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Gigafábrica da Tesla em Xangai, China | Foto: Divulgação/Tesla
Edição 325

Um carro a cada 40 segundos

Fábrica da Tesla na China criou a maior revolução da indústria automobilística desde 1913, em mais um feito extraordinário do incansável visionário Elon Musk

Em 40 segundos, seu coração bate 45 vezes. Uma pessoa caminha cerca de 50 metros ou sobe três andares de escada. Seus olhos piscam sete vezes. Um elevador se desloca por dez andares. Nosso organismo produz 100 milhões de novas células sanguíneas. Um bom nadador atravessa uma piscina de 50 metros em 40 segundos. Um carro a 70 km por hora roda 800 metros. A Terra percorre 1,2 mil quilômetros em sua órbita ao redor do Sol. Em 40 segundos, você leu este texto. 

Pois a cada 40 segundos um novo carro está sendo entregue pela Gigafactory (“Gigafábrica”). Claro que o automóvel não é fabricado do zero. O processo completo para que um único carro Model Y passe por todas as etapas (da prensa de metal, soldagem, pintura, até a montagem final) leva cerca de 2,5 horas. Como milhares de veículos avançam de forma simultânea e altamente sincronizada pelas esteiras, tornou-se possível que um carro fique pronto nesse minúsculo prazo de 40 segundos. Antes que seus olhos pisquem oito vezes, mais um Y estará pronto para a venda.

Este milagre da produção em escala — mais um feito do incansável empresário-cientista-inventor Elon Musk — tem um “avô” que não pode ser esquecido: Henry Ford (1863-1947). Antes de Ford, os carros eram produzidos como carruagens motorizadas. Pequenas equipes de operários montavam o veículo inteiro, andando ao redor dele, encaixando peças que nem sempre eram padronizadas. 

Em 1913, Henry Ford introduziu o princípio da linha de montagem móvel. Em vez de os trabalhadores irem até o carro, era o carro que se movia por uma esteira, passando por sucessivas estações de trabalho. Cada funcionário executava uma tarefa específica, repetida milhares de vezes. O tempo de  montagem do lendário Ford Modelo T caiu de 12 horas para 90 minutos.

Ford Modelo T estacionado em frente à Biblioteca de Geelong na sua inauguração, em 1915 | Foto: Reprodução/Wikimedia Commons

Essa nova estratégia gerou consequências fundamentais para o setor: o preço do carro despencou e o Ford Modelo T se tornou acessível à classe média americana. O ritmo de produção saltou de milhares de unidades para centenas de milhares. Em 1921, metade dos 30 milhões de automóveis do mundo era um Ford Modelo T.

Os três princípios da Tesla

Elon Musk pegou o mesmo princípio da linha de montagem criada por Henry Ford e o levou a um novo patamar. O “carro de 40 segundos” da Tesla se baseia em três princípios:

  1. Megaprensas — A Tesla não solda pequenas partes metálicas para montar a estrutura do carro. Em vez disso, usa prensas gigantescas que fundem peças inteiras de alumínio de uma só vez. Isso reduz drasticamente o tempo de fabricação do chassis. 
  1.  95% de automação — Praticamente toda a linha de produção, pintura e soldagem é operada por robôs articulados trabalhando em perfeita sincronia. Eles trabalham em oficinas verticalizadas de dois andares. Os humanos atuam principalmente no controle de qualidade e em tarefas muito específicas de acabamento.
  1. Cadeia de suprimentos localizada — Mais de 95% dos componentes utilizados na fábrica são produzidos a poucos quilômetros de distância, na própria China. Essa logística integrada evita qualquer gargalo ou atraso no recebimento de peças na linha de montagem.
Tesla Modelo Y | Foto: Divulgação/Tesla

Elon Musk está acelerando seu plano de eletrificar a frota de carros em alta escala e cumprir sua promessa de melhorar a qualidade ambiental e diminuir a dependência do petróleo. Ele faz isso gerando empregos e ganhando muito dinheiro, sem precisar de regulamentações estatais e decisões políticas. 

Alguns aspectos dessa conquista são polêmicos. A Tesla trabalha indiretamente em parceria com uma das mais brutais ditaduras do mundo. Aproveita a mão de obra chinesa, mais barata e impedida de reclamar. Trabalhadores da Giga Shanghai chegam a trabalhar 12 horas seguidas e terminam o turno às 3h da madrugada. 

Milhões de clipes

A empresa também enfrenta as consequências das tensões entre a China e os Estados Unidos. Recentemente, o regime comunista bloqueou a compra pela Tesla de equipamentos da empresa Suzhou Maxwell no valor de quase US$ 3 bilhões destinados a armazenar energia elétrica.  

Mas as inovações tecnológicas são indiscutíveis e poderão ser aplicadas em outras montadoras e em outras atividades industriais. Aproveitando o embalo, a China já começou a produção dos FSD, os carros autônomos. Usando um sistema movido a inteligência artificial, os carros “aprendem” com milhões de clipes registrados em estradas e ruas. 

Como pode ser conferido no vídeo acima, a Tesla Gigafactory Shanghai reina absoluta. Com 460 mil metros quadrados, tornou-se o maior hub de manufatura da empresa. Seus mil robôs industriais funcionam 24 horas por dia, 365 dias por ano. Se algum robô erra, ele mesmo diagnostica sua falha e se “cura”. A fábrica de Xangai é responsável por mais de 52% de todas as entregas globais da montadora e já produziu 4 milhões de veículos. Uma segunda unidade da Tesla na mesma cidade está focada exclusivamente na produção do “combustível” desses carros — o armazenamento de energia elétrica.

A Tesla reinventou o processo de produção de automóveis. Os veículos são produzidos com menos peças, criadas especificamente para serem montadas por robôs. Isso ajuda a acelerar o processo de fabricação. Para o visionário Elon Musk, não é o suficiente. 

O processo desempacotado

Musk já anunciou que a futura unidade da Tesla em Monterrey, no México, vai mudar completamente o processo de linha de montagem estabelecido por Henry Ford em 1913. O novo sistema é chamado de unboxed process (“processo desempacotado”). Os carros não passam por uma montagem linear, mas são criados a partir de módulos construídos separadamente — frente, traseira e piso. 

É como montar um brinquedo de Lego. Com as partes separadas, fica mais fácil para os trabalhadores (robôs e humanos) instalarem bancos, tapetes, painéis etc. Não será mais preciso que os operários se contorçam dentro dos veículos para encaixar pequenas peças. Com esse processo, a Tesla calcula que vai reduzir os custos de 40% a 50%, e que deixará a produção 25% mais rápida. Num cálculo grosseiro, os 40 segundos atuais poderão ser reduzidos para 30.

Robôs fabricando robôs

Mas o tempo de inovação está cada vez mais acelerado, e esse complexo de Xangai lida com duas outras produções paralelas aos carros elétricos: robôs humanóides e carros autônomos. Segundo reportagem do jornal Washington Post, “Musk incentivou os investidores a se concentrarem menos na venda de carros e mais no que ele considera um futuro promissor da inteligência artificial, com robôs-táxi transportando milhões de pessoas em carros sem motoristas, robôs regando plantas e cuidando de idosos”.

É essa a realidade que está se formando: robôs fabricando carros dirigidos por robôs. Por estar na frente dessa onda, o visionário Elon Musk permanece o ser humano mais rico do mundo, com um patrimônio calculado pelo Wall Street Journal em cerca de US$ 970 bilhões — cerca de R$ 4,8 trilhões. Sua fortuna cresce quase US$ 60 mil por minuto. Tempo mais que suficiente para produzir mais um Tesla na fábrica de Xangai.


dagomirmarquezi.com
@dagomirmarquezi

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2 comentários
  1. Fernando S
    Fernando S

    E assim progridem as ditaduras, com a complacência e incentivo mercantilista dos “gênios” hipócritas, até a perda da liberdade individual de todos, seja pela força ou pela completa dependência econômica de salários nível chinês.

  2. Francisco de Assis Bonfati
    Francisco de Assis Bonfati

    Parabéns Dago! As sua matérias são muito esclarecedoras nos mostrando a tecnologia aplicada na vida real hoje. E quanto ao Elon Musk, eu creio que ele é o maior gênio que já existiu quando se trata de linhas de produção, seja de carros, foguetes ou satélites.

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