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Cachorro Orelha | Foto: Montagem Revista Oeste/Reprodução
Edição 323

O caso do cão Orelha e a morte dos fatos

A cobertura precipitada e baseada em suposições mostra que a imprensa não aprendeu com o episódio da Escola Base 

“Eles não aprenderam nada, e não esqueceram nada”
(Charles-Maurice de Talleyrand)

Um erro jornalístico causado por um misto de precipitação, incompetência e irresponsabilidade mudou para sempre as vidas dos donos da Escola Base, localizada em São Paulo. Em março de 1994, a imprensa noticiou uma denúncia de supostos abusos sexuais contra quatro crianças que estudavam na instituição. A reportagem, publicada às pressas e sem a devida apuração, foi parar em rede nacional. Icushiro Shimada e Maria Aparecida Shimada (donos da escola), Paula Milhim (professora) e Maurício Alvarenga (motorista da perua) tiveram a vida destruída depois de receberem uma enxurrada de ameaças. A escola teve a fachada destruída, janelas quebradas, móveis danificados e objetos saqueados.

Paula Milhim, Icushiro Shimada e Maria Aparecida Shimada durante entrevista sobre o caso Escola Base | Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Era tudo mentira. O Ministério Público reconheceu a inocência dos acusados. O estrago, contudo, estava feito. Shimada morreu em 2014. Ele nunca conseguiu se recuperar financeiramente depois de ter se visto obrigado a fechar a escola. Sua mulher enfrentou uma grave depressão antes de morrer em 2007. Paula e Alvarenga vivem até hoje reclusos e com fortes problemas psicológicos. 

Capa do Notícias Populares, de 31 de março de 1994, destaca uma notícia falsa sobre a Escola Base | Foto: Divulgação
Foto: Divulgação
O vandalismo que devastou o patrimônio dos proprietários da instituição | Foto: Divulgação

O episódio da Escola Base é mostrado todos os anos em faculdades de comunicação como um erro a não ser cometido. Mais de 30 anos depois, no entanto, a morte do cão Orelha mostrou que os meios de comunicação insistem na mesma imprudência. Assim como ocorreu com a instituição de ensino, a morte do animal repercutiu dentro e fora do país.

O caso ocorreu no último verão, na Praia Brava, em Florianópolis, quando quatro adolescentes foram acusados de espancar um cachorro. A denúncia surgiu depois de os menores discutirem com o porteiro do Condomínio Água Marinha na madrugada de 12 de janeiro. No dia seguinte, o profissional divulgou fotos dos meninos em grupos de WhatsApp, acusou-os de cometer vandalismo e sugeriu que eles teriam espancado o cão. “Na mesma noite que arranjaram confusão comigo, parece que deram umas ‘pauladas’ no cachorro”, disse no áudio.

Orelha foi encontrado machucado por moradores oito dias antes da discussão, em 4 de janeiro. As famílias dos menores usam essa diferença temporal para questionar a narrativa que associou os jovens ao caso. Em 15 de janeiro, o boato ganhou força por meio de uma publicação no Instagram. A postagem contou com mais de 7 mil comentários. A partir daquele momento, nomes, imagens e endereços dos garotos foram amplamente divulgados. Internautas também mostraram números de telefone, placas de carros, CPFs, endereços e dados empresariais das famílias. Os pais afirmam que receberam ameaças de morte, assim como ocorreu com os donos e funcionários da Escola Base. Uma das famílias teve de contratar seguranças particulares. “Passamos a viver uma nova pandemia”, afirmam os pais do único garoto indiciado pela polícia. Eles dizem ainda que o filho passou quase dois meses sem frequentar a escola. “Parecia que precisávamos reaprender a viver. Meu filho anda na rua de cabeça baixa, com medo de ser reconhecido. Seu amigo, também acusado, foi hostilizado na faculdade depois que manifestantes organizaram um protesto em defesa do cachorro no campus.”

Os constrangimentos foram muito além. Em 29 de janeiro, a polícia apreendeu celulares e roupas de um dos menores no Aeroporto Hercílio Luz, quando voltava de uma viagem escolar. Três dias depois, manifestantes se reuniram em todo o país para pedir justiça pela morte de Orelha. Em São Paulo, por exemplo, militantes da causa animal compareceram com seus próprios cachorros e carregaram cartazes com fotos de Orelha. A notícia se espalhava com força devastadora na internet e em veículos de comunicação.

Notícia publicada na Jovem Pan (27/1/2026) | Foto: Reprodução/Jovem Pan
Notícia publicada no ND Mais (26/1/2026) | Foto: Reprodução/ND Mais
Notícia publicada na Band (26/1/2026) | Foto: Reprodução/Band

As manifestações não ficaram só no Brasil. O ator norte-americano Paul Wesley, conhecido por interpretar Stefan Salvatore na série The Vampire Diaries, republicou uma postagem de apoio ao cão Orelha. Steven Adler, ex-baterista da banda de rock Guns N’ Roses, postou uma foto com um cartaz que pedia justiça pelo animal. Jornais de diferentes países repercutiram a notícia ao destacarem “brutalidade contra um cachorro”. No âmbito político, parlamentares em Brasília apresentaram 25 propostas legislativas relacionadas à proteção animal e à responsabilização de menores envolvidos em maus-tratos.

Manifestação realizada na Avenida Paulista, em São Paulo, contra o abuso de animais e por justiça para cão Orelha | Foto: Reprodução/CNN

Havia, entretanto, um problema que passou despercebido pela imprensa, por influenciadores, políticos e militantes. Assim como no caso da Escola Base, a polícia que investigou o caso Orelha não apresentou provas que incriminassem os adolescentes. No relatório, os investigadores afirmam que analisaram mais de mil horas de gravação de câmeras de segurança. Nenhuma das imagens mostra os adolescentes espancando o cachorro.

A própria corporação reconheceu que havia lacunas nas investigações. Mardjoli Valcareggi, delegada de Proteção Animal, afirmou em entrevista ao Fantástico que não havia provas. O que havia, segundo ela, era um “feixe de indícios convergentes que levaram à suspeita de envolvimento dos adolescentes”.

Os indícios a que a delegada se refere estão relacionados aos horários em que os jovens e o cachorro foram vistos pelas câmeras de segurança. As imagens mostram quando Orelha sai de sua casinha, às 5h18 do dia 4 de janeiro. Segundo o relatório, o cachorro passou pela praia (não há imagens que mostram o animal na praia) no mesmo intervalo de tempo em que os adolescentes foram vistos indo em direção ao mar, entre 5h20 e 5h58, antes de chegar em frente ao Condomínio Águas da Brava, onde parou para descansar por cerca de uma hora, segundo a polícia, “possivelmente” já machucado.

Segundo a corporação, o cão “caminhava lentamente”, às 6h35. Às 7h39, saiu em direção à casinha novamente. Essa coincidência levou os investigadores a acreditarem que os adolescentes espancaram o animal. No entanto, um vídeo divulgado pela defesa do menor contesta o relatório da polícia. A imagem apresentada pelo advogado Rodrigo Duarte da Silva mostra Orelha caminhando normalmente na região, sem fraturas, às 7h, depois do horário em que, conforme a polícia, foi espancado. 

As acusações se tornaram ainda mais frágeis depois de uma moradora assumir à polícia ter mentido ao dizer nas redes sociais que possuía um vídeo do espancamento de Orelha.

Novas investigações

Essas lacunas fizeram o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) pedir mais esclarecimentos e maior precisão na reconstrução dos fatos, além de solicitar a exumação do corpo do cachorro para nova perícia. O órgão também abriu uma investigação para apurar a atuação de Ulisses Gabriel, então delegado-geral da Polícia Civil de Santa Catarina. O agente é acusado de usar o caso Orelha para se promover politicamente. Ele é candidato a deputado estadual pelo Partido Liberal de Santa Catarina. Ao ser indagado por Oeste sobre as acusações, o delegado se limitou a falar sobre os resultados de sua atuação como chefe da Polícia Civil. Quando perguntado sobre as declarações que ele deu na imprensa incriminando os adolescentes, o agente desligou o telefone.

A perícia que analisou o cão depois da exumação descartou fraturas provocadas por ação humana. As novas investigações analisaram todos os vídeos de câmeras de segurança da região. Nenhuma imagem confirmou a agressão. Em 8 de maio, o MP pediu o arquivamento ao apontar falhas na cronologia dos fatos. Além disso, o órgão esclareceu que Orelha mantinha “plena capacidade motora e padrão de deslocamento normal” uma hora depois do horário em que teria ocorrido a agressão. Conforme o MP, boatos influenciaram negativamente o andamento das investigações. “A versão da agressão surge a partir de narrativas indiretas, baseadas em comentários de terceiros, boatos e conteúdos divulgados em redes sociais, expressões recorrentes como ‘ouvi dizer’ e ‘vi na internet’”, explicou o órgão.

No dia 15 de maio, a juíza Vanessa Bonetti Haupenthal, da Vara da Infância e Juventude da Capital, determinou o arquivamento do caso. A Corregedoria da Polícia Civil de Santa Catarina vai analisar possíveis falhas na investigação. Mas o estrago é irreparável. A sentença da internet segue em execução, assim como o sofrimento das famílias. “Meu filho foi impedido de participar de um campeonato de futebol”, afirma a mãe de um dos acusados. “Fizemos uma viagem para o Nordeste para fugir do caos, mas lá reconheceram nosso filho”, diz outra mãe.

A frase “Eles não aprenderam nada, e não esqueceram nada”, que está na epígrafe deste texto, é atribuída ao diplomata francês Charles-Maurice de Talleyrand (1754-1838). Ela foi dita em 1815, quando a monarquia da França estava prestes a cometer os mesmos erros praticados antes da Revolução Francesa. No Brasil do século 21, vários veículos de comunicação reincidiram nas falhas do passado ao julgar os meninos antes da conclusão das investigações sobre a morte do cão Orelha. 

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7 comentários
  1. Adalberto Piotto
    Adalberto Piotto

    Reportagem primorosa de Uilian Grizafis. Tão primorosa, porque retrata com excelência jornalística um caso cujos fatos não poderiam ser tratados com menos, quanto dolorida, porque o crime reincidente é, no mínimo, duas vezes mais grave. Que o digam as famílias dos jovens que se viram dentro da escola Base. A polícia errou de novo, parte da mesma imprensa errou de novo e as redes sociais, movida pelo ativismo animal cego e radical, puseram uma camada extra de violência e intolerância ao debate. Caro Uilian, seu artigo técnico e profissional faz do jornalismo uma atividade ainda mais essencial. Parabéns!

  2. Soraya
    Soraya

    Revista Oeste, por que vocês não come tam a proximidade da deegada com uma das famílias. Será que não é mais um crime que virou cinza por pagamento de propinas?
    Vocês instigaram o que os garotos disseram na escola?
    Vocês associaram outras torturas ocrridas no mesmo período por um desafio de internet?
    Realmente é lamentável dizer que tudo não passou de narrativa 🤢🤮

  3. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Nada me tira da cabeça que esses adolescentes não têm culpa. Se houvesse capacidade técnica e honestidade os adolescentes seriam interrogados e se sabia se eles tinham culpa ou não. O resto não importa porque vivemos num país onde a corrupção prevalece dentro dos poderes

    1. Lúcia Aurora Carvalho
      Lúcia Aurora Carvalho

      O cão Orelha só poderia morrer se os adolescentes o matassem?

    2. Soraya
      Soraya

      Com os ferimentos que encontraram nele, sim, e com crueldade

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