Desde que Donald Trump impôs um cessar-fogo a Israel e ao Hamas em outubro de 2025, Gaza simbolicamente deixou de existir como espaço geográfico para se tornar um slogan. O Free Palestine, gritado em quase todos os continentes do planeta por turbas enfurecidas semana após semana, em nada ajuda seus cidadãos. Estes, bem longe dali, vivem isolados do mundo, sob a sombra de um status quo ilusório que gera uma zona de conforto para todos ao seu entorno — principalmente o Hamas.
As promessas americanas de reconstrução estão longe de serem colocadas em prática. Os diversos órgãos lançados por Trump no início de 2026 não saíram do papel. O Conselho da Paz não foi formado na prática e as verbas bilionárias prometidas não foram liberadas. As Forças de Segurança que tomariam para si o papel de proteger a comunidade de Gaza nunca foram alocadas.

A Indonésia, um dos cinco países que se prontificaram a esse papel, suspendeu o envio dos 8 mil soldados prometidos assim que foi iniciado o novo conflito com o Irã. “Não observamos que exista um real compromisso americano com a paz”, divulgou o governo indonésio. O Hamas proibiu até mesmo a entrada do Comitê Nacional de Administração de Gaza — conhecido pela sigla NCAG —, um grupo apolítico palestino estabelecido em janeiro de 2026 para assumir a administração e os serviços públicos do enclave.
Todos os sinais mostram que, em lugar de caminhar em direção à recuperação, Gaza corre no sentido contrário.
Ruínas e impostos
Segundo reportagens publicadas na mídia israelense, o Hamas se fortalece a cada dia e reestabeleceu seu domínio sobre os cidadãos. Recuperou o controle de 14 das 25 cidades do território e, em sua área costeira, 14 de 17 escritórios estão operantes. O pagamento de salários e as indenizações para combatentes e suas famílias — chamado por Israel de pay for slain, ou “pagamento para matar” — foram retomados. Os recursos são provenientes em parte da Autoridade Palestina, da ajuda internacional e também dos impostos cobrados pelo Hamas sobre tudo o que se possa imaginar: serviços públicos, negócios particulares, uso de terras, água e até alimentos, mesmo que estes sejam enviados gratuitamente pela ONU (35% do total) e por organizações privadas internacionais (65%).
Segundo dados da ONU, 80% da estrutura de Gaza foi destruída, gerando aproximadamente 68 milhões de toneladas de entulhos. Esse não é o resultado apenas do bombardeio aéreo ou dos combates em terra entre o exército israelense e os terroristas do Hamas: a gradual destruição de mais de 600 quilômetros de túneis subterrâneos construídos pelo grupo sob áreas urbanas e instituições como hospitais, universidades e escolas teve seu custo. Metade dos 36 hospitais de Gaza, sob os quais estavam localizados quartéis-generais do grupo, está operando parcialmente, juntamente com novos hospitais de campanha.

Casos médicos graves são tratados no exterior. Pelo posto fronteiriço de Israel já passaram cerca de 2,5 mil palestinos. A única outra forma possível de deixar o território é pela passagem de Rafah, na fronteira com o Egito. No entanto, há um complicador: o país permite apenas uma “troca populacional”, o que quer dizer: para cada palestino que entra no Egito, um palestino sai. “Ironicamente, critica-se muito Israel, mas nada se fala pelo mundo sobre a condição imposta pelo Egito, que se recusa a abrir a sua passagem para permitir aos palestinos moverem-se livremente. Israel, alvo constante de ataques de Gaza, tem motivos para tanto — o Egito não”, aponta Kobi Michael, pesquisador sênior do Misgav Institute e do Institute for National Security Studies (INSS).
A reconstrução do Hamas
A maior parte da população está vivendo em tendas e, recentemente, a coleta de lixo foi reimplementada. Há baixíssima disponibilidade de serviços municipais, e as prioridades do governo do Hamas estão focadas em arregimentar novos combatentes — muitos deles são crianças que, assim, garantem alimentação às suas famílias —, renovar seu arsenal armamentista e recuperar, com violência e opressão, o controle civil das áreas que lhe restaram, que englobam cerca de 45% do total do território. Seus métodos e condutas têm pouco a ver com o que o mundo ocidental descreve como uma liderança governamental. “Não há regras ou leis”, explica Hadeel Hendi. “Há pouca coerência no Hamas”.


Hadeel é sírio-americana e editora-chefe da Jusoor News, uma rede de notícias online em árabe baseada em Nova York que conta com mais de 100 jornalistas distribuídos pelo mundo árabe em países como Iraque, Síria e Jordânia. Cerca de 35 jornalistas da Jusoor atuam em sigilo em Gaza com a missão, segundo Hadeel, “de dar voz àqueles que não corroboram com a narrativa do Hamas”. Uma das histórias mais marcantes trazidas pelo veículo nos últimos tempos trata dos abusos morais e sexuais cometidos por membros do Hamas contra mulheres, muitas delas esposas e filhas de palestinos mortos durante a guerra.
Uma economia sustentável, aspecto vital para qualquer nação independente, não existe em Gaza hoje, assim como não existia antes. “Ela sempre esteve baseada na ajuda humanitária, nos salários pagos pelo Hamas e pela Autoridade Palestina. E, nos últimos anos, também na renda dos milhares de habitantes de Gaza que cruzavam as fronteiras todos os dias para trabalhar em Israel — condição que deixou de existir após o 7 de outubro”, explica Hadeel.

Este é o resultado colhido de um modelo que não permite que o território se transforme em uma nação minimamente normativa, já que sua existência é marcada por dois desvios importantes. O primeiro deles é também um paradoxo inexplicável: apesar de a maioria absoluta de sua população atual ter nascido em Gaza, 71% dos habitantes da Faixa são considerados pela ONU como refugiados. É um caso único entre as nações do globo.
O outro desvio é que os gazanos vivem sob um governo que cultiva uma ideologia destrutiva, à qual subordina todas as suas decisões: vale tudo para destruir o vizinho Israel, e o preço da guerra deve ser pago pela população. Preterir as necessidades mais básicas dos cidadãos em prol da construção da maior rede de túneis terroristas da história, ou usar o próprio povo como escudo humano após atacar um vizinho poderoso, explica em boa parte o terrível destino vivido hoje pelos palestinos em Gaza. Os quais aguardam, neste momento, a retomada da guerra. “A população está consciente de que isso acontecerá em breve, uma vez que o Hamas insiste em se manter no poder”, comenta Hadeel.
Popularidade em alta
Mesmo após sujeitar seu povo a tamanho desgaste, a popularidade do Hamas continua forte. Entre os palestinos de Gaza e da Cisjordânia, o grupo terrorista tem 60% de apoio da população, segundo pesquisa realizada em outubro de 2025 pela agência palestina de pesquisas Palestinian Center for Policy and Survey Research (PCPSR), conduzida tanto na Faixa quanto na Cisjordânia. O levantamento mostra que a maioria da população rejeita o conceito de uma governança internacional, mas aceitaria um comitê tecnocrático — desde que as forças de segurança do Hamas permanecessem intactas.
Mais ainda: também segundo a pesquisa do PCPSR, 55% dos palestinos de Gaza não concordam que o Hamas entregue as armas, mesmo que esta seja a principal condição para o fim da guerra.
A editora-chefe da Jusoor relata que existe internamente uma pequena força de resistência, mas as poucas tentativas de protestos foram duramente reprimidas pelo Hamas e não se repetiram. Neste mês de junho, dissidentes têm realizado chamadas ao povo pelas mídias sociais, na tentativa de organizar uma grande passeata. As chances de ela realmente ocorrer são mínimas. “É preciso lembrar que o Hamas é brutal não apenas fora de Gaza”, afirma Hadeel.
Samer Sinijlawi, ativista político palestino com mestrado em Resolução de Conflitos pela Universidade Hebraica de Jerusalém, afirma que, embora não haja espaço na sociedade palestina para as vozes moderadas, elas existem. “Muitos estão desesperados por encontrar um líder mais enérgico e moderado, que crie uma nova dinâmica com os israelenses”, acredita.
O lado israelense
Depois de quase três anos da guerra mais longa enfrentada por Israel, iniciada pelo pior pogrom contra judeus desde o Holocausto, os israelenses precisam de um enorme esforço para visualizar um futuro luminoso para Gaza. “O cansaço não é exclusivo de Israel, mas de todos os atores que buscam avançar na implementação do ‘Plano de Vinte Pontos’ para a reconstrução da Faixa de Gaza, apresentado pelo presidente Trump”, argumenta o pesquisador Kobi Michael.
O plano, divulgado pela administração americana em janeiro de 2026, prevê a desmilitarização da Faixa, a criação de um comitê tecnocrático palestino para assumir a administração civil, o envio de forças de segurança internacionais e o aporte de bilhões de dólares para a reconstrução, com participação de países árabes do Golfo e do Ocidente. Sua implementação, no entanto, esbarra na recusa do Hamas em se desarmar.
Michael descreve que, mesmo com o cessar-fogo, Gaza vive em um certo estado de guerra. “Isso é resultado das correntes violações do cessar-fogo por parte do Hamas, às quais Israel responde com grande agressividade, buscando degradar as capacidades militares do grupo.” Esses embates constantes levaram as Forças de Defesa de Israel (FDI) a aumentar a área sob seu controle, dos 53% iniciais para os atuais 65%. Nessa área, o exército continua o trabalho de destruição da rede de túneis e de remoção de entulhos. Cerca de 5% da população de Gaza está vivendo nessa área: fazem parte dos clãs que cooperaram com Israel durante a guerra.

O Hamas está renovando sua indústria de armas local usando tudo o que restou da guerra e agregando explosivos das FDI que não funcionaram. Conta também com algumas tentativas bem-sucedidas de contrabando de explosivos e peças, trazidos escondidos em caixas de ajuda humanitária, e com uma novidade: o uso de drones operados por beduínos que, seja do deserto israelense do Negev, seja do Sinai egípcio, conseguem enviar armas e explosivos para o outro lado da fronteira.
“Incrível constatar que, mesmo depois da duríssima guerra travada na região, o Hamas ainda seja a maior força política entre os palestinos — não apenas em Gaza, mas ainda mais em Jerusalém Oriental e na Cisjordânia”, observa Michael. Essa posição lhe inspira ousadia para recusar-se a desmontar sua estrutura armada, mas é alimentada por uma circunstância muito maior. “O Hamas sabe que a administração Trump é temporária. Eles acompanham as negociações com o Hezbollah e acreditam que o Irã sairá bem dessa história — e, portanto, os proxies se fortalecerão novamente, e o Hamas poderá permanecer exatamente onde está”, explica Michael.

Essa é justamente a situação que Israel luta para evitar e, para combatê-la, colocará novamente seus soldados no campo de batalha. “Se quisermos estabilizar a região, precisamos enfraquecer o eixo de resistência do Irã e desmobilizar o Hamas”, analisa Michael. “E é óbvio que não há outro ator além das FDI que seja capaz e adequado para desarmá-lo — muito embora essa compreensão não seja expressa publicamente. Para os palestinos de Gaza, essa é a única oportunidade de futuro que existe. Logo nos veremos em outra campanha militar contra o enclave, e ela acontecerá antes do fim da guerra com o Irã, que será longa.”
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Ótima matéria!
Realmente não será fácil a reconstrução! Enquanto a população continuar refem do Hamas, é difícil prever alguma melhora.
Acredito que o Hamas não tem no momento nem condições financeiras para se reerguer de fato. Apenas continua cometendo atrocidades contra sua própria população na Palestina como sempre. Vivem sob as leis e regras da Sharia. Um país mito difícil, vive há anos sem liberdade .