Os judeus saúdam-se na passagem do ano dizendo: Shana Tová veMetuká! Ano bom e doce! Essa doçura é indissociável do mel e de sua grande artesã, a abelha, inseto virtuoso e benéfico. Aquela cujo trabalho é alegria. “A abelha é pequena entre os seres alados, mas o que ela produz é o que há de mais doce” (Sr 11,3). O Dia Mundial das Abelhas é comemorado anualmente em 20 de maio. A data foi estabelecida pela ONU em 2017 por proposta da Eslovênia, em homenagem ao nascimento de Anton Janša, pioneiro da apicultura moderna. O evento serve para conscientizar sobre o quanto esses polinizadores são vitais à segurança alimentar, à biodiversidade e aos ecossistemas. Dois dias depois, em 22 de maio, celebra-se o Dia do Apicultor, um dos mais necessários e queridos entre os agricultores sem-terra do Brasil.
A maioria dos apicultores não possui fazendas. Bastam alguns metros quadrados para instalar suas colmeias, e pronto. Ao contrário de muitos benditos — ou malditos — sem-terra, esses profissionais das abelhas são bem-vindos e recebidos sem conflitos em propriedades alheias.
Os apicultores instalam suas colmeias em plantações de eucalipto, cereais, leguminosas, melão, tomate, laranja, hortaliças etc. Até em áreas experimentais da Embrapa. Em troca de pólen e néctar, as abelhas polinizam os cultivos e ampliam sua produtividade.

Por que o Dia do Apicultor é celebrado em 22 de maio? Porque é o dia de Santa Rita de Cássia no calendário litúrgico. Por que essa coincidência? Porque Santa Rita de Cássia é a padroeira dos apicultores.
E por quê?
Segundo a tradição, após a solenidade de seu batismo, por volta de 1381, na Úmbria, Rita foi deixada para dormir à sombra de uma árvore. Quando seus pais voltaram para observá-la, viram abelhas brancas voando ao seu redor, pousando suavemente sobre seus lábios e depositando gotículas de mel. Era um sinal anunciador. Um pródromo das muitas doçuras daqueles lábios.
O homem explora o reino das abelhas há milhares de anos. Como aves de rapina, os homens da Bíblia saqueavam colmeias na natureza. Os gregos logo aprenderam: era necessário deixar parte do mel nas colmeias para garantir a sobrevivência dos enxames.
A organização das abelhas sempre fascinou os humanos. Aristóteles, como ninguém, apresentou uma descrição minuciosa da vida das abelhas no capítulo 40 do tomo IX de sua História dos Animais. Indicações de manejo das colmeias e do plantio de espécies nectaríferas já integravam o conjunto de técnicas conhecidas em seu tempo. Virgílio, nas Geórgicas, retomou o tema da criação e dos cuidados com as abelhas. Ao longo dos séculos, as técnicas de domesticação e manejo evoluíram continuamente.
A apicultura teve início no Brasil em 1839 — e sua história também se relaciona à Igreja Católica. O primeiro apicultor do país foi o padre Antônio Carneiro. Ele trouxe algumas colônias de abelhas Apis mellifera, ditas europeias, do Porto, em Portugal, para o Rio de Janeiro. Mais uma espécie exótica incorporada à agricultura brasileira. Daí em diante, a apicultura não parou de crescer.
Quem produz mel são as abelhas — e trabalham intensamente. Para produzir um quilo de mel, são necessários cerca de dois quilos de néctar. Para isso, aproximadamente um milhão de flores precisam ser visitadas por dezenas de milhares de abelhas. Em cada saída, uma operária percorre dezenas de flores para recolher alguns miligramas de néctar. Além do mel, elas produzem cera, própolis e geleia real, alimentam as larvas, regulam a temperatura e garantem a defesa da colmeia. Operárias vivem cerca de 45 dias. Rainhas, de dois a quatro anos.

A produtividade brasileira de mel ainda é baixa. A média varia entre 18 e 20 quilos por colmeia ao ano. Sistemas tecnificados alcançam de 60 a 100 quilos anuais. A produção nacional permanece modesta. Em 2024, atingiu 67,3 mil toneladas. É pouco, muito pouco. O Brasil não figura entre os maiores produtores mundiais. Poderia — e deveria — estar entre os primeiros.
O mel é praticamente uma commodity. Seu preço acompanha os mercados internacionais. Exportá-lo é um excelente negócio. O Brasil exporta mais de 80% de sua produção. Em 2025, apenas no primeiro quadrimestre do ano, o país exportou mais de 11 mil toneladas, tendo os Estados Unidos como principal destino, seguidos por países europeus e asiáticos. O mel brasileiro é reconhecido pela qualidade. As exportações para a Alemanha — muito rigorosa na análise de produtos importados — comprovam isso (Revista Oeste, Edição 105).
Ao mercado interno sobra apenas uma parcela da produção. O brasileiro consome, em média, cerca de 60 gramas de mel por ano, contra 240 gramas dos argentinos e mais de um quilo em Estados Unidos, Europa e diversos países asiáticos. Apenas 53% do mel é consumido in natura à mesa. O resto destina-se às indústrias de alimentos, cosméticos, tabaco e ração animal.

O aumento do consumo de mel in natura depende da ampliação da produção. O extrativismo de colmeias não é sustentável. Somente inovações técnicas, investimentos e manejo profissional trarão ganhos reais de produtividade. Não há alternativa.
Além da abelha europeia, exótica, o Brasil abriga espécies nativas de abelhas sem ferrão (Meliponini), um grupo de himenópteros da família Apidae, tipicamente tropical. Essas abelhas sociais estão representadas no país por cerca de 250 espécies. São fundamentais na polinização de muitas plantas e algumas produzem mel de excelente qualidade, embora em quantidade muito inferior à da abelha europeia.
Trata-se ainda de uma atividade desenvolvida em pequena escala. Muitos produtores enfrentam gargalos para escoar seus produtos e profissionalizar a cadeia produtiva. O manejo e a legislação avançam lentamente, embora existam esforços crescentes para estabelecer padrões específicos de qualidade e segurança alimentar para os produtos das abelhas sem ferrão. O Brasil possui um potencial único na produção desses méis graças à sua extraordinária biodiversidade — potencial ainda limitado pela pequena escala produtiva e pela fragilidade da estrutura de mercado.
Flores e abelhas evoluem juntas há milhões de anos. As abelhas são um grupo monofilético de insetos originado, provavelmente, de vespas esfecídeas. Na história da vida, elas surgiram diante de uma nova situação adaptativa: eram capazes de usar o pólen das angiospermas como alimento proteico de suas larvas. Abelhas são inteiramente dependentes das flores para se alimentar. Não poderiam ter-se originado antes do aparecimento das plantas floríferas.
Esse grupo de plantas já era predominante no Cretáceo médio (120 milhões de anos atrás). Em sua maioria, eram polinizadas provavelmente por besouros. As angiospermas primitivas tinham flores relativamente abertas. Eram uma fonte de pólen e néctar para insetos de língua curta, incluindo muitos besouros, vespas e posteriormente abelhas de língua curta. Os fósseis de abelhas conhecidos do Eoceno (há cerca de 40 milhões de anos) indicam: nessa época, as abelhas já eram especializadas, com elongação de suas peças bucais e adaptadas a explorar flores estreitas e tubulares de angiospermas. A maioria dos grupos de abelhas hoje conhecidos já existia nessa época.

Plantas com flores estreitas e profundas devem ter surgido em coevolução com muitos de seus polinizadores, entre eles as abelhas com língua longa. A radiação das abelhas com língua longa deve ter sido posterior à das abelhas com língua curta e ocorreu no início do Terciário. Fósseis em bom estado de abelhas especializadas, com língua longa, são do final do Eoceno. Recentemente, um fóssil (Meliponinae) de 80 milhões de anos (Cretáceo) foi encontrado conservado em âmbar na América do Norte (Nova Jersey). Pela relativa escassez de registros fósseis, a história evolutiva das abelhas ainda é de difícil determinação.
Muitas pessoas conhecem apenas alguns tipos de abelhas. Existem hoje cerca de 20 mil espécies de abelhas descritas. Para muitos pesquisadores, o número de espécies deve ser ainda maior, talvez o dobro do atualmente descrito. Esse pequeno, útil e dedicado inseto bíblico — a abelha — terminou por nomear pessoas e lugares: Abelardo, Ápio, Débora (hebraico: abelha), Dora, Dorite ou Dvorith (hebraico: enxame de abelhas), Ferrão e Melissa (grego: abelha), além de inúmeros nomes e topônimos de origem tupi ligados às espécies nativas e às suas índoles, como Exu, Irani, Guaxupé, Guarapú, Jandira, Jandaia, Jati, Jataí, Jateí, Mandaçaia, Manduri…
Para um mito antigo, muito disseminado entre os povos do Mediterrâneo, incluindo Israel, as abelhas nasciam dos cadáveres em putrefação. Aristóteles assinala a presença, a dança das abelhas no ventre dos touros mortos, como uma manifestação de alegria. No sertão do Nordeste, tive a oportunidade, várias vezes, de observar enxames de abelhas instalados no tórax de carcaças de bois, cavalos e muares, disputando o local com moscas e outros insetos.
Em ambientes desmatados e degradados, principalmente nas regiões áridas, os novos enxames de abelhas têm dificuldade para encontrar locais com as dimensões e características adequadas para sua instalação (troncos de árvores, fraturas em rochas…). Enxames expulsos ou recém-formados vivem em movimento, percorrem grandes distâncias, procuram um lugar para alojar-se. Acabam utilizando locais inesperados, como a carcaça de animais. Muitas vezes, cada costela orienta, como uma viga, a construção de um luminoso favo com seus alicerces nos céus. O espetáculo é paradoxal: a morte dando nascimento à vida.
Através de Sansão, num relato terapêutico do livro de Juízes (14,5-9), a violência do leão é transmutada na doçura do mel, pelo elemento feminino e pelo trabalho das abelhas. O mito mediterrânico sobre a origem das abelhas em carcaças animais e o episódio mítico de Sansão evocam a vitória do amor sobre as pulsões de morte. É necessário aniquilar em si as pulsões instintivas, necrófilas, destruidoras, para encontrar o amor. Morrer para o ego, pelo caminho da doação, para gerar vida amorosa, doce e misteriosa.
Governos costumam apoiar a apicultura apenas como complemento de renda — uma atividade secundária, relegada ao “fundo do quintal” das propriedades rurais. Isso não basta. O Brasil e sua agricultura precisam de mais, melhores e verdadeiros apicultores. E governantes. Abelhas não faltam. Nem apreciadores de mel.

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Lindo o trabalho delas
Tenho alfazema no meu quintal e elas estao em volta das plantas de maneira incansavel. Nao tinha ideia da produçao de mel de Brasil
Agora ja sei tudo, graças ao Prof Evaristo
Excelente Artigo! Parabéns!
Uma aula, como sempre.