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Poster do filme Nuremberg (2015) | Foto: Reprodução
Edição 324

Nuremberg (2025) tem bom vilão, propaganda velha e um papa caluniado

O filme comete o erro mastodôntico de ressuscitar, sem qualquer senso crítico, o mito soviético, tão célebre quanto farsesco, que associava Pio XII a Hitler

“Quando entramos em Roma, os sobreviventes judeus nos disseram, com voz cheia
de profunda gratidão e respeito: ‘Se nós fomos resgatados, se os judeus ainda
estão vivos em Roma, venha conosco e agradeça ao Papa no Vaticano.
Pois, no próprio Vaticano, em igrejas, mosteiros e em casas particulares,
os judeus foram escondidos por ordem pessoal do Papa’.
(Palavras de um oficial da Brigada Judaica ao Davar, o jornal da Federação Israelita de Trabalho, logo após a libertação de Roma pelos Aliados, em junho de 1944)

Há um momento revelador no novo Nuremberg (2025), de James Vanderbilt, que não tem nada a ver com o histórico julgamento que inspira a obra. Perto do final, um dos personagens, exaltado (e interpretado de maneira canhestra pelo ator), vocifera em entrevista para uma rádio:

“Há gente como os nazistas hoje, em qualquer parte do mundo, inclusive aqui na América. Eu estou certo de que há gente na América que pisaria nos cadáveres de metade do povo americano se, com isso, pudesse controlar a outra metade. Eles alimentam o ódio. É o que Hitler e Göring fizeram, seguindo um manual. E se você acha que, da próxima vez que acontecer, nós o reconheceremos porque o mal estará usando uniformes assustadores, você está delirando.”

A frase não é sutil. E nem tenta ser. Trata-se de uma sugestão de associação entre o nazismo e o trumpismo, com base na ideia de que ambos “alimentam o ódio” — muito embora todos os atos recentes de ódio político nos EUA (incluindo ao menos três atentados contra Donald Trump e o assassinato de Charlie Kirk) tenham sido perpetrados pela esquerda anti-Trump. Na revista britânica The Spectator, o colunista judeu Jonathan Maitland (que odiou o filme de cabo a rabo) observou que, muito embora Trump tenha suas falhas, equiparar o seu governo ao Terceiro Reich é algo “estupidamente reducionista” (“moronically reductive“).

Mas o problema dessa produção hollywoodiana vai muito além desse aceno de final de festa para o público ultraesquerdista americano — que, aliás, decerto entra nas sessões já convicto da comparação. O problema mais grave, e que merece atenção especial, está numa cena mais para o início do filme, ambientada num gabinete do Vaticano. Embora breve e pretensamente casual, é nessa cena que, traindo um velho vício hollywoodiano, o filme comete um erro histórico de proporções mastodônticas, ao ressuscitar, sem qualquer senso crítico, o mito soviético do “Papa de Hitler” — reproduzido e consagrado no tão célebre quanto farsesco livro de John Cornwell.

Michael Shannon como R.H. Jackson e Giuseppe Cederna como papa Pio XII em Nuremberg (2025) | Foto: Reprodução/Sony Pictures Classics

Na cena em questão, o promotor americano Robert H. Jackson, responsável pela acusação contra a cúpula nazista em Nuremberg, confronta o papa Pio XII. O pontífice diz não poder apoiar o tribunal internacional pretendido. Então, Jackson (vivido pelo ator Michael Shannon) dá ao Papa uma descarada lição de moral:

“Mas você os apoiou em 1933. Você assinou a Concordata com Hitler. Você vivia em Munique e era o núncio para o Império Germânico. A Igreja Católica foi o primeiro poder mundial a reconhecer o Estado do Führer. Você deu credibilidade aos nazistas.”

O Papa ainda tenta argumentar: fez o que fez para proteger os católicos na Alemanha. Ao que Jackson responde: “Não é uma pena que os judeus não tenham quem o faça por eles?”. E conclui com a fleuma de quem, simultaneamente, fosse juiz do tempo e da eternidade: “As pessoas lembrarão disso, senhor, do que você fez em 1933, e do que fez agora. A Igreja Católica ficou contra ou a favor dos nazistas?”. Pio XII, humilhado em cena, não tem resposta à altura. O tribunal de Hollywood já proferiu sua sentença.

O problema é que a acusação é falsa. E não se trata de uma falsificação obscura, que precisasse ser descoberta metodicamente, com lupa de investigador. Trata-se, ao contrário, de uma das mais bem documentadas campanhas de desinformação do século 20.

No livro Desinformação, o general Ion Mihai Pacepa — chefe da inteligência romena que desertou para o Ocidente em 1978 — descreve com precisão cirúrgica como a KGB orquestrou, a partir de meados dos anos 1950, uma campanha sistemática para destruir a reputação de Pio XII. O motivo era inequívoco: o papa era o mais contundente adversário do comunismo no mundo ocidental, e era preciso neutralizá-lo moralmente. Entre outros frutos envenenados, a operação produziu a peça teatral Der Stellvertreter (“O Vigário”), do dramaturgo alemão Rolf Hochhuth, estreada em 1963. A peça acusava Pio XII de silêncio cúmplice diante do Holocausto e causou um escândalo internacional que reverberou por décadas. O que Hochhuth não sabia — ou não quis saber — é que o roteiro da acusação havia sido fornecido pelos serviços de inteligência soviéticos. Pacepa, que conhecia a operação por dentro, afirmou sem meias palavras: a lenda do “Papa de Hitler” foi uma fabricação deliberada, concebida em Moscou e executada com maestria nos palcos ocidentais.

O que dizem os fatos históricos? Em Hitler, the War and the Pope, o professor e jurista americano Ronald Rychlak documenta que Pio XII trabalhou incansavelmente nos bastidores para proteger judeus — escondendo-os em conventos, mosteiros e no próprio Vaticano, financiando fugas, emitindo documentos falsos, mobilizando a rede eclesiástica europeia. Em The Myth of Hitler’s Pope, o rabino David Dalin vai mais longe: demonstra que Pio XII foi reconhecido por líderes judeus contemporâneos como um dos maiores protetores do povo judeu durante a guerra, e que a acusação de cumplicidade é não apenas historicamente infundada, como politicamente motivada. Baseando-se em novas fontes primárias após a abertura dos arquivos do Vaticano, também o jornalista britânico Gordon Thomas, em The Pope’s Jews, e o padre jesuíta Pierre Blet, em Pius XII and the Second World War, According to the Archives of the Vatican, chegam às mesmas conclusões.

Retrato do papa Pio XII, por Michael Pitcairn (1951) | Foto: Reprodução/Wikimedia Commons

Os testemunhos da época são eloquentes. Albert Einstein declarou publicamente após a guerra: “Só a Igreja Católica protestou contra o assalto hitlerista à liberdade”. Ao saber da morte de Pio XII, ninguém menos que Golda Meir, primeira-ministra de Israel, enviou telegrama à Secretaria de Estado do Vaticano: “Quando o martírio mais assustador atingiu o nosso povo durante os dez anos de terror nazista, a voz do pontífice elevou-se a favor das vítimas”. E o rabino-chefe de Roma entre 1940 e 1945, Israel Zolli — que se converteu ao catolicismo depois da guerra e tomou o nome de batismo de Eugenio em homenagem ao papa — descreveu Pio XII como um protetor direto: Roma e o Estado do Vaticano foram usados como esconderijo. Zolli sabia do que falava. Ele esteve lá.

Não é extraordinário que, em pleno ano de 2026, um filme de grande orçamento, distribuído pela Sony Pictures Classics, reproduza acriticamente a lenda que a KGB colocou em circulação há 70 anos? Sabe-se muito bem o quanto Hollywood foi infiltrada e manipulada por agentes e companheiros de viagem soviéticos ao longo de décadas — ver, entre outras obras, Red Star Over Hollywood, de Ronald e Allis Radosh; Hollywood Party, de Kenneth Lloyd Billingsley; The Cultural Cold War, de Frances Stonor Saunders; The Left Side of the Screen, de Bob Herzberg; e Left of Hollywood, de Chris Robé. A história dessa infiltração é longa, documentada e, nos círculos acadêmicos sérios, incontestada. Ainda assim, é de provocar espanto genuíno constatar até que ponto velhas campanhas de desinformação soviéticas permanecem não apenas intactas, mas operacionais nesse ambiente, mesmo passados quase 40 anos do colapso da URSS. Tudo se passa como se, dissolvida a Nomenklatura vermelha, o veneno continuasse circulando no organismo por inércia cultural, preguiça intelectual ou, pior, conveniência política. Um filme que se apresenta como lição de história reproduz, sem piscar, a propaganda de um regime que matou mais gente do que o nazismo — e dá lição de moral num papa que arriscou a instituição que governava para salvar judeus das garras de Hitler. A ironia seria cômica se o assunto não fosse tão sério.

Quanto ao filme em si — e agora deixando de lado suas pretensões didático-ideológicas —, o balanço é misto, com Russell Crowe pesando mais no lado dos créditos. Sim, Crowe está muito bem como Hermann Göring: gordo, imponente, com o cabelo penteado para trás e um leve sotaque germânico que confere ao personagem uma autocomplacência irritante. Trata-se de uma composição física e psicológica de primeira grandeza, talvez sua melhor atuação em muitos anos. Göring sai do filme menos fantasmagórico do que entrou — o que é, ao mesmo tempo, o maior mérito e o maior risco da abordagem.

Rami Malek, como o psiquiatra Douglas Kelley (à esq.) e Russell Crowe, como Hermann Göring, em Nuremberg (2025) | Foto: Scott Garfield/Sony Pictures

Rami Malek, porém, é um desastre de proporções equivalentes — embora para mim não surpreendente, por considerá-lo um ator de improvável physique du rôle, com a estranha mania de exibir trejeitos faciais que parecem sempre contradizer os sentimentos que se espera do personagem. No Guardian, um resenhista resumiu bem o quadro geral da atuação de Malek como o psiquiatra Douglas Kelley, responsável por avaliar se os nazistas acusados em Nuremberg eram mentalmente imputáveis. O ator — escreve o crítico no jornal inglês — entrega uma atuação de “hamfest”: olhos revirando, sorrisos enigmáticos, tiques nervosos em quantidade industrial. Com sua atuação, Malek reduz o personagem a um catálogo de maneirismos, e toda tentativa de construir o drama pessoal e a gradual degeneração mental do psiquiatra (que acabou se suicidando exatamente como Göring, engolindo uma cápsula de cianeto de potássio) se esvai numa performance grotescamente exacerbada.

O problema dramatúrgico central do filme é estrutural: ao optar pelo duelo psicológico Göring/Kelley como espinha dorsal, Vanderbilt sacrifica o que deveria ser o coração da história — o próprio julgamento. O tribunal aparece em flashes, nunca com o fôlego que merece. Jackson, um dos maiores juristas americanos do século 20, é retratado como figura secundária, inseguro e dominado por Göring no contrainterrogatório, sem que o filme explore adequadamente a dimensão histórica do que estava em jogo. Richard E. Grant faz o que pode com o promotor britânico David Maxwell Fyfe, mas ambos existem mais como funções temáticas do que como personagens. O primeiro ato é pesado em exposição: quase cada frase é biografia encapsulada ou contexto histórico explicado, e a cena em que Jackson convoca Kelley para uma lição sobre o nazismo nos arredores do estádio de Nuremberg parece uma entrada de enciclopédia reescrita para o cinema.

O resultado é um filme que desperdiça um material extraordinário. Nuremberg — o julgamento real, não o filme — foi um dos momentos mais dramáticos do século 20: a primeira vez que a comunidade internacional tentou responsabilizar criminalmente chefes de Estado por crimes contra a humanidade, criando as bases do direito internacional moderno. Há um grande filme possível sobre esse tema. O de Vanderbilt não cumpre a missão. Trata-se de um duelo de câmara entre um ator magnífico e um ator sobrecarregado, com um sermão político no final e uma calúnia histórica costurada no meio — servida ao espectador como se fosse história.

Em suma, 70 anos depois de Der Stellvertreter, Moscou pode considerar a missão cumprida: a mentira ganhou tela grande e, mais uma vez, reforçou a mórbida e permanente suspeita ocidental contra sua própria civilização.

Hollywood não aprende!

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2 comentários
  1. Vanessa Días da Silva
    Vanessa Días da Silva

    Perdi a vontade de assistir . Ta difícil encontrar filmes palatáveis atualmente

  2. Manoel Ribeiro Soares Neto
    Manoel Ribeiro Soares Neto

    Manoel Ribeiro.
    Excelente esclarecimento sobre o Papa Pio XII, sinceramente não tinha essa informação.
    Você esclareceu toda a verdade que eu desconhecia.
    Obrigado.

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