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Ilustração: Júlia Xavier/Montagem Revista Oeste/Gerado por IA
Ilustração: Júlia Xavier/Montagem Revista Oeste/Gerado por IA
Edição 323

Corrida tecnológica entre EUA e China

Governo chinês utiliza a chamada engenharia reversa e contrata profissionais do Ocidente para conquistar a autonomia num segmento decisivo para as duas potências

Quase nove anos se passaram desde que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, visitou pela primeira vez a China como chefe da Casa Branca. Naquele 2017, o país asiático começava a deixar para trás a fama de ser somente a “fábrica do mundo”, a grande produtora e exportadora de artigos manufaturados de baixo custo. Ainda não havia se consolidado como potência científica e tecnológica capaz de rivalizar diretamente com os EUA. Cerca de uma década depois, na visita realizada por Trump na semana passada, o cenário é outro: as duas maiores economias do planeta se encontram em meio a uma disputa por liderança em áreas estratégicas, entre elas inteligência artificial (IA), semicondutores (chips), automação industrial e infraestrutura tecnológica.

A mudança dos objetivos norte-americanos é resultado da rápida transformação das diretrizes econômicas chinesas. Em 2017, a China era o maior centro manufatureiro do mundo. Exportava eletrônicos, máquinas, têxteis e bens de consumo em grande escala. A preocupação de Trump era com o déficit comercial dos EUA em relação aos produtos chineses. Agora, as discussões giram em torno da tecnologia. Conversas sobre IA e chips deram o tom do último encontro entre Trump e o líder chinês, Xi Jinping. O debate incluiu tarifas, a relação dos EUA com Taiwan — que a China considera parte de seu território — e a estabilidade geopolítica, para evitar que tensões entre as duas potências se agravem. Não foi à toa que na delegação norte-americana havia CEOs de grandes empresas de tecnologia, entre elas Apple, Tesla e Qualcomm.

Ambos os lados abriram o jogo. Os EUA até aceitam restringir algum controle sobre exportações de chips e de equipamentos de fabricação destes semicondutores. Mas querem, em troca, acesso garantido a minerais estratégicos e terras raras chinesas. O atual panorama se assemelha a momentos como a corrida nuclear, entre os anos 1940 e 1960, projetada agora na busca de domínio e autonomia tecnológica.

Para João Alfredo Lopes Nyegray, doutor em internacionalização e estratégia, esta rivalidade não será superada, mas pode existir de maneira mais leal e, em algumas situações, integrada. “Evitar que a disputa tecnológica vire uma guerra sistêmica exigiria reconstruir algum grau de governança comum em torno de padrões, cadeias críticas e pesquisa cooperativa”, afirma o especialista. “Na prática, isso significaria três movimentos simultâneos: regras mínimas para tecnologias de alto risco, cooperação científica em áreas de interesse universal e mecanismos de interdependência segura em cadeias sensíveis. Em português claro: menos ilusão de globalização ingênua, mas também menos fragmentação absoluta.”

Nyegray ressalta que, em temas como IA, biotecnologia, clima, saúde e energia, o mundo ganharia mais com sistemas parcialmente integrados do que com blocos rivais inteiramente separados. “O problema é que isso só é possível até certo ponto, porque a competição tecnológica hoje não é apenas econômica, mas também militar, normativa e civilizacional.”

Próxima do chip

O avanço tecnológico foi um fator determinante para que o Produto Interno Bruto (PIB) da China crescesse 65% entre 2017 — ano da primeira visita de Trump — e 2026. Passou de cerca de US$ 12,5 trilhões para algo em torno de US$ 20,8 trilhões. No sistema produtivo chinês, um setor puxa o outro. Tem sido assim desde a abertura econômica, que levou o país a adotar, a partir de 1978, o “capitalismo de Estado” na economia, mantendo o regime comunista na política. O PIB per capita naquele ano, de US$ 156, estava no mesmo patamar de países pobres da África, segundo o World Bank. De nação rural, com 82% da população vivendo no campo, a China tornou-se a potência tecnológica atual, depois de passar pelo período de industrialização regional, que foi integrando cadeias nos níveis nacional e global. O PIB per capita atual é de US$ 13,8 mil.

A área de educação serviu de mola propulsora. No início dos anos 2000, universidades chinesas quase não apareciam no topo dos rankings globais de produção científica. Em 2025, oito delas figuram entre as dez primeiras do mundo em número de publicações, no Leiden Ranking 2025, referência em inovação.

Segundo a National Science Foundation (NSF), agência do governo dos Estados Unidos responsável por financiar e produzir pesquisas e estatísticas sobre ciência, tecnologia e inovação, a participação da China no gasto global em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) subiu continuamente desde 2000. Chegou a 27% do total mundial em 2022, muito perto dos 30% dos EUA. Nas estatísticas do governo chinês, os gastos em P&D, em alta, superaram os 3,6 trilhões de yuans em 2024, o que equivale a 2,68% do PIB. O país está entre os dez que mais investem no setor. Israel é o primeiro, com cerca de 6,2% do PIB sendo direcionados a P&D.

A consequência é a atual era de investimentos em inteligência artificial, semicondutores, robótica, baterias, veículos elétricos e energia solar. Tudo isso tem elevado a produtividade, criado núcleos industriais e ampliado exportações. Esse movimento ajuda a explicar o aumento do PIB. Nesse contexto, a antiga disputa global pelo 5G — quinta geração que oferece internet e conexões muito mais rápidas —, que parecia a solução de todos os gargalos comerciais entre 2019 e 2021, deixou de ser o eixo central da corrida tecnológica. Nesse ritmo alucinante, contendas urgentes logo são substituídas.

Hoje, sem os semicondutores de ponta e sistemas de IA, as redes móveis de 5G não operam plenamente, nem geram vantagem tecnológica significativa. Para a China ganhar autonomia na área, precisa produzir seus próprios chips, algo que ainda não faz. Mas está muito perto de conseguir, o que preocupa o governo norte-americano.

Segurança do Ocidente

Os EUA e seus aliados dominam as etapas mais sofisticadas e cruciais dessa indústria. Um chip é um pequeno circuito eletrônico gravado em uma lâmina de silício que processa, armazena e controla informações dentro de dispositivos eletrônicos. Em português, chip significa “lasca”. No início da indústria eletrônica, os circuitos eram gravados em pequenos pedaços (lascas) de silício, cortados de uma placa maior chamada wafer. O chip funciona como o “cérebro” da tecnologia moderna: computadores, celulares, carros, satélites, sistemas de IA e equipamentos militares dependem dele para operar.

Os EUA querem evitar que a China alcance o mesmo nível tecnológico, restringindo o acesso aos equipamentos necessários para fabricar chips de última geração. O principal deles é a máquina de litografia ultravioleta extrema (EUV), produzida por uma única empresa no mundo, a holandesa ASML. Sem esse equipamento, ao qual os EUA têm acesso, é muito difícil fabricar chips nas gerações mais avançadas. A máquina EUV é essencial porque permite imprimir circuitos muito menores e mais precisos nos chips. Na fabricação destes, a máquina projeta raios de luz sobre placas de silício para desenhar os circuitos. Quanto menor o traço gravado no silício, maior é sua capacidade de processamento e eficiência. 

Washington tem pressionado o governo dos Países Baixos a bloquear a exportação dessas máquinas para a China. O argumento é que o acesso poderia permitir à China produzir supercomputadores e sistemas militares que comprometessem a segurança do Ocidente. Influenciado por essa pressão, o governo holandês criou uma legislação mais rígida para impedir a venda do material para a China.

Engenharia reversa e ‘espiões’

A situação gerou um “xadrez tecnológico”. Diante dessas restrições, Pequim passou a investir pesadamente para desenvolver sua própria tecnologia. Parte do esforço envolve engenharia reversa, que reproduz a estrutura de equipamentos desmontados, além do recrutamento de profissionais estrangeiros com experiência em empresas do setor. Tal movimento é visto por autoridades ocidentais como disputa estratégica, que resvala em questões éticas, por talentos na indústria.

O vale-tudo high-tech já produziu um resultado concreto. Em 2025, pesquisadores chineses construíram um protótipo de máquina de litografia EUV em um laboratório altamente protegido na cidade de Shenzhen. O modelo já gera luz ultravioleta extrema, o elemento mais difícil desse tipo de tecnologia, mas ainda não fabrica chips em larga escala. Caso a China consiga transformar o protótipo em equipamento industrial, quebrará um dos últimos monopólios tecnológicos do Ocidente. “A guerra tecnológica não é apenas sobre quem produz mais gadgets (dispositivos eletrônicos) ou plataformas digitais; é sobre quem controlará a infraestrutura material da economia do século 21″, afirma Nyegray.

O governo chinês busca produzir seus próprios chips, já de olho no futuro. Nele, está incluída a tecnologia 6G, a próxima geração de internet móvel, prevista para cerca de 2030. Com o 6G, ficarão muito mais acessíveis a produção de carros totalmente autônomos, cirurgias remotas em tempo real, realidade aumentada avançada e redes inteligentes de máquinas. Além da velocidade, alcance e precisão de armamentos. As conexões serão quase instantâneas. O professor completa: “O plano chinês mais recente explicita isso ao priorizar semicondutores, IA, robótica, 6G, biomedicina e computação quântica como as suas principais forças produtivas”.

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2 comentários
  1. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Enquanto EUA e China dá um salto em desenvolvimento tecnológico o Brasil tá atrás de reduzir jornada de trabalho, surreal

  2. Luiz Antonio Antunes Caetano
    Luiz Antonio Antunes Caetano

    Tem algum calculo muito errado na informação do PIB per capta.chinês… a população teria que ter diminuido muito para o conseguir o aumento per capta de US$ 156 para US$ 13,8 mil (88 vezes) no mesmo período com aumento no valor total do PIB de US$12,5 tri para US$20,8 tri.(1,6 vezes)..

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