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Senador Flávio Bolsonaro, jornalista Paulo Figueiredo, ex-deputado Eduardo Bolsonaro e o presidente Donald Trump | Foto: Reprodução/Redes Sociais
Edição 326

Incompetência ou má-fé?

Parte dos jornais e dos portais de notícias publicou uma inverdade sobre Eduardo Bolsonaro e o Pix. E não teve a grandeza de admitir o erro

De seu exílio nos Estados Unidos, Eduardo Bolsonaro chegava ao final de uma longa entrevista para a rádio TMC News, antiga Transamérica, na manhã do dia 3 de junho, quando o apresentador Felipe Bueno encaixou uma última pergunta.

Deputado, para terminar a nossa conversa, acho que vale a gente falar rapidamente sobre esse tema, que é um recado para o pessoal do “corre”, e de certa forma para todos os brasileiros, que é a questão do Pix. Muito se falou que as empresas de cartão de crédito americanas estão por trás desses questionamentos tarifários, dessas tarifas que vão vir, né? A briga vem do ano passado. O senhor sabe muito bem que isso estourou no ano passado. E voltou agora a discussão. O Pix está ameaçado?

A resposta de Eduardo teve duração de dois minutos porque foi precedida de uma contextualização política a partir da reunião que ele e seu irmão Flávio Bolsonaro, além do jornalista Paulo Figueiredo, tiveram no Salão Oval da Casa Branca com Donald Trump e, um dia depois, com o secretário de Estado, Marco Rubio, e o vice-presidente James David Vance.

Ex-deputado Eduardo Bolsonaro | Foto: Reuters/Jessica Koscielniak

— Felipe, isso daí nós fizemos um pedido aos americanos para que qualquer tipo de tarifa ou retaliação, nesse sentido comercial, que ela demorasse, que ela esperasse pelo menos até a eleição desse ano. Porque, se o Flávio Bolsonaro for eleito, teremos outra diretriz no governo federal.

Antes que o entrevistador o interrompesse para perguntar que outra diretriz seria essa, Eduardo foi explicando o que queria dizer que aconteceria na hipótese de uma vitória de seu irmão na eleição presidencial.

— O Flávio não vai na Casa Branca mentir ao presidente Trump e depois retornar ao Brasil e falar todo tipo de arbitrariedade. Ou fazer como Celso Amorim, que é quem hoje aconselha e comanda a política internacional brasileira, que depois de um encontro no Salão Oval de Trump com Lula disse, no Brasil, que agora os Estados Unidos aprenderam a lidar com o Brasil. Não é dessa maneira que você vai fazer política e evitar essas taxações.

A maneira certa, defendeu, seria a adotada por seu pai quando presidente.

— É o que eu falei sobre o Jair Bolsonaro. Quando Trump estava para taxar todo aço que chega nos Estados Unidos, o que que o presidente Jair Bolsonaro fez? Defendeu os empregos e o interesse dos brasileiros. Pegou o telefone e ligou para o presidente Trump. Expôs os seus argumentos, fez compromissos — e com Jair Bolsonaro dá pra você confiar; com Lula não dá pra você confiar, vide que ele promete que não vai censurar mais as empresas americanas e os brasileiros internautas, e quando volta ao Brasil ele cria um decreto revivendo o Ministério da Verdade, pra censurar as redes sociais. Então, Lula não é confiável. E esse foi o pedido que nós fizemos.

Até esta parte, quando novamente cita o pedido feito a Trump para evitar quaisquer tarifas sobre o Brasil antes do desfecho da eleição, Eduardo ainda não havia abordado diretamente a pergunta de Felipe Monteiro — “O Pix está ameaçado?”. Mas o fez em seguida, sem pausa.

— Agora, os Estados Unidos, né, têm mecanismos muito semelhantes ao Pix, como por exemplo, o Zelle. O Pix dos Estados Unidos, aqui, é o Zelle. Então dá pra você ir numa mesa de negociação com os americanos com bons argumentos. Dá pra você sentar. Dá pra negociar. Eles têm interesses onde as nossas economias se complementam, como por exemplo em terras raras… né? Manganês, que os Estados Unidos importam 100% do manganês e o Brasil é um grande produtor de manganês… Dá pra gente conversar e botar na mesa isso daí e tentar segurar um ímpeto de retaliação contra qualquer meio que a gente utilize aqui de pagamento.

Confesso que nem sabia desta entrevista, e só tomei a decisão de resgatá-la e examinar detidamente o seu conteúdo quando a polêmica invadiu meu celular com uma manchete do Correio Braziliense. “Eduardo Bolsonaro sugere trocar Pix pelo Zelle dos Estados Unidos”.

A partir de então, foi uma rajada. O site Brasil 247 e a Revista Fórum, alinhados ao lulopetismo, alimentaram a fogueira da celeuma nas redes. Deixei-os de lado, pelo interesse que têm em encampar as teses mais enganosas de Lula, como a de que Trump decidiu obrigar o Brasil a banir o Pix. 

Decidi, então, conferir o que trazia a imprensa especializada em finanças, economia e negócios. O jornal Valor Econômico, com seu silêncio, deu-me a impressão de que algo poderia haver de errado com a cobertura de tom alarmista. Fui adiante acessando a Revista Exame, referência histórica em matéria econômica, fundada pela Editora Abril e, desde 2020, sob controle do Banco BTG: “O que é o Zelle, o sistema de pagamento instantâneo dos EUA defendido por Eduardo Bolsonaro”.

Consultei o Infomoney, outro serviço de informação especializado, e também pertencente a uma instituição financeira, a XP: “Eduardo Bolsonaro sugere trocar Pix pelo Zelle, ferramenta de pagamento dos EUA”. Quando eu já encerrava minha varredura, eis que recebo um alerta do Portal Metrópoles, com mais do mesmo: “Eduardo Bolsonaro sugere que Brasil troque Pix por Zelle”.

Àquela altura, tudo parecia muito consistente — até o momento em que se tentava ver se o título e o conteúdo das notícias eram compatíveis. Não eram. Ficava evidente o descasamento. As manchetes se mostravam assertivas, peremptórias. Mas os textos simplesmente divagavam, juntando farelos das declarações dadas por Eduardo e compondo um enunciado quase tão errático quanto um voto de Cármen Lúcia sobre liberdade de expressão.

Ainda no dia 4, Eduardo esbravejou no X contra o que considerou “patifaria” da imprensa, desafiou os veículos a exibirem o vídeo de sua entrevista e exigiu retratação. “Eu absolutamente jamais disse isso [defesa da substituição do Pix]. Desafio a calar minha boca e mostrar um vídeo onde eu tenha dito algo nesse sentido.” Entre os alvos de sua irritação estava o jornal O Globo, que em suas páginas online publicou texto intitulado “Eduardo Bolsonaro sugere troca do Pix por sistema americano Zelle e vira alvo de críticas nas redes”.

Para saber quem fala a verdade, não é preciso mais do que três minutos, tempo suficiente para acompanhar a pergunta do entrevistador e a íntegra da resposta de Eduardo Bolsonaro. Foi o que fiz, e o resultado está literalmente reproduzido na abertura deste artigo, palavra por palavra.

A conclusão elementar, e de uma obviedade que chega a ser constrangedora para profissionais da notícia, é que parte dos jornais e dos portais de notícias, por incompetência ou má-fé, publicou uma inverdade sobre Eduardo Bolsonaro e o Pix. E não teve a grandeza de admitir o erro, o que, aliás, é um velho cacoete da imprensa.

Uma louvável exceção é o portal Poder360. Referência de equilíbrio no jornalismo brasileiro, o site dirigido por Fernando Rodrigues não é — ninguém é — imune a erros, tanto que embarcou no equívoco ao publicar o texto “Eduardo Bolsonaro propõe substituir Pix por sistema dos EUA”. Mas ainda no final da noite de 4 de junho, o veículo divulgou uma nota de correção para deixar claro a seus leitores que, diferentemente do publicado anteriormente, o ex-deputado não sugeriu a substituição do Pix pelo Zelle.

Foto: Reprodução/Poder360

Um sinal evidente de que parte das redações brasileiras está consciente de que se precipitou — para dizer o mínimo — é que as edições impressas dos jornalões evitaram estampar, preto no branco, a invencionice que correu pelas redes. Até mesmo O Globo pisou no freio e não imprimiu a tresloucada versão dada ao assunto por sua edição digital.

A empáfia da velha imprensa, sempre pronta a enaltecer a virtude do autoproclamado “jornalismo profissional”, ficou exposta neste episódio. Curiosamente, um dia antes da disseminação de notícia falsa sobre Eduardo Bolsonaro e o Pix, a ladainha de que só o tal “jornalismo profissional” salvará a sociedade foi entoada com pompa no Gilmarpalooza, como é conhecido o festival de lobby travestido de fórum jurídico que o ministro Gilmar Mendes promove anualmente em Lisboa.

No dia 2 de junho, Gilmar e seus convidados assistiram a uma aula magna ministrada pelo jornalista Thomas Friedman, o influente colunista do New York Times. Friedman foi contratado para dizer o que o decano do STF, e seu colega de Corte, Alexandre de Moraes, queriam ouvir. O STF, que mantém Filipe Martins na prisão por uma viagem que não fez e uma reunião da qual não participou, gosta de posar de paladino da verdade. E tem especial apreço por elogiar a imprensa tradicional — cordata com os abusos do Tribunal — ao mesmo tempo em que atribui ao meio digital e às redes sociais a promoção da mentira e da manipulação.

Friedman não os desapontou. Contou que não usa redes sociais, exortou a plateia a seguir seu exemplo e até mesmo a tirar os filhos das redes. Disse que as redes sociais são inimigas da verdade e da confiança.

Vinte e quatro horas depois, com a distorção grosseira que praticou contra Eduardo Bolsonaro, parte do “jornalismo profissional” avocou para si o chapéu desonroso que Thomas Friedman compôs para definir as redes.

Leia também “Contagem regressiva das tarifas”

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4 comentários
  1. Carlos Gilberto Fraga
    Carlos Gilberto Fraga

    Embora não se possa generalizar, há muito tempo o jornalismo “raiz” deixou de existir no Brasil. O ativismo e o enriquecimento ilícito exemplificam isso. O País está atolado num mar de corrupção e de insegurança jurídica e a imprensa faz parte, assisti e corrobora com isso. É o mal se sobrepondo ao bem.

    1. Eugênio Esber
      Eugênio Esber

      A imprensa, Carlos, está excessivamente dependente do financiamento oriundo de grupos de pressão – principalmente atores políticos e, com ênfase ainda maior, de governos.

  2. Joaz Santana Praxedes
    Joaz Santana Praxedes

    Excelente comentário, caro Eugênio.. Eu só alteraria o título: Incompetência e má-fé.

    1. Eugênio Esber
      Eugênio Esber

      Em veículos líderes, que têm estrutura de redação suficientemente robustas, vejo má fé, Joaz. Em veículos menores, ou que negligenciam o rigor que deve ser aplicado à apuração, o caso pode ser de incompetência.

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