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Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock/Ricardo Stuckert/PR
Edição 321

Discurso mofado

Ideias que já não seduzem, políticos ultrapassados e incompetência no mundo digital fizeram com que o PT perdesse a capacidade de se comunicar com os eleitores jovens

Sempre embriagado de delírios de grandeza, Lula jamais permitiu que alguém crescesse o bastante para lhe ameaçar a condição de líder e guru da seita que comanda. O comportamento soberbo estendeu-se à companheirada à qual foi permitido ascender até o segundo escalão do partido — o primeiro ele faz questão de habitar sozinho —, materializando a metáfora da ausência de sombra no deserto de ideias do PT. A aversão do chefe à preparação de novos nomes, o apego de alguns antigos comparsas ao poder e a carência de neurônios de outros tantos contribuíram para que o partido envelhecesse muito mal.

O novo programa do PT, aprovado em congresso realizado no mês passado, teve como mentor intelectual José Dirceu, membro mais graduado entre os acólitos de Lula. A suposta renovação da sigla ficou sob a batuta de um octogenário. A idade não é problema para mentes privilegiadas, sempre à frente de seu tempo. Nestes casos, a experiência se soma à qualidade. Mas José Dirceu é homem sempre em sintonia com o atraso.

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José Dirceu, membro mais graduado entre os acólitos de Lula | Foto: Reprodução/PT

Candidato do PT à Presidência desde 1989, Lula só não concorreu quando não pôde, por impedimento legal ou por estar cumprindo uma temporada na cadeia. Em 2010, como a legislação não permite três mandatos consecutivos, entregou a tarefa a Dilma Rousseff, que, mesmo não conseguindo completar uma frase, completou o mandato e partiu para um segundo, interrompido por impeachment. Em 2018, preso em Curitiba, Lula delegou a função a Fernando Haddad. Tratado durante anos como seu possível herdeiro político, Haddad perdeu a eleição para o estreante Jair Bolsonaro. Já Guilherme Boulos, frequentemente associado ao campo lulista, sequer construiu sua trajetória dentro do PT: antes de assumir cargo no governo federal, era deputado pelo Psol.

As pessoas de confiança de Lula, estrategistas do governo e do partido, são todas da velha guarda. É o caso de José Genoíno (80 anos), Aloizio Mercadante (completa 71 em 13 de maio), Sidônio Palmeira (68) e Wellington Dias (64). Os caçulas do grupo são o presidente do partido, Edinho Silva (60), e o casal Gleisi Hoffmann (60) e Lindbergh Farias (56), também conhecidos como “Coxa” (ou “Amante”) e “Lindinho” nas planilhas de propinas da Odebrecht.

Lindbergh Farias e Gleisi Hoffmann | Foto: Reprodução/PT

A falta de renovação, a defesa do indefensável, o discurso mofado e a pura e simples incompetência para se adequar à comunicação moderna fazem com que o governo Lula e o PT se distanciem cada vez mais dos eleitores, sobretudo dos jovens. Levantamento da AtlasIntel/Bloomberg divulgado em dezembro de 2025 mostrou que millennials (nascidos de 1980 a meados dos anos 1990) e integrantes da geração Z (de meados dos 1990 a 2010) — que não por acaso cresceram na era do Mensalão e da Lava Jato — se identificam mais com a direita no Brasil (42% da preferência dos entrevistados, contra 40%). A esquerda mantém força maior entre a geração X (1965-1980) e os baby boomers (1946 a 1964).

A falta de apelo junto aos jovens é admitida até por integrantes da esquerda. Recentemente, a presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Bianca Borges, e o presidente da Central Única das Favelas (Cufa), Preto Zezé, fizeram diagnósticos públicos sobre a dificuldade de Lula em dialogar com as novas gerações. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, Bianca afirmou que falta ao presidente “se conectar com o sentimento das pessoas”. Preto Zezé, em entrevista a O Globo, falou em “crise de criatividade” de Lula para estabelecer laços com os jovens brasileiros. Enquanto a direita consolidou figuras jovens com forte presença digital e base própria nas redes sociais — como Nikolas Ferreira, Flávio Bolsonaro e Renan Santos —, o petismo enfrenta dificuldades até mesmo para impulsionar seus principais nomes. 

Bianca Borges, presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) | Foto: Karla Boughoff/Divulgação

Uma pesquisa Quaest divulgada na terça-feira, 5, reforçou o cenário que o governo Lula busca conter há meses: a queda contínua da popularidade do presidente. Segundo o levantamento, 52% dos eleitores consultados em dez Estados desaprovam a gestão petista, enquanto 43% aprovam. A reação para tentar frear a deterioração da popularidade não se restringe ao Planalto. Em meio à dificuldade de disputar espaço nas redes sociais — hoje dominadas pela direita —, o PT intensificou os investimentos em publicidade digital.

Nos últimos 90 dias, o partido gastou R$ 1,1 milhão em anúncios na Meta, dona do Facebook e do Instagram. Entre 26 de junho e 4 de julho de 2025, foram ao menos R$ 173 mil impulsionando campanhas em defesa da taxação dos “super-ricos”. A peça com maior investimento, intitulada “Quem tem mais paga mais: taxação BBB”, consumiu cerca de R$ 90 mil em apenas cinco dias.

Os anúncios fazem parte de um esforço para reconstruir a presença digital e ampliar o alcance entre os jovens. Em 2024, o PT gastou entre R$ 400 mil e R$ 450 mil em apenas seis anúncios para promover o “canal de notícias” da legenda. Na Meta, o único anunciante que supera o PT é o próprio governo brasileiro. Entre 22 de março e 20 de abril, a administração federal destinou R$ 6,8 milhões a 97 anúncios ainda ativos nas plataformas da empresa.

Apesar do investimento, os resultados seguem limitados. Dados do SocialBlade mostram que a conta oficial do governo federal registra taxa de engajamento de apenas 0,17% no Instagram, mesmo com 5,3 milhões de seguidores.

O investimento financeiro veio acompanhado de uma mudança na linguagem da comunicação oficial. Em uma tentativa de se aproximar do público jovem, perfis institucionais passaram a incorporar memes, gírias da geração Z e referências à cultura pop. A estratégia, porém, gerou polêmicas. Em 2025, uma campanha compartilhada entre Fazenda e Secom utilizou vídeos de gatinhos para defender a proposta de isenção do IR e a taxação dos “super-ricos”. No mesmo ano, perfis ligados ao governo usaram imagens de meninas menores de idade dançando funk para ilustrar os chamados “GovMores”, forma de tratamento concedida aos novos seguidores das páginas oficiais. As intervenções digitais criadas pela patota do tio Sidônio ficam entre o apenas tolo e o estupidamente ridículo.

Em 2026, a Casa Civil publicou uma peça inspirada no BBB 26 para defender a isenção do IR. A postagem, que incluía a frase “se você é um playboy…”, acabou apagada depois de críticas nas redes. A falta de engajamento e as polêmicas frequentes envolvendo as contas oficiais são apenas a ponta do iceberg que aumenta cada vez mais o rombo no casco da campanha petista.

Por algum tempo, parecia que o partido seria capaz de se adaptar aos novos tempos. Nos anos 2000, a militância petista era considerada uma das mais organizadas da internet brasileira. Conforme mostrou uma reportagem na Edição 277 de Oeste, quando os blogs ainda dominavam o debate político online, o PT montou seu próprio ecossistema de veículos simpáticos à esquerda.

Durante o governo Dilma, empresas estatais destinaram milhões aos chamados “blogs sujos” — termo cunhado por José Serra, em 2010, para se referir a páginas alinhadas ao petismo. Segundo a revista Veja, somente em 2014 a gestão petista direcionou R$ 8,7 milhões a sites como Brasil 247, Diário do Centro do Mundo e Brasil de Fato, que mais tarde ajudariam a impulsionar a narrativa do “golpe” no impeachment de Dilma.

Com o avanço das redes sociais na década de 2010, o PT decidiu profissionalizar seu exército digital. Surgiram os Núcleos de Militância em Ambientes Virtuais (MAVs), criados oficialmente no 4º Congresso Nacional do partido, em 2010. Na prática, os grupos funcionavam como tropas digitais encarregadas de patrulhar debates online, atacar reportagens negativas e impulsionar palavras de ordem favoráveis ao partido. O movimento foi tão estruturado que o PT chegou a discutir a criação de um “guia do tuiteiro petista”, espécie de manual para atuação coordenada no Twitter — hoje X.

Manual de Apoio aos Influenciadores e Ativistas Digitais | Foto: Reprodução/PT

Às vésperas da eleição de 2018, o chamado “Mensalinho do Twitter” mostrou que os MAVs estavam longe de desaparecer. Denúncias revelaram pagamentos a influenciadores de esquerda para publicar conteúdos pró-PT. O pacote incluía cerca de R$ 2 mil mensais e a exigência de ao menos uma postagem diária alinhada à narrativa do partido. Dali em diante, porém, a legenda passou a enfrentar dificuldades para digitalizar a própria militância. Nas redes do PT e da Fundação Perseu Abramo, ligada ao partido, multiplicaram-se oficinas de comunicação digital conduzidas por nomes velhos como Dilma Rousseff e José Dirceu. As aulas vão desde introduções ao WhatsApp até estratégias para enfrentar a direita nas redes sociais.

Na plataforma oficial de formação do PT, estão disponíveis ao menos dois cursos voltados à comunicação política e militância digital. O principal deles é o Curso Nacional de Formação em Comunicação Política, direcionado a assessores, dirigentes e militantes do partido, com foco nas eleições de 2024 e 2026. As aulas abordam temas como planejamento estratégico, comunicação digital, redes sociais, produção de conteúdo e relacionamento com a imprensa.

Outro curso disponível é o Comunicação para as Transformações Sociais, apresentado como uma iniciativa para “incentivar a atitude proativa na divulgação de informações relevantes ao fortalecimento da democracia e do desenvolvimento econômico, com distribuição de renda e sustentabilidade ambiental”, pautas associadas ao governo Lula.

A primeira aula do curso de formação em comunicação foi ministrada em 2023 pelo marqueteiro Sidônio, responsável pela campanha presidencial de Lula em 2022. A apresentação tratou do que o partido classificou como o “case de sucesso” da eleição petista. Até 2024, o programa contou ainda com participações de nomes como Haddad, em aula sobre comunicação política sob a ótica do candidato; Edinho, discutindo a evolução da comunicação do PT nas últimas décadas; e André Janones, em palestra sobre os desafios de “enfrentar o bolsonarismo nas redes sociais”. O curso também incluiu aulas do fotógrafo Ricardo Stuckert sobre construção de narrativas por meio de imagens, da deputada Maria do Rosário sobre mulheres na política e eventos de encerramento com integrantes da Secom e lideranças do partido, como Jilmar Tatto e Paulo Pimenta. 

Para o bem e para o mal, Lula segue sendo o principal garoto-propaganda do partido. Por recomendação dos estrategistas da legenda, ele deverá encarar uma maratona de participações em podcasts na abertura da campanha à reeleição em agosto, segundo informou à CNN o secretário de Comunicação do PT, Eden Valadares. De acordo com a reportagem, “existe hoje uma preocupação do Planalto quanto a um distanciamento do público de 16 a 24 anos de idade”. 

A missão inglória de Lula e do PT é fazer com que entrevistas, cursos e impulsionamentos nas redes sociais sejam capazes de transformar velharias ideológicas, discursos mofados e “verdades” empurradas goela abaixo em comunicação direta, objetiva e baseada em fatos que os novos tempos exigem. O problema é tornar efetivas a lavagem cerebral e a tentativa de apagar o passado justo na geração que tem, fresca na mente, a imagem de Lula embarcando no camburão. 

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7 comentários
  1. Vanessa Días da Silva
    Vanessa Días da Silva

    Achei o artigo muito bem escrito. Parabéns

  2. Lourival Nascimento
    Lourival Nascimento

    Nova lorota do LULA é tão desconectada da realidade quanto ele. A IMPRENSA ESTATIZADA ACHA QUE NÃO SABEMOS FAZER CONTA E USAR A LÓGICA ANALÍTICA. NÃO POR ACASO, ASSINANANTES FOGEM DE QUEM LHES ENGANA.
    Então o LULA, chegando do vexame, mico e desprezo por sua irrisória viagem panfletária aos Estados Unidos, intermediada pelo Chanceler de fato, o Joesley Batista, já que Mauro Viera é subordinado ao Celso Amorim, de nada adiantaram as narrativas da IMPRENSA ESTATIZADA ante os fatos. A reunião no Salão Oval da Casa Branca não foi exatamente auspiciosa para o LULA e seu projeto de reeleição cada dia mais distante. A coisa foi tão desfavorável ao LULA, que dos seus sabujos preferenciais, nem o Andrei Rodrigues, Diretor Geral da PF foi autorizado a participar. Entre uma esfrega e outra na fuça carcomida, o LULA, que se posicionou contra os Estados Unidos classificarem o CV e PCC como organizações TERRORISTAS, chegou no Brasil já anunciando um mirabolante plano de MENTIRINHA, que sem planejamento nenhum, sem estudos avançados sobre as facções CV e PCC, que apoiam o LULA em Eleições e coações sobre os habitantes nas áreas que controlam, anunciando um investimento de 11 Bilhões de Reais sem NENHUM PLANEJAMENTO, pois LULA acha que pode continuar enganando a todos. As organizações criminosas. “Crime organizado brasileiro fatura R$ 146 BILHÕES DE REAIS em um ano no Brasil, diz Fórum de Segurança. Levantamento revela dados de 2022; somente com exploração de bebidas, foram R$ 56,9 bilhões.” “Dados mostram que o crime organizado no Brasil tem apresentado um crescimento acelerado e estrutural. Dados recentes indicam que o número de casos judiciais envolvendo facções e milícias cresceu 160% nos últimos cinco anos, segundo plataforma do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) monitorada até março de 2026” Então, numa conta simples, que qualquer padeiro sabe fazer, ou quem vai ao mercado, abastece carros, vai à Farmácia, o CRIME ORGANIZADO sob a proteção do LULA e adornado com a proibição de Operações policiais nas favelas ocupadas, uma genialidade do Ministro Fachin, o CRIME ORGANIZADO faturou 379,6 BILHÕES DE REAIS em suas diversas atividades. O “JENIAL”, com JOTA MESMO, o bebum do Guarujá finge, sem planos, sem estratégias de guerra que vai barrar as atividades dos seus parças, CV e PCC? Com 40 mil homens, presença em 28 países e faturamento bilionário, talvez sem pagar impostos, pois lava dinheiro, países estão muito além do Brasil em ações contra o CV e PCC. “Não consegui fechar o caixão’, relembra mãe de gari morto em meio aos confrontos do PCC. Itália investiga integrantes do PCC como mafiosos: “Facção mais perigosa da América do Sul”. “Em delação, mafioso italiano conta que PCC financiava 50% da cocaína enviada à Europa. Condenação de mafioso delator do PCC pode afetar Daniel Vorcaro e a turma da Carbono Oculto” “A frase “DIÁLOGOS CABULOSOS COM O PT” foi dita por Alexsandro Roberto Pereira, conhecido como “Elias”, um membro da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital), durante uma conversa telefônica interceptada pela Polícia Federal em abril de 2019.” “A escuta fez parte da Operação Cravada, que investigou o núcleo financeiro da facção. Pontos principais da conversa e contexto: O teor: No áudio, o integrante do PCC reclama da transferência de líderes da facção para presídios federais, criticando o então ministro da Justiça, Sergio Moro, e afirma: “o PT com nóis tinha diálogo” e “bateu um diálogo cabuloso com nós”. Repercussão: A divulgação desse trecho em agosto de 2019 gerou forte repercussão política. Defesa do PT: Na época, o Partido dos Trabalhadores (PT) negou veementemente qualquer ligação com a facção, classificando as acusações como uma “armação” de Sergio Moro e da PF, e anunciou ações judiciais.” Sabemos que a inteligência do jornalismo a mando e soldo é muito limitada, mas quem disse a frase “o PT com nóis tinha diálogo” e “bateu um diálogo cabuloso com nós” foi dita por Alexsandro Roberto Pereira, conhecido como “Elias, e o MORO divulgou parte de uma investigação legítima custeada com o dinheiro dos pagadores impostos. Quem vende as raras e ralas letras, não merece o que recebe, mas sim a repulsa dos assinantes. Perderam, Manés!

  3. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Se essas desgraças fossem só incompetentes era bom demais, o pior que são todos ladrões comunistas terroristas genocidas torturadores narcotraficantes assassinos vigaristas imundos podres

  4. José Roberto Moreno
    José Roberto Moreno

    Favor retirar o anúncio de assinatura vitalícia.
    Está atrapalhando a leitura da reportagem.

  5. Cátia Deon Dall’Agno
    Cátia Deon Dall’Agno

    Acontece que as postagens petistas são recheadas de mentiras, e na maioria das vezes, são compradas, enquanto que as msgens da direita parecem mais verdadeiras . Nicolas Ferreira e Gustavo Gayer, por exemplo , são jovens deputados de direita que realmente acreditam naquilo que transmitem. Geram maior confiabilidade

  6. Osmair Mendonça
    Osmair Mendonça

    O PT é uma máquina de mentira e destruição de caráter. Usam de pessoas simples e imaturas para implantar sua doutrinação. Aliás , usou até o luladrão, fazendo ele crer que é o príncipe .

  7. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Espero que o povo brasileiro mostre nas urnas em outubro que o PT acabou, fim.

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