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O âncora da CBS News, Walter Chronkit, conduz uma entrevista exclusiva com Daniel Ellsberg sobre Pentagon Papers (23/6/1971) | Foto: David Marlin via ZUMA Wire/Reuters
Edição 326

Imagem da Semana: Pentagon Papers

Como a revelação dos documentos secretos sobre o Vietnã desencadeou uma crise de confiança, uma batalha judicial pela imprensa, culminando no escândalo de Watergate

No domingo do dia 13 de junho de 1971, os leitores do jornal The New York Times encontraram uma reportagem que abalaria a política americana. Baseado em milhares de páginas de documentos secretos do governo dos Estados Unidos, o jornal revelava uma história muito diferente daquela que sucessivos presidentes haviam contado ao público sobre a Guerra do Vietnã. Os relatórios ficaram conhecidos como Pentagon Papers (“Documentos do Pentágono”). 

Os papéis vazados tratavam de um estudo ultrassecreto encomendado pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos que analisava o envolvimento americano no Vietnã entre 1945 e 1967. Com cerca de 7 mil páginas, o relatório revelava que vários governos — dos presidentes Harry S. Truman, Dwight D. Eisenhower, John F. Kennedy e Lyndon B. Johnson — haviam ocultado informações do Congresso e da população sobre a dimensão real da guerra.

A fonte do vazamento foi Daniel Ellsberg, um ex-analista militar que trabalhou no estudo e, gradualmente, tornou-se crítico da guerra. Convencido de que o público estava sendo enganado, Ellsberg copiou secretamente milhares de páginas e as entregou à imprensa, além do New York Times; trechos também foram publicados por outros jornais, como o Washington Post.

Daniel Ellsberg, fonte dos Pentagon Papers, com sua esposa no edifício federal de Boston, 28 de junho de 1971 | Foto: Wikimedia Commons

A reação da Casa Branca foi imediata. O presidente Richard Nixon tentou impedir judicialmente a publicação dos documentos, alegando que a divulgação ameaçava a segurança nacional. O confronto chegou à Suprema Corte dos Estados Unidos, que decidiu, por ampla maioria, que o governo não poderia impor censura prévia aos jornais. A decisão tornou-se um marco histórico para a liberdade de imprensa.

Embora os Pentagon Papers documentassem decisões e omissões de governos anteriores e não tivessem como alvo direto a presidência de Richard Nixon, o vazamento alarmou profundamente sua equipe. Para ele, a publicação desse conteúdo demonstrava que segredos governamentais poderiam ser expostos ao público, colocando sua própria administração em risco. Temendo novas exposições, a Casa Branca criou uma unidade secreta — conhecida como Plumbers (“Encanadores”) — para conter vazamentos. Em setembro de 1971, integrantes desse grupo invadiram o consultório do psiquiatra de Ellsberg, Dr. Lewis Fielding, numa tentativa fracassada de obter material para desacreditá-lo. Esse foi o início de uma série de ações ilegais conduzidas por colaboradores do presidente.

A capa dos Pentagon Papers, que só foram divulgados na íntegra em 2011 | Foto: The National Archives and Records Administration

Os mesmos métodos clandestinos, a mesma cultura de espionagem política e a mesma disposição para ignorar a lei acabariam levando ao episódio que entraria para a história como Watergate. Em junho de 1972, membros ligados à campanha de reeleição de Nixon foram presos ao invadir a sede do Partido Democrata no complexo Watergate, em Washington. O que começou como uma tentativa de espionagem transformou-se em um dos maiores escândalos políticos da história americana.

As investigações posteriores revelaram uma extensa rede de abusos de poder, escutas ilegais e tentativas de obstrução da Justiça. Em agosto de 1974, diante da iminência de um processo de impeachment, Richard Nixon tornou-se o primeiro presidente dos Estados Unidos a renunciar ao cargo.

O episódio permanece até hoje como um dos exemplos mais importantes do papel da imprensa na fiscalização do poder e de como tentativas de encobrir a verdade podem produzir consequências ainda mais devastadoras do que a própria revelação inicial.

Primeira página do The New York Times de 13 de junho de 1971. A manchete principal destaca a primeira parte dos Pentagon Papers, um relato ultrassecreto da Guerra do Vietnã | Foto: Reprodução/NYT
Capas dos jornais The Washington Post e The New York Times com reportagens sobre os Pentagon Papers em 13 de junho de 1971 | Foto: Reprodução/The Washington Post

Daniela Giorno é diretora de arte de Oeste e, a cada edição, seleciona uma imagem relevante da semana. São fotografias esteticamente interessantes, clássicas ou que simplesmente merecem ser vistas, revistas ou conhecidas.

Leia também “Imagem da Semana: a coroação de Elizabeth II”

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1 comentário
  1. João Luiz Bosso
    João Luiz Bosso

    Reportagem muito esclarecedora.
    Foi um escândalo imenso na época, que terminou na renúncia de Richard Nixon. A imprensa teve um papel preponderante para tudo ser destrinchado.
    Comparando a nossa velha (ou velhaca) imprensa atual com a de lá quando do acontecido, o abismo de diferença é intransponível.
    A tupiniquim esconde em vez de revelar, para poder continuar usufruindo de benesses ($$$) e muito também, por ideologia.
    O Nixon daqui jamais renunciaria, tendo a proteção de outras duas instituições que comungam do mesmo princípio.
    O que houve depois do vazamento levou 40 anos para ser revelado por completo, em 2011. Por aqui há sigilo de 100 (cem!) anos para tudo, sendo que na Terra de Santa Cruz não há somente um escândalo. A limpeza vai necessitar de muita mudança. Podemos começar com a eleição de outubro próximo.
    A frase americana por excelência é: “Em Deus nós confiamos”; a brasileira deve ser: “Deus nos ajude”.

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