Uma publicação chamada Dezeen, que se descreve modestamente como “a revista de arquitetura, interiores e design mais influente do mundo” — com 3 milhões de leitores mensais e 7 milhões de seguidores nas redes sociais —, destacou recentemente um novo edifício em São Paulo: o Valente, em Pinheiros. Não posso falar pelos outros, mas, em mim, o prédio causa uma sensação de pura ansiedade.

Imagino que os arquitetos não o desenharam à mão, mas o projetaram por computador. Ninguém teria concebido aquilo através de um simples desenho: estruturas bizarras exigem computadores para sua concepção, design e construção. E as máquinas libertam os arquitetos das amarras das regras. Isso, sem dúvida, eles consideram algo excelente, mas a mim lembra um trecho do panfleto The Tenure of Kings and Magistrates, de John Milton:
“Só os homens de bem podem amar vigorosamente a liberdade; os demais não amam a liberdade, mas a licença…”
Tais arquitetos são como escritores que desejam se livrar dos supostos grilhões da gramática, sem entender que as regras gramaticais são a precondição para a liberdade de expressão, e não sua inimiga.

Ocorre que a arquitetura é uma arte e um ofício público e social; não é algo que possa ser apreciado ou repudiado na privacidade de um escritório. A arquitetura, pelo menos nas cidades, é necessariamente uma imposição ao público, que não tem como evitá-la. Ela não é como a pintura, que pode ser contemplada ou não, dependendo do gosto do indivíduo. Portanto, enquanto um artista ou escritor tem o direito ao experimento fracassado, um arquiteto não tem tal luxo. Ele deve tornar seu edifício agradável aos olhos logo à primeira vista; não há margem para erro.
Penso que o edifício ilustra um pouco da patologia que acomete a profissão arquitetônica moderna — no mundo inteiro. É óbvio para mim que os arquitetos desta obra dedicaram-se com afinco para alcançar a originalidade — isto é, a originalidade como um fim em si mesma, independentemente de qualquer outra qualidade. Ter feito o que ninguém jamais fez: esse é o objetivo de tantos arquitetos que desejam se destacar aos olhos do público.
Mas este é um objetivo puramente egoísta. É claro que ninguém é contra a originalidade por si só. Em certo sentido, dada a singularidade de cada ser humano, somos todos originais. Mas a originalidade artística só tem valor quando a obra tem outras qualidades que fazem sua construção valer a pena. Não basta criar algo sem precedentes ou sem paralelo. O grande arquiteto Antoni Gaudí foi genial não porque era original, mas porque, em sua originalidade, criou edifícios de valor transcendente. Um prédio construído de manteiga congelada seria certamente único, mas não teria valor apenas por ser único.

Certa vez, em Paris, minha esposa e eu alugamos um apartamento em um prédio construído por volta de 1890. O edifício era único porque não era idêntico a nenhum outro. Mas era evidente que ele fora projetado não para se destacar da paisagem urbana, mas para se integrar a ela. Em essência, era civilizado — e isso valia para todos os outros prédios ao redor, únicos de modo sutil, sem berrar por atenção.
Em cada um desses edifícios, acima e ao lado da entrada, havia uma pequena placa com o nome do arquiteto e a data da construção. E isso pareceu-me apropriado, tanto pela modéstia quanto pela justa e merecida preservação da memória.
Novamente, é óbvio que o edifício Valente não foi projetado para se misturar a nada (não que São Paulo, apesar de seus outros méritos, seja uma cidade de grande beleza — e espero que me perdoem por dizer isso). Pelo contrário, ele foi feito para atrair os olhos do observador, independentemente de qualquer outra qualidade que o tornasse agradável: a beleza, por exemplo.

O artigo da revista sobre o edifício Valente traz, naturalmente, descrições:
“[O conceito do edifício] baseou-se em uma ocupação tridimensional do espaço corporativo, com unidades triplex e duplex que permitem arranjos espaciais muito diferentes dos encontrados tipicamente no mercado, altamente adaptáveis às necessidades dos ocupantes.“
Alguém poderia se perguntar como seria um espaço corporativo que não fosse tridimensional, mas deixemos isso passar.

Outro trecho diz:
“Devido às regulamentações de varandas e à intenção de criar layouts variados, surgiu a volumetria distinta do edifício, com volumes profundamente trabalhados e esquadrias que definem a esquina.“
Confesso que o significado de “volumes profundamente trabalhados e esquadrias que definem a esquina” não é imediatamente óbvio para mim, mas claramente as palavras se pretendem descritivas de alguma forma.
O arquiteto principal foi citado dizendo:
“Nossa intenção com o Valente foi criar um lugar onde as pessoas pudessem viver, trabalhar e se movimentar com maior facilidade. Queríamos um projeto que simplificasse a vida cotidiana, ao mesmo tempo que abrisse novas possibilidades de interação e uso do espaço urbano.“

Qualquer pessoa que leia as declarações de arquitetos modernos sobre seu trabalho reconhecerá nelas a tendência à verborragia, bem como ao egoísmo (nenhuma menção ao que o cliente queria), a frases de efeito que pouco ou nada significam, ou que apenas sugerem um sentido sem o alcançar de fato. O que, por exemplo, contaria como evidência de que o edifício tenha aberto “novas possibilidades de interação e uso do espaço urbano”? São palavras proferidas por si mesmas, assim como o edifício é original pela própria originalidade.
Mas o que mais chama a atenção no artigo da Dezeen não é o que ele diz, mas o que ele omite. Não há julgamento nenhum sobre a qualidade estética do edifício, seja boa ou má. É como se a estética simplesmente não tivesse importância. Não diz se é belo, feio ou qualquer outro adjetivo entre os dois.

Considero isso revelador por duas razões. A primeira é que não há nada como o julgamento estético para expor uma pessoa ao deboche dos ditos “sofisticados” — e hoje em dia todo mundo quer ser referência em sofisticação. Melhor, portanto, é evitar o julgamento estético se você quer ser visto como alguém sofisticado.
A segunda razão é que, se alguém julgasse a estética, isso poderia levar à conclusão de que o modernismo e seus sucessores foram um desastre estético para a humanidade. Uma vez que não se pode desfazer o que foi feito, esta é uma ideia profundamente perturbadora, para não dizer desesperadora. Livre-se dela, custe o que custar!
Theodore Dalrymple é pseudônimo do psiquiatra britânico Anthony Daniels. É autor de mais de 30 livros sobre os mais diversos temas. Entre seus clássicos (publicados no Brasil pela editora É Realizações) estão A Vida na Sarjeta, Nossa Cultura… Ou o que Restou Dela e A Faca Entrou. É um nome de destaque global do pensamento conservador contemporâneo. Colabora com frequência para reconhecidos veículos de imprensa, como The New Criterion, The Spectator e City Journal.
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A arquitetura reflete o momento histórico de um povo . Esse edificio reflete bem o momento tenso , caotico , que despreza o belo , a verdade , a harmonia e a paz. Reflete um pais q perdeu o rumo .
Quando viajei para a China anos atrás o que mais me impressionou foi quantos prédios FEIOS haviam em Pequim. E eu realmente não conseguia o motivo daquilo.
Não é feio. É horroroso. E dane-se a sofisticação do julgamento estético.