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Edição 323

Incompetentes no Poder

O mais votado ocupa o cargo máximo na administração do Estado. E aí vem o paradoxo: não é possível selecionar o melhor administrador público por meio de votação

O paradoxo da governança pública é que ela precisa ter, ao mesmo tempo, legitimidade e competência. A legitimidade está baseada na escolha popular através do voto, e isso é completamente incompatível com a formação de um governo competente. O sistema democrático ocidental se baseia em eleições. Os cidadãos votam em candidatos e aquele mais votado ocupa o cargo máximo na administração do Estado. E aí vem o paradoxo: não é possível selecionar o melhor administrador público por meio de votação. A única forma de fazer essa seleção é através de um exame cuidadoso, e competitivo, do histórico, do conhecimento e da experiência dos candidatos. Mas, para vencer uma eleição — e tomar posse como presidente, governador ou prefeito — um político não precisa ter conhecimento ou experiência. Basta conseguir um número suficiente de votos. E a habilidade de conseguir votos não tem nada a ver com a capacidade de administrar — ao contrário, políticos vencem prometendo o impossível durante a campanha e depois administrando o Estado com métodos populistas, de olho na próxima eleição.

O modelo atual entrega a chefia da máquina administrativa do Estado ao candidato eleito. É claro que a máquina tem uma estrutura fixa, composta por funcionários permanentes, selecionados através de concursos públicos. Na teoria, essa estrutura permanente garantiria a competência necessária para que a administração pública funcionasse de forma eficiente e contínua. Mas, na prática, o novo presidente — ou governador, ou prefeito — tem o poder de reorganizar a máquina administrativa, geralmente colocando pessoas de sua confiança — aliados políticos tão despreparados quanto ele — em posições-chave. O Brasil é recordista nos tais “cargos comissionados”. Aqui a tradição manda que o recém-empossado faça tudo para destruir o legado de seu antecessor. A tradição brasileira é que a máquina pública seja colocada a serviço de interesses pessoais e político-partidários.

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É fácil ver o problema de selecionar administradores públicos entre políticos que competem por votos. A maioria dos políticos não tem qualificação para administrar nada; não cometemos injustiça se dissermos que a maioria deles veio parar na política justamente por não conseguir sucesso em outras áreas. Não faz nenhum sentido escolher o administrador de uma cidade ou de um país dessa forma.

O chefe do Executivo reúne em um único cargo dois papéis distintos e conflitantes: o administrador público, que chefia a máquina administrativa, e o representante escolhido pela maioria dos eleitores para exercer, em nome deles, o poder político. O dilema central da democracia talvez seja compatibilizar esses dois aspectos do cargo, ou pelo menos evitar que um deles — a função administrativa — seja totalmente subordinada ao papel político.

Esse problema não foi bem resolvido nem nas democracias mais avançadas, como mostra o caso atual de Nova York, onde os eleitores elegeram para administrar a cidade um político radical e abertamente marxista, que não perde uma oportunidade para demonstrar a sua ignorância sobre aspectos básicos de administração.

O prefeito de Nova York, Zohran Mamdani (03/05/2026) | Foto: Wikimedia Commons

O modelo de eleições adotado por muitos países não passa de um concurso de popularidade. Eleitores decidem seu voto com base na aparência do candidato ou em slogans (sobre isso, vale a pena ver os excelentes livros The Art of Political War, de David Horowitz, e The Political Brain, de Drew Westen). Além disso, no Brasil, as regras que regem o processo garantem que apenas alguns privilegiados terão a oportunidade de um dia se candidatar a um cargo eletivo. Os partidos atuam como um oligopólio, controlando o acesso às eleições — e todos os partidos, quase sem exceção, são controlados por caciques. A complexidade da legislação torna todos os candidatos reféns; é longa a lista de políticos que perderam mandatos ou foram considerados inelegíveis por terem violado regras cuja aplicação é, muitas vezes, extremamente subjetiva.

A incapacidade do sistema eleitoral de produzir boas escolhas não é uma característica exclusiva do Brasil. É fácil encontrar situações parecidas em outros países. Os Estados Unidos elegeram Joe Biden, um homem com sinais evidentes de declínio cognitivo, e quase elegeram Kamala Harris, uma revolucionária de reality show, incapaz de formar sentenças que façam sentido — e nisso ela se parece muito com uma brasileira que foi eleita presidente duas vezes.

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Esses casos não são exceções. Essa é a regra. É difícil considerar como adequado um sistema que coloca no nível mais elevado de poder as pessoas mais despreparadas e radicais. Esse problema não se limita ao Poder Executivo. Se há uma característica comum à maioria dos legisladores — que criam as leis que vão impactar enormemente nossas vidas — essa característica é o despreparo.

É evidente que a gestão da máquina pública tem caráter político; ela envolve o exercício de um enorme poder sobre milhões de pessoas. Isso torna impraticável usar, para a escolha de governadores, prefeitos e presidentes, um processo de seleção como aquele usado para a escolha de outros servidores públicos. Mas enquanto insistirmos em escolher nossos administradores máximos como se estivéssemos escolhendo o ganhador de um reality show, as democracias continuarão reféns da mediocridade, do populismo e da corrupção. Não deveria ser assim.

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5 comentários
  1. Reinaldo Guerreiro da Silva
    Reinaldo Guerreiro da Silva

    Verdade cristalina, parabéns! Enquanto escolhidos desta forma os dirigentes em sua maioria serão aqueles de maior popularidade e não os mais competentes. A grande questão é encontrar um outro modelo.

  2. Edson Carlos de Almeida
    Edson Carlos de Almeida

    Temos um presidente condenado em três instâncias , um ministro da fazenda que não entende nada de economia …..

  3. João Luiz Bosso
    João Luiz Bosso

    Motta, como sempre, você faz um ótimo exercício de raciocínio mostrando uma verdade que é patente, mas que ninguém consegue mostrar com clareza. Parabéns.
    Temos muitos incompententes como mandatários, pena que depois de eleitos permanecem 4 anos, às vezes 8 e alguns que nem são eleitos ficam até os 75 anos!
    Gostaria muito de assistir todos os dias seus comentários na Oeste sem Filtro. Quem sabe?

  4. Luiz Antônio Alves
    Luiz Antônio Alves

    No final da década de 70 quando ainda eu estava trabalhando em veículos de comunicação critiquei duramente a nomeação de engenheiro civil para o cargo de agente da previdência que abrangia cerca de 17 municípios da região. Ele não sabia nem aonde era a agência sede do INPS. E tinha gente concursada com experiência e sem vínculos partidários que foram excluídos do processo. Ganhei uma advertência dos chefes pela crítica. Em outra oportunidade, na pandemia, conheci a pessoa que enviava os dados para a central da estatística do ministério da saúde. Era uma pessoa semianalfabeta que tinha que pedir ajuda para o preenchimento da ficha de dados e não sabia enviar nada pela internet. Mas, foi nomeada ganhando um bom salário e ficava pouco tempo no serviço e que na pandemia foi obrigado a cumprir horário e obrigações. Muitos dados foram manipulados consciente ou inconscientemente e depois de um ano revisados. Em outra atividade profissional tive um chefe que pedia pra mim como fazer isto ou aquilo…. Sei de um prefeito que só ia até a prefeitura de uma cidadezinha do interior para assinar cheques e o tempo todo ficava em sua fazendo treinando tiro de laço. Ele sabia ler e escrever…

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