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Pelé contra a Suécia em 1958 | Foto: Wikimedia Commmons
Edição 326

Seleção Brasileira: quem viu, viu

O sentimento amador de defender um país inteiro se diluiu com o tempo. A Era Pelé é um tratado de patriotismo, sem ufanismo nem pieguice. Não pretendia ser, apenas era

Dentre as maravilhas tecnológicas da modernidade, essa proverbial biblioteca chamada YouTube opera milagres. Quem gosta de futebol (mais do jogado que do falado) tem sido agraciado com viagens mágicas. De lance em lance, de jogo em jogo, você pode ir parar em epopeias que só conhecia de ouvir falar.

Por décadas, só era possível conhecer as façanhas da seleção de 1958, por exemplo, através de fragmentos. Tínhamos as crônicas de Nelson Rodrigues sepultando o complexo de vira-latas e exaltando o “príncipe etíope” (Didi). Tínhamos aqueles mesmos (poucos) lances de Pelé e Garrincha repetidos ao infinito em filmes de baixa qualidade. E as colagens de memórias transmitidas oralmente pelos que tinham vivido a época.

De repente, outro dia mesmo, surgiu um clarão sobre tudo isso. Sem mais nem menos, a plataforma sugeria o jogo completo da final na Suécia. O quê? Como assim? Isso existe?

Era uma emenda de um trecho filmado por uma rádio sul-americana, com outro trecho registrado por uma equipe sueca e narrados de forma descontínua por profissionais de nacionalidades diferentes. Mas lá estava o jogo inteiro (em qualidade de vídeo bastante razoável): Brasil 5 a 2 na Suécia, campeão do mundo pela primeira vez.

Só que agora não era mais a costura de manchetes e brados histriônicos dos locutores da época. Era a realidade intacta, como que escavada num sítio arqueológico e trazida à luz em perfeita reconstituição.

O Didi do Nelson Rodrigues era poético. Mas o Didi real, jogando bola 90 minutos diante dos seus olhos, é algo… mais poético ainda. E o Nilton Santos, o Zagalo… Você até entende por que o Zagalo virou técnico (e levou a seleção a conquistar a taça Jules Rimet, 12 anos depois). Se movimentava por uma faixa de campo mais ampla que os demais, num completo sentido tático de organização da equipe

Só que o YouTube não parou por aí. Sugeriu a final contra a Tchecoslováquia em 1962: Brasil bicampeão no Chile — jogo na íntegra! E dessa vez a qualidade do filme era melhor ainda. Impressionante a reconstrução desses registros. Agora sim, dava para entender por que Amarildo era “o possesso”.

O substituto de Pelé disputava cada palmo de campo com uma gana até incômoda — porque não raro sobrava sarrafo para o adversário mais próximo. E aí o possesso virava o pacífico — e ia gentilmente consolar o agredido. Pérolas só captáveis na exibição completa do jogo.

O espírito de Amarildo não existe mais. Não há nada nem parecido no futebol de hoje. Não que não haja dedicação, entrega etc. Mas o tal coração na ponta da chuteira é outra conversa. De fato, o sentimento amador de defender um país inteiro se diluiu com o tempo. A Era Pelé é um tratado de patriotismo — sem ufanismo nem pieguice. Não pretendia ser — apenas era.

E era de um jeito pitoresco. Os gênios erravam muito. A quantidade de jogadas infelizes de Pelé era significativa. Obviamente residual perto da fartura de obras-primas produzidas a cada jogo. Mas havia uma espécie de licença para o erro.

Garrincha tentava driblar seus adversários absolutamente todas as vezes que recebia a bola. Seria “irritante” para os padrões atuais — até porque, assim como ocorria com Pelé, a coisa muitas vezes dava errado. Mas assistir aos erros dos gênios — como essas partidas na íntegra permitem — parece valorizar ainda mais a sua genialidade. Nas antologias, eles são sobre-humanos. Na realidade sem cortes, eles são humanos — ou seja, maiores ainda.

Hoje há uma infinidade de jogos completos da seleção na Era Pelé acessíveis pelo YouTube. Bellini, Zito, Gerson, Rivelino… Veja com seus próprios olhos o que é fazer história com salários módicos, sem status de influenciador e sem cabeleireiro particular no vestiário.

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8 comentários
  1. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Quem teve o prazer de assistir uma seleção digna do futebol brasileiro não assistiu o primeiro jogo da atual seleção contra o Marrocos,é decepção e decepção. Não assisti o jogo. e nem irei assistir os próximos.No meu bairro aqui em São Paulo Pinheiros constatei um silêncio profundo dos moradores, silêncio de tristeza.

  2. Vanessa Días da Silva
    Vanessa Días da Silva

    A ultima seleção que realmente gostei foi a de 82, sem tirar o merito das conquistas de 94 e 2002, mas era um estilo mais agradável

  3. Ana Cláudia Chaves da Silva
    Ana Cláudia Chaves da Silva

    A seleção brasileira vive de passado, não tem mais o brilho de antigamente, os jogadores só se preocupam em postar vídeos, receber likes, ganhar muito, mas muito dinheiro. Hoje em dia impera o individualismo, ninguém quer saber de jogar em equipe, é cada um por si.
    Pra completar, agora tem a praga das bets, que manipulam resultados e nos fazem desacreditar da lisura dos resultados.

  4. Isa Maria Borba
    Isa Maria Borba

    Antigamente os homens jogadores vestiam a camisa do Brasil, hoje não sabem nem a letra do Hino Nacional.
    Como diz o Boris Casoi, : Isso é uma vergonha 🫣

  5. Jorge Alberto de Oliveira Marum
    Jorge Alberto de Oliveira Marum

    Quando Fiuza deixa de lado o excesso de ironia, seu brilho aparece.

  6. Luiz Americo Lisboa Junior
    Luiz Americo Lisboa Junior

    Em 1958, 1962 e 1970 principalmente, não desmerecendo as conquistas de 1994 e 2002, tínhamos 11 homens em campo e 11 no banco, gênios sem frescuras e patriotas, com um único objetivo, vencer as Copas e foi o que eles fizeram com a ajuda da comissão técnica principalmente de Zagallo em 1970 vibrando junto com o time orgulhosos da camisa canarinho, o Brasil falava mais alto. Hoje nem técnico temos, mudaram a camisa e o nome, decadência woke, que porcaria! Em campo jogadores medíocres e lacradores, mais preocupados com grana, likes e frescuras mil do que jogar bola. As Seleções campeãs representavam o Brasil, a atual é o espelho da nossa decadência.

  7. Eduardo Fleming Coutinho
    Eduardo Fleming Coutinho

    É isto ai! Nesta copa, nem estou assistindo. Nao considero a seleção atual e nem a anterior, como nacional. Uma vez que a maioria dos jogadores, não jogam no Brasil. Fazem parte de equipes de outros países , ganham milhões, diferente daques jogadores anteriores , aqueles sim, suavam a camisa pela Pátria . Hoje, mercenarios. Até técnico é estrangeiro , não confiam nos brasileiros . É isto , Brasil não nos pertence mais.! Eletricidade chinesa , portos chineses, agua italiana/espanhola. Mandamos materia prima não processada e compramos os mesmos nossa matéria prima processada. E assim vai…

  8. João Luiz Bosso
    João Luiz Bosso

    Fiúza, isso é fantástico! Como seu artigo.
    Eu não tinha conhecimento dessa maravilha da tecnologia.
    Obrigado, agora poderei ver o que não dava nem pra imaginar. Valeu!

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