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Keiko Fujimori e Alexandre de Moraes | Foto: Montagem Revista Oeste
Edição 327

A eleição peruana, a urna brasileira e o gol contra de Moraes

Ministro encomenda um vexame para o judiciário e para o sistema eletrônico de votação do Brasil ao pedir extradição do presidente do Instituto Voto Legal

Quando a contagem de votos no Peru mostrou Keiko Fujimori à frente do esquerdista Roberto Sánchez por míseros 561 votos (50,002% ante 49,998%), um pensamento perturbador passou pela cabeça dos brasileiros: e se algo assim acontecer no segundo turno da eleição presidencial que oporá Lula e Flávio Bolsonaro, no dia 25 de outubro?

O desconforto é mais do que justificado. No Peru, é possível fazer a recontagem manual das cédulas, um recurso fundamental no caso de um pleito decidido por um punhado de votos. Já o Brasil adota um sistema puramente eletrônico de votação, modelo que o mundo inteiro rejeita por estabelecer uma cortina de ferro que prejudica a necessária transparência do processo de apuração. O eleitor aperta uma tecla e… confia. Seu voto, no mundo físico, não existirá e, portanto, não poderá se recontado em caso de necessidade. Não de um jeito que o povo entenda e possa acompanhar, à vista de todos.

A contagem que colocou Keiko Fujimori à frente por uma margem mínima ilustra a importância da recontagem manual que o Brasil rejeita | Foto: Shutterstock

Antes que Alexandre de Moraes e outros fanáticos da seita da infalibilidade das urnas eletrônicas comecem a salivar de cólera ao ler este texto, sugiro que procurem a razão que levou o Tribunal Constitucional Federal da Alemanha a vetar a adoção de um sistema idêntico ao do Brasil. A razão se chama Offentlichkeitsgrundsatz — o princípio de que todas as fases de uma disputa eleitoral devem estar sujeitas à verificação pública, de tal modo que o cidadão comum, que não tenha conhecimento de informática, software e outros quejandos tecnológicos, possa entender por que o candidato dele ganhou e, principalmente, por que perdeu. Tudo aberto, às claras, de forma legítima.

Até recentemente, o opaco sistema eleitoral brasileiro tinha a companhia de dois países. Butão e Bangladesh formavam com o Brasil o BBB das maquininhas que não oferecem um comprovante impresso do voto, para conferência do eleitor. Agora, o trio se desfez. No ano passado, a Comissão Eleitoral de Bangladesh decidiu que o país vai cair fora do sistema, diante da torrente de críticas e suspeitas sobre as Electronic Voting Machines e pedidos de volta das cédulas de papel.

Mas resta um, e graças ao Butão o Brasil não ficou totalmente isolado em sua insistência com o sistema que a Polícia Federal, após a contestada eleição de Dilma Rousseff em 2014, concluiu não permitir que se faça uma auditoria externa independente e efetiva.

A contestada vitória de Dilma Rousseff em 2014 levou a Polícia Federal a atestar a impossibilidade de auditar o sistema eleitoral brasileiro | Foto: Wikimedia Commons

Registre-se que um outro país cogitou seriamente seguir os passos do TSE. Refiro-me à Namíbia. Mas as autoridades judiciais de lá logo concluíram que o voto, mesmo eletrônico, precisaria ser verificável em papel. Foi o fim da experiência no país africano.

Nada muito diferente do que aconteceu em anos passados no Paraguai, no Equador, no México, na Costa Rica e em outros países aos quais o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ofereceu sua maravilha tecnológica. Todos flertaram, mas não casaram com “Pilili”, a infantil figura que o TSE criou no Brasil para simbolizar a urna eletrônica com uma aura de meiguice que tenta esconder a natureza autoritária da juristocracia que a enfia goela abaixo dos brasileiros.

A mão pesada de Alexandre de Moraes para asfixiar qualquer questionamento ao escrutínio eleitoral de 2022 foi sentida até por figuras pouco contundentes no debate político, como o economista Marcos Cintra. Ex-secretário da Receita Federal no governo de Jair Bolsonaro, Cintra publicou no X o entendimento de que o TSE precisaria verificar o que aconteceu com numerosas urnas que deram 100% dos votos para Lula e um rotundo zero para Bolsonaro. Esta situação ocorreu em 143 urnas. Cintra, com toda suavidade, levantou a questão em sete tuítes. Passou longe de afirmar, sequer sugerir, dolo ou fraude.

Pouco importa: foi abalroado pela máquina de repressão de Moraes, que determinou a abertura de inquérito por “desinformação” e “ataque às instituições democráticas”, além de bloquear a conta do professor da FGV no X e ordenar que prestasse depoimento à Polícia Federal em 48 horas. Cintra teve que dobrar os joelhos e fazer uma “retratação” para debelar a ira do ministro e, assim, livrar-se do inquérito.

Moraes participa da cerimônia de abertura do ano judicial no Supremo Tribunal Federal, em Brasília - 2/2/2026 | Foto: Mateus Bonomi/Agência de Fotografia/Estadão Conteúdo
Moraes ordenou inquérito e bloqueio das redes de Cintra após o economista pedir esclarecimentos ao TSE | Foto: Mateus Bonomi/Agência de Fotografia/Estadão Conteúdo

Sentindo-se inexpugnável, Moraes avançou em sua sanha obscurantista e deu um passo em falso ao mirar um alvo que pode trazer a ele, ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao processo eleitoral brasileiro um novo desgaste de alcance internacional. E justamente no ano em que o país se prepara para o embate entre Lula e Flávio Bolsonaro.

Trata-se do pedido de extradição de Carlos César Moretzsohn Rocha, que se refugiou no Reino Unido para escapar à condenação que sofreu nos processos farsescos da “trama golpista”. Sob a relatoria de Moraes, a primeira turma do STF condenou o engenheiro que fundou o Instituto Voto Legal a 7 anos e 6 meses de prisão por “organização criminosa armada” e “tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito”. Nem tente entender o que fez Carlos Rocha para merecer estas condenações, porque é inútil. É mais um caso em que Alexandre de Moraes pratica o exercício arbitrário das próprias razões, com a cumplicidade de uma turma de ministros que tem simplesmente carimbado suas decisões.

Formado em Engenharia Eletrônica pelo respeitado Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), Rocha entrou na mira de Moraes em 2022, quando assinou um preocupante relatório técnico sobre o funcionamento das urnas eletrônicas. Autoridade profissional ele tinha de sobra, inclusive sobre o processo eleitoral, especificamente. Afinal, foi um dos pais da urna eletrônica brasileira, desenvolvida em 1996. Chegou inclusive a requerer a patente do dispositivo de votação, mas não foi atendido diante da alegação de que o projeto do TSE contou com a participação, em certo grau, de outros atores e instituições, e não constituía, a rigor, uma inovação.

O PL, legenda pela qual o então presidente Jair Bolsonaro concorreu à reeleição, decidiu contratar Rocha para elaborar um relatório técnico sobre as maquininhas em que o voto é digitado, mas não deixa rastro em papel. O foco do estudo era a detecção de “desconformidades”. E elas apareceram.

Um dos criadores da urna eletrônica no Brasil, Carlos Rocha foi condenado após elaborar um relatório técnico sobre o sistema de votação | Foto: Reprodução/Youtube

Sem descer às minúcias técnicas dos achados de Rocha, pode-se dizer que os equipamentos de votação fabricados em 2009, 2010, 2011, 2013 e 2015, empregados na eleição, apresentaram uma anomalia no código de identificação da urna, o que, segundo o estudo, tornava impossível vincular o log à urna física correspondente. Portanto, não seria possível validar os resultados gerados por essas urnas antigas, que representaram 60% dos equipamentos utilizados no segundo turno. Somente os resultados das urnas fabricadas em 2020, que apresentaram código de identificação válido, poderiam ser validados.

Com base nestas conclusões, o PL sustentou perante o TSE que os votos das urnas antigas deveriam ser desconsiderados, o que levaria a uma nova totalização em que Bolsonaro venceria com 51%. Moraes indeferiu o pedido, condenou a coligação do PL a pagar uma multa de R$ 22,9 milhões por “litigância de má-fé” e enquadrou o relatório de Carlos Rocha como um elemento a alimentar a insatisfação popular que desembocou nos atos do 8 de janeiro.

Em 27 de dezembro, Moraes decretou a prisão domiciliar de vários condenados pela segunda turma do STF. A Polícia Federal não encontrou Carlos Rocha em seu endereço. O presidente do Instituto Voto Legal foi declarado foragido. Em março deste ano, o ministro pediu a extradição de Rocha ao Reino Unido. E este pode ter sido um gol contra.

Será muito difícil convencer os britânicos de que um engenheiro de prestígio, especializado em segurança da informação e sistemas que exigem alta confiabilidade, cometeu algum crime ao produzir um relatório técnico sobre o funcionamento de urnas eletrônicas no Brasil. Isto não é crime no Reino Unido, nem em nenhuma nação democrática. Menos ainda em um país que convive, sem surtos autoritários, com um debate sobre tecnologia eleitoral, e que até hoje não aceitou abrir mão da comprovação física do voto.

Muito provavelmente, o Reino Unido engrossará o rol de países que têm dito não à sanha persecutória de Alexandre de Moraes e do regime STF-PT. Mas há uma peculiaridade no caso de Carlos Rocha. Para se defender do pedido de extradição, é possível que traga à luz as anomalias técnicas que encontrou no funcionamento das urnas brasileiras de fabricação mais antiga, e que em boa parte serão utilizadas, outra vez, na eleição de 2026. Ainda que passem por um processo de revisão, trazem para o pleito brasileiro a sombra da dúvida.

Dúvida que pode ganhar repercussão internacional a depender do andamento do processo de extradição movido pelo Brasil junto ao Reino Unido. Pode ser, para Moraes, um constrangimento tão grande quanto sua falta de explicações para o contrato de R$ 129 milhões que sua mulher firmou com um banqueiro golpista que, horas antes de receber ordem de prisão, em 17 de novembro, enviou para o ministro uma mensagem em que perguntava: “Conseguiu ter notícia ou bloquear?”

O ministro Alexandre de Moraes participa da sessão plenária do STF um dia depois de concluir a ação contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e demais réus do núcleo 1 da suposta tentativa de golpe - 26/11/2025 | Foto: Ton Molina/FotoArena/Estadão Conteúdo
Alexandre de Moraes evita explicar o contrato de R$ 129 milhões de sua mulher com um banqueiro que o contatou horas antes de ser preso | Foto: Ton Molina/FotoArena/Estadão Conteúdo

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14 comentários
  1. Orlando Resque Duarte
    Orlando Resque Duarte

    Chamar as eleições brasileiras de “auditáveis” significa alterar o próprio conceito de auditoria.

    Em uma eleição, auditar é conferir se o resultado corresponde exatamente aos votos depositados pelos eleitores. Para isso, é indispensável que exista um registro independente dos votos, passível de recontagem.
    Uma eleição exige mais do que confiança. Exige a possibilidade de comprovação. Sem recontagem independente dos votos, não há como comprovar o resultado da eleição; há apenas a confiança de que o sistema funcionou corretamente. Confiança e auditoria não são sinônimos.”

  2. Lauro Patzer
    Lauro Patzer

    O brasileiro precisa sepultar de vez o dogma da infalibilidade do sistema eleitoral quanto ao meio e quanto a contagem. Basta partir da premissa que 57% da população perdeu a confiança, tanto no STF quanto no STE. Depois deste número, boa parte não sabe e apenas uma pequena minoria ainda confia (talvez a turminha de beneficiados pelas togas amigas). A velocidade da apuração não é argumento para sustentar a permanência das caixinhas sucatas. O povo brasileiro quer confiabilidade. Repito, confiabilidade. Basta lembrar as denúncias de Tagliaferro. Foram identificadas milhares de urnas com o problema de código, além das urnas nas quais um candidato não teve sequer um voto contrário. Foi essa inconformidade com houvesse a presença massiva em massa em Brasília no começo de janeiro de 2023, uma vez que o vencedor, não tinha sinais visíveis de apoio nas ruas. A resposta que os reclamantes tiverem, não foram explicações. Foram repressões. Resultou na montagem astuta de um golpe com infiltrados, causa do sumiço das imagens de quase duzentas câmeras. Lembrar a unilateralidade das eleições de 2022 é algo de arrepiar e que não podemos permitir em 2026, uma vez que, não há mais confiança no atual sistema eleitoral e muito menos ainda em determinados ministros que já deveriam estar afastados.

  3. Carlos Gilberto Fraga
    Carlos Gilberto Fraga

    Não sei por que o STF resiste tanto à auditoria das urnas. Isso só asseguraria obter a transparência que o sistema eleitoral requer. As alegações não se justificam. No mundo inteiro assim. Convenhamos, sem entrar no mérito da questão, o nosso Supremo está pisando na bola faz tempo.

    1. Eugênio Esber
      Eugênio Esber

      O ponto é este, Carlos. O que justifica a imposição, pela corte suprema, de um sistema que o mundo rejeita, e a mordaça imposta a milhões de pessoas que exercem o legítimo direito de questionar?

  4. Olavo Augusto Ribeiro
    Olavo Augusto Ribeiro

    É impossivel acreditar em “ urnas eletronicas” ! Pois se assim é, porque nao detonamos de vez este sistema inutil e fajuto, manipulado por bandidos togados ? Está passando da hora de fazer escorrer o sangue ruim destes bandidos togados.

  5. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    O voto auditavel é necessário e urgente nas eleições brasileiras, não é possível mais conviver com a insegurança. Ponto para a Alemanha, todo cidadão tem o direito de saber a verdade sobre seu voto, o sistema eleitoral brasileiro tem que ser revisto.

    1. Eugênio Esber
      Eugênio Esber

      Tua afirmação, Teresa, de que “o voto auditável é necessário e urgente”, expressa uma percepção que é generalizada entre os brasileiros. O mais incrível é que o TSE chegou a providenciar um protótipo de urna eletrônica com impressora acoplada, e a expôs, com orgulho, ao país. Mas, então, coisas estranhas se passaram, e chegamos a este ponto que hoje deploramos.

  6. Luzia Helena Lacerda Nunes Da Silva
    Luzia Helena Lacerda Nunes Da Silva

    Voto auditável já.
    Vamos panfletar todo o país com esse seu artigo impecavelmente bem escrito, e de utilidade pública.
    Sou sua super fã.
    Parabéns uma vez mais.

    1. Eugênio Esber
      Eugênio Esber

      Prezada Luzia: um dia, e espero que em breve, acertaremos o passo com o mundo e faremos as pazes com a transparência. As três palavras que inauguram tua manifestação – “Voto auditável já” – refletem, com a virtude da síntese, um anseio popular que há de tomar corpo em proporção e intensidade comparável ao grito de “Diretas já”. Muito obrigado pelas palavras de estímulo e, triste dizer nestes tempos obscurantistas, de encorajamento.

  7. Mariza
    Mariza

    Nada Democratico o sistema de votos de urnas eletrônicas sem impressão dos votos. Rola tanto dinheiro por Brasília, por que não incluir essa impressão? Qual o motivo? Isso precisa mudar!

    1. Eugênio Esber
      Eugênio Esber

      O motivo, Mariza, é nenhum. Ou melhor, existe e é inconfessável. Mas a história acabará por trazer à luz, mais dia, menos dia.

  8. COLETTO ASSESSORIA EM SEGURANÇA DO TRABALHO LTDA
    COLETTO ASSESSORIA EM SEGURANÇA DO TRABALHO LTDA

    ESTE É O BRASIL DA CORRUPÇÃO DOS 129,0 milhoes DO RESORT E DE URNAS ELETRONICAS DUVIDOSS !!!!
    QUERTO O MEU COMPROVANTE DE VOTO !!!!!!!
    POIS AO IR AO SUPERMERCADO VEJO AS COMPRAS PAGO E RECEBO MESMO ASSIM UM COMPROVANTE DO QUE PAGUEI PORQUE OMEU VOTO NÃO É ASSIM..TENHO DIREITOS…TENHO DIREITOS.
    A ELEIÇÃO DEVE SER NO MINIMO IGUAL A COMPRA DE UM SUPERMERCADO !!!

    1. Eugênio Esber
      Eugênio Esber

      A comparação é simples, clara e eficiente, Coletto. É isso mesmo.

    2. Olavo Augusto Ribeiro
      Olavo Augusto Ribeiro

      Jorge Colleto ? É vc? Se ok, Forte Abraço ( Olavo – Tec.Segtrab VW)

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