Há muitas coisas ainda não sabidas, ou pelo menos mal explicadas, no súbito encontro que Lula obteve com Donald Trump na semana passada. Mas uma notícia distribuída pela agência Reuters forneceu a chave para o desvendamento do enigma.

Em 16 idiomas, a Reuters fez saber a jornalistas e veículos de 165 países que quem teria exercido papel fundamental para convencer Trump a receber o brasileiro em meio à polvorosa do conflito com o Irã foi o “Brazil’s billionaire” Joesley Batista.
Nem Lula, nem ninguém no governo, ousou contestar a informação. Até mesmo a ala mais cínica do PT se calou. Do Itamaraty não veio uma única palavra, o que é mais um constrangimento para o pouco visível ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.
O silêncio de todos é um estrondo de confirmação. O Brasil, desde a volta de Lula ao poder, em 2023, vem praticando a diplomacia do bilhão, exercida por um emissário sem crachá, mas dotado de um pragmatismo que arrancaria suspiros de Deng Xiao-Ping, a quem se atribui a máxima de que não importa a cor do gato, desde que ele seja capaz de pegar o rato. Joesley Batista é do ramo. Tem as credenciais de um predador.
Sua primeira aparição na imprensa internacional como o oligarca brasileiro que desenrola os impasses diplomáticos de Lula se deu no final do ano passado. A Venezuela de Nicolás Maduro, aliado histórico de Lula, estava cercada por um enorme aparato militar norte-americano. Em busca de algum protagonismo, o presidente brasileiro se ofereceu para mediar conversações, mas foi ignorado por Trump, que até hoje sequer nomeou um embaixador para o Brasil. Foi então que a Bloomberg descobriu a arriscada operação que levou Joesley a cruzar o vigiadíssimo espaço aéreo venezuelano, em seu jato particular, para um encontro pessoal com Nicolás Maduro em novembro.

O ditador acabou capturado pelas forças norte-americanas no início do ano e não se sabe ao certo, ainda, o papel que Joesley desempenhou nos acontecimentos — se atendeu aos interesses de Lula, que pode ser implicado em uma possível delação de Maduro, ou se atuou em favor de Trump, a quem tem feito doações milionárias para comprar influência (detalhes mais adiante). Ou se é um agente duplo.
Mais provável é que, alianças ocasionais à parte, Joesley atue mesmo em benefício dele próprio, tão somente. Em janeiro, depois da prisão de Maduro, ele esteve novamente na Venezuela conversando com Delcy Rodríguez, a presidente que, com o aval de Trump, assumiu o governo.
Pouco se sabe sobre os negócios de petróleo e gás que o grupo J&F adquiriu na Venezuela em 2023. O conglomerado não revela detalhes. E o Itamaraty de Lula, que colocou Joesley na cara do gol, isto é, do Palácio Miraflores, até foi instado a revelar o teor das reuniões, documentos e correspondências que selaram as transações. Malu Gaspar, colunista de O Globo, tentou saber, via Lei de Acesso à Informação. O pedido foi negado, e o Itamaraty colocou o material sob sigilo diplomático por cinco anos.
Se você não sabe, ou anda esquecido, Joesley e seu irmão menos saliente, Wesley, são os controladores do Grupo J&F, cujas iniciais homenageiam o pai deles, José Batista, o Zé Mineiro, que fundou um modesto açougue em Goiás, em 1953, com a ajuda da esposa, Flora. A empresa da família até progrediu nos anos 1990, mas só se tornou uma potência internacional no ramo de carnes quando Lula abriu o longo ciclo de governos petistas a partir de 2003. O delírio lulopetista de abrir as portas do governo e os cofres do BNDES para forjar “campeões nacionais” — chamados pela oposição de “amigos do rei” — deu em um grande fracasso no ramo das telecom, a falecida Oi, até hoje um nome que constrange a ala salvável do PT por expor negócios malcheirosos envolvendo o filho de Lula, Fábio, o “Lulinha”. Que, por sinal, está outra vez na mira das investigações da Polícia Federal por sua relação com o lobista conhecido como “Careca” do INSS, hoje na prisão.
Com Joesley e o grupo J&F, porém, a aposta megalomaníaca de Lula vingou. O clã Batista é dono da maior fatia do mercado de carne bovina nos EUA, e no frango está perto de cantar de galo, também. Esperto, Joesley tenta, com Trump, algo que funcionou com Lula: ser amigo do rei. Foi ele quem fez a maior doação individual, U$ 5 milhões, para bancar a festa de posse do “amigo” Donald, utilizando-se, para isso, de uma das empresas do grupo em solo norte-americano, a Pilgrim’s Pride.

Envolvente, Joesley deu mais alguns passos e penetrou no âmago da família Trump ao oferecer apoio financeiro à produção de um documentário sobre a vida da primeira-dama Melania Trump, informação divulgada no início do ano pela imprensa brasileira. A estratégia de cortejar o ego de (e dos) Trump parece funcionar. A surpreendente retirada do nome de Alexandre de Moraes da lista de sancionados pela Lei Magnitsky, no ano passado, foi atribuída ao êxito de Joesley em sua ousada tentativa de romper barreiras da alta burocracia no Departamento de Estado e no Departamento do Tesouro e acessar diretamente o presidente norte-americano.
Nada comparável, porém, à proeza que lhe foi atribuída esta semana pela CNN brasileira. A emissora sustentou que a pretendida reunião de Lula com Trump só aconteceu graças a uma extraordinária demonstração de poder de Joesley. Chamado ao Alvorada na véspera do feriado de 1º de Maio, ouviu as lamúrias de Lula sobre o fracasso de todas as tentativas de remarcar o encontro que deveria ter ocorrido em março. Na versão da CNN, Joesley pegou seu celular e ligou dali mesmo para o número pessoal de Trump. Foi atendido no terceiro toque da chamada, e a conversa evoluiu para o agendamento de um encontro com os presidentes uma semana depois — com direito a um “Love you” do marido de Melania, no final. Lula espalhou que o afago foi para ele. Joesley não se importa. Não foi com afetos que ele se fez. Nem com princípios.
E aqui está sua vulnerabilidade. Talvez não no Brasil, onde o cupim da corrupção comeu os alicerces do Poder Judiciário. Mas nos Estados Unidos.
Semana passada, pouco antes do encontro em que Lula tentou um abraço e Trump deu um passo para trás, a secretária de Agricultura dos EUA, Brooke Rollins, disse que vai de vento em popa uma investigação antitruste no mercado de carnes dos EUA. Ela apontou o dedo para a JBS USA.
“Uma empresa brasileira”, fulminou Brooke, “detém cerca de 25% do mercado e tem um histórico documentado de corrupção internacional e atividades ilícitas”.
O que Brooke Rollins escancara, ao falar em “histórico documentado de corrupção”, é que os Estados Unidos sabem muito bem quem é Joesley e como age o Grupo J&F. Em 2020, sem condições de contestar as acusações movidas pelo Departament of Justice (DOJ), a J&F Investimentos reconheceu ter usado contas bancárias nos Estados Unidos para subornar autoridades brasileiras. Foi no período dos governos Lula e Dilma. Ao se declarar culpada e aceitar a condenação por ter violado a lei FCPA (Foreign Corrupt Practices Act), a J&F pagou a multa de US$ 256 milhões e foi em frente. Mas ficou fichada, como se diz dos meliantes no Brasil. Crime: corrupção internacional.
Não foi o único episódio criminal. Os Batista fizeram outros acordos para encerrar processos nos Estados Unidos, um deles por conluio e manipulação de preços, mesma acusação que agora move as novas investigações do DOJ mencionadas pela secretária de Agricultura da Casa Branca.
Joesley, todos sabemos, é uma criatura saída da estufa do lulopetismo — assim como o ministro Dias Toffoli, autor de uma série de decisões que colocaram as digitais do Supremo Tribunal Federal na maior operação de validação e incentivo à corrupção de que se tem notícia. Joesley deixou provas robustas de como ele comprou os governos brasileiros depositando propinas em contas no exterior.
“Teve duas fases”, explicou, em sua delação de 2017. “Teve a fase do presidente Lula e depois a fase da presidente Dilma. Na fase do presidente Lula, chegou, eu acho, a uns 80 milhão (sic) de dólares. Depois, na Dilma, chegou nuns 70. Ou ao contrário: 70 na do Lula e 80 na da Dilma. Então eu abri duas contas. Tudo conta minha.”
Os favores de Joesley a Lula neste terceiro mandato estão pagos, e muito bem pagos. Em janeiro de 2025, quando a J&F comprou metade da Mantiqueira, maior produtora de ovos na América Latina, logo o governo anunciou uma medida que pareceu sob encomenda para onerar as granjas concorrentes de porte médio. Cada ovo colocado no mercado deveria ser carimbado com data de validade. A opinião pública desconfiou da manobra com ares de preocupação sanitária, e o governo foi obrigado a recuar.
Em 2024, a Âmbar, a empresa de energia do grupo J&F, comprou a Amazonas Energia, uma companhia deficitária e endividada. De imediato, Lula assinou medida provisória transferindo para a conta de luz dos brasileiros o compromisso de saldar, em 15 anos, uma conta de prejuízos acumulados pela Amazonas Energia no valor de R$ 14 bilhões. Os protestos da oposição no Congresso e os questionamentos do TCU caíram no vazio, e assim ficarão enquanto Joesley contar com a proteção de Lula.
O mais recente caso que coloca o grupo dos irmãos Batista em evidência envolveu a decisão da Anvisa, a agência de vigilância sanitária, de retirar do mercado um lote de detergentes, sabões e outros produtos da marca Ypê por risco de contaminação. O episódio gerou espuma nas redes. Apoiadores de Jair Bolsonaro denunciaram o que poderia ser uma retaliação do governo petista à família que controla a Química Amparo, em razão de doações feitas em 2022 à campanha de reeleição do ex-presidente. Mais do que isso, enxergaram na decisão da Anvisa, que recuou da medida, uma tentativa de favorecer o grupo J&F, concorrente do detergente Ypê com a marca Minuano.
Com quase 300 mil funcionários, espalhados por 20 países, e receita líquida de mais de R$ 500 bilhões, o grupo J&F se tornou, hoje, um colosso onipresente na vida dos brasileiros. Produz carnes, margarinas, alimentos processados, ovos, produtos de higiene e limpeza, cosméticos e vários outros itens. Atua em serviços diversificados que incluem a área financeira (PicPay, Banco Original), energia, mídia (Canal Rural) e explora negócios de mineração e produção de celulose por meio da Eldorado — uma aquisição que colocou Joesley no centro de uma controvérsia internacional e expôs a baixa credibilidade do Judiciário brasileiro.
Anabolizado pelo petismo e, em particular, pela sociedade com um caudilho da estirpe de Lula, Joesley ingressou no rol dos oligarcas globais. Mas, o que hoje é visto como força pode, a depender dos acontecimentos, torná-lo um alvo de players tão grandes quanto ele.
No Brasil, país com instituições de papelão, seu caminho parece sólido.
Mas os Estados Unidos, em que pese toda a adulação que Joesley oferece a Trump, não são o Brasil.

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Dupla de caipiras com passado, presente e futuro mergulhada na corrupção!!! O tombo será grande e não haverá BNDES que consiga evitar. Praticam o mal em larga escala.
Continuam a dupla caipira de sempre!!! Têm a cara da cafonice brasileira. O tombo será grade!!! Não haverá BNDES que dê conta. Aguardemos!!!
E cadê os vossa incelença que não prende esse Vorcaro da carne
Vale lembrar Eugênio que naquela DELAÇÃO PREMIADÍSSIMA da J&F forjada por JANOT e seus procuradores, e homologada sem qualquer análise técnica das gravações por FACHIN, e propagada 24 hs. por dia pela GLOBO, só assistimos gravações do tal JOESLEY, com TEMER para gloria dos petistas para tira-lo do poder, e com AÉCIO NEVES que contestou severamente as urnas eletrônicas que elegeram DILMA. Os demais como LULA e DILMA ele só disse que enviou Us$80 milhão para LULA e Us$70 milhão para DILMA. Mas não os gravou como fez com TEMER e AÉCIO. Porque não gravou LULA e DILMA?. Alguém já pensou o que sairia dessa conversa?.
Ficou clara a armação com a participação de FACHIN que conseguiu cancelar posteriormente a LAVA JATO e junto com o SISTEMA descondenar LULA e torna-lo presidente.
Estranho é atualmente MICHEL TEMER e AÉCIO mancomunados com o SISTEMA.
São pontos relevantes, Antonio. Estão na mente de quem acompanha de perto os acontecimentos, como demonstras ser o teu caso.
Aguardando os próximos episódios futuros quando as verdades vierem aa tona, sobre possíveis sócios ocultos, laranjais… a terra de tio Sam é muito diferente das terras tupiniquins. Não compro mais nada do grupo, após caso da Ype. Tenho a lista em meu segundo cérebro das compras.
Teu comentário, Marisa, sobre a espera por novos episódios, fez-me lembrar do clássico “Cenas dos Próximos Capítulos”, que nos era tão familiar ao tempo em que existiam novelas. Hoje, a novela passa na vida real, e é assistida por brasileiros conscientes e atentos. Que, felizmente, estão se multiplicando.
Desculpa, Mariza. Grafei incorretamente teu nome no comentário a seguir.
Eugênio Esber, disse a frase que resume toda a tagetoria de Joesley possui todas as características de um predador, acredita que com todos seus bilhões conquistou o mundo.
Ver resposta mais abaixo, Teresa. Equivoquei-me no momento de postar. .
Escancarado demais a maneira como este bandido Joesley procede. Não devemos entender o relacionamento dele com o palanqueiro desvairado no quesito recebedor de propina. É na verdade sócio nos “negócios” que anda promovendo… Agora mesmo, e o artigo não aborda, investe na área de armamentos com o aporte financeiro significativo na empresa Avibras em situação quase falimentar. Até a razão social foi alterada para facilitar o domínio pelo açougueiro sem o menor medo ou escrúpulo em suas traficâncias… Age no lema orientado pelo “vampiro sucessor da lesada Dilma” na garagem do Alvorada em gravação histórica:
“Tem que manter isto aí!” Haja cinismo, impunidade e apoio pelo bandidinho do resort que anulou pagamento de multa bilionária em delação oficializada, revelando a forma desgraçadamente escancarada de trombadinhas de toga afanam quantias significativas de milhões em troca de bilhões legalmente comprometidos por multa!
Os ladrões nacionais em patamares financeiros jamais imaginamos, perderam definitivamente o medo.
De fato, Teresa. Mas quem cresce em escala global se vê na contingência de enfrentar adversários de mesmo calibre, e com amplo acesso a um sistema judiciário sério.
É um bom ponto, Eduardo, este movimento de ingresso no capital da Avibras. Obrigado pela contribuição.
Há muitos anos que não compro absolutamente nada que tenha as digitais desses caras. Se todos os brasileiros tivessem agido assim, talvez eles não tivessem chegado onde estão hoje. Mas, por tudo o que já fizeram, fica a esperança que amanhã poderão não estar onde estão hoje.
Quantos de nós brasileiros sabem de quem estamos comprando?
Sim, Osmar. O “consumo consciente” é uma tomada de posição ao alcance de todos – a não ser, claro, em segmentos sob monopólio.
Sim, Valdy. Grande parte dos produtos e serviços se abrigam sob marcas corporativas que o consumidor desconhece.