos. A rede de coleta foi instalada há poucos meses e não resolveu o problema do lixo que flutua praticamente sob toda a Vila da Barca, visível pelas frestas dos assoalhos e pelos espaços entre eles e os tablados. “Ter um gato para caçar os ratos é questão de saúde”, reclama a costureira. Os moradores afirmam que a quantidade de sujeira aumentou depois da COP30. Segundo eles, mais dejetos do restante da cidade passaram a ser despejados embaixo dos barracos.
Em vez de seguir com o projeto de urbanização iniciado duas décadas atrás, o governo federal propôs o programa de compra assistida. Nesse modelo, cada família recebe R$ 195 mil por habitação para adquirir outra residência em qualquer parte do Estado. Alguns pretendem aderir. Muitos, porém, rejeitam a ideia de se mudar. O local fica em região nobre, em frente à Baía do Guajará. O tipo de área que, se não fosse a Vila da Barca, viraria cartão-postal na COP30.
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Mas olha só que união família Barbalho e Lula, não poderia dá em outra coisa, roubo e destruição
Colocar árvores artificiais na região amazônica é uma grande idéia de jerico e o pior, possivelmente se pagou muito dinheiro por esta idéia de jerico – volto a afirmar. Porque não chamaram a Marina Silva para ver estas árvores….ah ah ah . Brasil, sil, sil sil…..