À minha frente, na fila do caixa bancário, a freirinha idosa tremeu quando o caixa perguntou a ela o CPF; ficou assustada e o caixa insistiu, agora com o número do RG; quando o caixa lhe impôs um teclado e exigiu: “senha!”, ela abandonou a fila e foi embora, desesperada. Isso aconteceu no século passado e me inspirou o artigo mensal que escrevia na revista de bordo da então TAM, sobre os constrangimentos impostos aos mais velhos pelas modernidades digitais. Concluí o artigo ponderando que sortudo era Ali Babá que, no seu tempo, com apenas uma senha — Abre-te, Sésamo! — tinha acesso a todos os tesouros. Hoje, a situação piorou mais para os idosos. Já nem basta saber as senhas.
Agora recebo nas redes uma constatação do advogado carioca Cláudio Sá e Guimarães: “Uma sociedade que obriga uma pessoa de 90 anos a usar um smartphone para acessar seus próprios direitos não é moderna; é uma sociedade que decidiu se livrar de seus idosos. Em 2026, tudo virou um aplicativo, um código, um portal. Quem construiu este país com suas próprias mãos hoje se encontra analfabeto dentro da própria casa. Para marcar consulta ou pagar uma conta, precisa do filho ou do neto. O sistema falhou. Isso não é inovação; é exclusão.”

Hoje só consegui almoçar no restaurante desejado, aqui em Salamanca, porque me realfabetizei digitalmente. Ontem, passando diante do restaurante e vendo as credenciais Michelin e Repsol, entrei para reservar para o dia seguinte. Reserva analógica, manual? Não tem. Só aceitam reservar pelo aplicativo ou pelo site. Quando saí da Globo, se não tivesse seguido o conselho de minha filha e aderido ao jornalismo digital, estaria excluído da profissão, aposentado à força aos 78 anos. Se não tivesse decidido mudar a chave do tempo analógico para o digital, ficaria preso em casa, condenado a ir ao banco a cada conta a pagar; não estaria, ao mesmo tempo, trabalhando e em férias na Europa.
Talvez eu seja exceção. A regra é a situação de exclusão de que fala o advogado carioca. Penso que o Estatuto do Idoso, de 2003, é apenas uma falácia para registrar no papel da lei uma série de boas — e hipócritas — intenções, para aliviar as consciências em relação aos idosos e enganá-los, fazendo-os pensar que estão sob princípios de que a proteção ao idoso é dever do Estado, da família e da sociedade, garantindo prioridade, dignidade e bem-estar.
A lei fala muito em proteção do idoso. Aqui na Europa, compartilho destinos turísticos e percebo que mais de 90% dos viajantes são idosos. De bengala ou não, vi muitos de cadeiras de rodas elétricas viajando sozinhos. Idosos têm intensa vida noturna em países seguros. No Brasil, velho não sai de casa porque é presa fácil de assaltante. E o Estatuto do Idoso repete mil vezes a tal proteção ao idoso… O idoso é tão protegido no Brasil, que 4 milhões de aposentados e pensionistas foram roubados cruelmente em R$ 6 bilhões — por oportunistas que perceberam que é fácil enganar analfabetos digitais. A maior parte desses idosos, sem conhecimento digital para conferir seus contracheques previdenciários.

O próprio Estado dá pouca importância ao idoso. O Tribunal Superior Eleitoral, para atrair eleitor facultativo, fez um boneco estilo Zé Gotinha, chamado Pilili, supostamente para chamar adolescentes de 16 e 17 anos às urnas. E os eleitores com mais de 70 anos? Por que não um boneco Ruy (Barbosa)? Não há campanha para os idosos votarem. O Estado brasileiro quer evitar os eleitores mais experientes. Um eleitor de 16 anos mal está começando a ter discernimento político, enquanto alguém de mais de 70 já tem décadas de experiência — e sofrimento — com a política. Quanto mais velho, mais preparado para tomar decisões na urna.
Quanto aos candidatos a cargos públicos, a idade legal está afastada da sabedoria. Trinta e cinco anos de vida é pouco para quem queira ser ministro da Suprema Corte ou presidente da República. Assim como 75 anos é cedo demais para mandar embora um juiz saudável, cada dia mais experiente. O ministro Carlos Mário Velloso lamentava ter que deixar o Supremo, mas compensaria com mais tempo para vencer seus adversários no tênis.
A propósito, o Brasil não trata seus idosos com isonomia. Os cidadãos de primeira classe, servidores do público, têm aposentadoria nas alturas. Já o público a que os funcionários do Estado servem, fica com uma aposentadoria ridícula, embora tenha contribuído compulsoriamente a vida toda. Por isso, é necessário levar também aos jovens a mensagem de que estão tendo a oportunidade de preparar uma boa velhice. A começar por não reconhecer a tal velhice; recusar ser apresentado a ela. Como aconselha o sábio Clint Eastwood: “Não deixe o velho entrar”. Para isso, é preciso começar cedo, tratando bem o corpo e a mente. Sem esperar pelo Estado ou pelas leis. Por falar em lei, a mais forte é a da Natureza — corpo e mente. Quem não aprende as regras, vai sofrer. Em geral, vai aprendendo a cada dia. E a nossa política está cheia de puerilidades; gente que viveu sem aprender, o que é trágico. Se houvesse amadurecimento nos Três Poderes, o Estado brasileiro não estaria metido nessa decadência. Quanto mais velho, mais sabe. Mais sabe o Diabo por ser velho do que por ser Diabo — lembra o Martín Fierro.

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Se os governos soubesse mo quão o mundo seria melhor, se fosse aplicada a ousadia de um jovem com a experiência de um idoso.
Sou um idoso de 76 anos, advogado, e utilizo os serviços de uma IA como assistente. Creio que o idoso hoje tem muito mais autonomia que no século XX. As mudanças tem que partir de dentro de cada um. Não esperar pelo Estado. Mas não sou advogado desde cedo. Sou também Engenheiro Florestal e resolvi fazer Direito após os 50 anos. E estou muito bem.
E o que mais me entristece na BAHIA E NO RJ AMBAS EX CAPITAL FEDERAL e que se tem filhos que não souberam criar ,os idosos ficam nas mãos deles com a aposentadoria e empréstimos pra comprar anel do tal heripoter , pagar a Internet e nas compras, compra miojo, e se não tiver filhos e nem netos, fica a mercê do BANCO que retira dinheiro da conta e quando vão ao tal JUIZADO ESPECIAL CRIMINAL , porque o banco manda reclamar, só faltam chamar de esclerosado e , tem os filhos que pegam a pensão e gastam com a Internet, net fix e sei lá mais o que o mesmo valor da prestação que o idoso comprou um apartamento em 1989 e conseguiu pagar em 2002 a última prestacao até conseguirem se enrolar e enrolar o idoso que sempre pagou suas contas em dia.
Excelente analise. Eu hoje com 62 anos fico atordoada com tanta senha pra registrar e guardar. Fazer movimentação bancária pelo app é uma luta ingrata. Ainda tenho alguma condição de fazer sozinha mas me canso. Tem coisas que escolho nao fazer, nao frequentar ou nao comprar por excesso de “burocracia digital “.
E vero, e por isso é no tal APP é que o lula é seus asseclas, conseguiram roubar tantos aposentados do INSS e o BRASIL.
Concordo 100%
Artigo sensacional que traduz em gênero, número e grau o que vem passando nossa turma de mais de 70 anos.
excelente texto, reflete a realidade de milhares de idosos, tenho 82 anos, detesto celular as fui obrigada a ter um pois tudo é por aplicativo, essa juventude de TI se esquece que nem todo mundo nasceu com um smartphone grudado na orelha
Parabéns e o obrigada, Alexandre! Precisamos falar mais disso e ter representantes q atuem em incluir o idoso e suas necessidades -inclusive e importantissimo o direito e necessidade de trabalhar…. A aposentadoria nao esta dando para manter a vida de ninguem!
O que elles querem mesmo é que o idoso morra!!! Idoso atrapalha o progresso! Apesar de ter ajudado muito nesse progresso que acham que é cDELLES!!!
Concordo plenamente!
Toda a minha vida profissional foi com uso de toda essa tecnologia: desde os mainframe (os IBM centrais), para o microcomputador, a adoção do mouse (não foi fácil a adaptação pois eu era rápida no uso do teclado para fazer apresentações (em sistema anterior ao PowerPoint), o advento dos notebooks, netbooks e smartphones
Ainda assim, sinto a tecnologia excludente, em especial para nós! Pesquisar no Gov.br é muito chato! Não é “user-friendly” (amigável ao usuário)
Cardápios por QR-code nos restaurantes! Aff! E o Check-on no totem para despachar bagagens? Aff! Afff! afff!
Por mais q a gente se atualize, sempre parece faltar facilidades
Excelente, Alexandre! Obrigada!
Alexandre, lembrei de algo q é, para mim, uma verdadeira aberração!
Como as organizações querem ter a atenção do seu cliente se nem sequer nos “atendem”?
Eu quis encomendar um bolo na Casa do Bolo (uma franquia) e fiquei com uma dúvida! Liguei pelo WhatsApp e pelo celular! Não me atenderam! Enviei uma mensagem pelo WhatsApp perguntando porque não atendiam ao telefone! Disseram q era só por mensagem no WhatsApp! Aff! Informei q encomendaria o bolo em outra doceira! Creio q nem se importaram!
E os demais atendimentos por “Inteligência Artificial”? Nunca tem a opção que você precisa! E não consegue “acesso amigável”! Um verdadeiro inferno! Será que somente para o idoso?
Concordo contigo, notadamente nos atendimentos via IA. Grande Alexandre, um dos grandes de verdade, sempre com escritos úteis e irretocáveis.
Perfeito Roseli, vivenciei tudo isso tb e sinto exatamente assim como descreveu. Parece que todo dia tem uma novidade! Afff, afff, afff!
E essas facilidades , inclusive do GOV.BR, lhe deixa vulnerável, pois não só o governo com seus hacker, mais os demais assim como o tal reconhecimento facial , que já conseguem clonar. Não é isso que é ser de 1° mundo mas é saber que o mundo foi construído por esses . Já teve época que deputado acreditava que o país não tinha idosos com mais 60 anos e descobriu que existia de 80,90 lúcidos e independentes.
Excelente texto, percebo isso faz tempo também, a questão da exclusão de idosos vem ocorrendo e abrindo frente também para golpes infrigidos aos que precisam de auxílio para acessar banco por exemplo. É importante se esforçar, para lidar com as adversidades do sistema, seja buscando se atualizar ou reduzir ao mínimo a necessidade de auxílio de terceiros e/ou de utilização do sistema seja para o serviço bancário, assistência médica entre outros. O sistema é bruto.
Grande Alexandre Garcia. Texto sempre primoroso.
Abrangeu a dificuldade e os apuros por que passam os idosos nesta era digital, com conhecimento de causa.
Para nosso prazer em ler seus textos, fez muito bem em seguir o conselho de sua filha.
Abordagem muito interessante, caro Alexandre Garcia. Sou muiiiito velho. Talvez pela minha formação como engenheiro, estou perfeitamente adaptado às novas tecnologias. Uso o celular com naturalidade. Prefiro o PC, mas integro o uso dos dois. Interessante, que muitas vezes, acessando os sites pelo PC, particularmente o govBr, frequentemente tenho que gerar um código no aplicativo correspondente no celular para gerar um código confirmando minha identidade. Sem o celular, hoje uma pessoa não consegue ser um cidadão pleno. Estamos sendo cancelados sem ao menos nos darmos conta….
“gerar um código” apareceu duas vezes. Não há como editar o que escrevemos com engano. Nessa, a tecnologia do site Oeste me pegou…
Parabens Alexandre, acertou na mosca! Dificil a vida dos idosos!