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Ilustração: Júlia Xavier/Montagem Revista Oeste/Gerado por IA
Edição 327

Lula é o Zelig brasileiro

Tal qual o personagem de Woody Allen, Lula se adapta ao interlocutor. Diante de um aiatolá xiita, sempre rezou virado para Meca. Em ano eleitoral é católico fervoroso

Zelig é um filme de Woody Allen lançado em 1983. Neste documentário ficcional, um homem alcança notoriedade por sua capacidade de imitar qualquer pessoa que encontra. Com seu talento único para o mimetismo, Zelig adere a qualquer tribo e agrada pessoas de todos os setores da sociedade. Sua habilidade camaleônica chama a atenção de Eudora Fletcher, uma médica que acha que Zelig precisa de uma terapia. O relacionamento deles acaba indo além da medicina, quando a médica descobre que está se apaixonando por Zelig.

Poster do filme Zelig, de Woody Allen | Foto: Reprodução

O filme do genial cineasta foi a primeira coisa que me veio à mente quando vi, esta semana, o presidente Lula falando com os líderes do G7, que nunca foi esquerdista. O discurso de Lula é sempre adaptado ao público. Se fala com um flamenguista, ele é flamenguista desde criança. Se está diante de um aiatolá xiita, ele sempre rezou virado para Meca. E se está em ano eleitoral, ele é católico fervoroso que frequenta a missa!

Lula diz agora que nunca foi esquerdista. Mas fundou o Foro de São Paulo com Fidel Castro para resgatar na América Latina o que havia sido perdido no Leste Europeu: o comunismo. Comemorou a própria indicação do companheiro Flávio Dino ao STF como o primeiro comunista da Corte. Sempre defendeu o companheiro Maduro e, antes dele, Hugo Chávez. Afirmou que se tornaria cada vez mais socialista em passado recente. As pautas do PT são todas da extrema esquerda. Imagina então se Lula fosse de esquerda!

Luiz Inácio Lula da Silva no evento que deu origem ao Foro de SP, com os petistas (a partir da esq.) Marco Aurélio Garcia, João Machado, José Dirceu e Luiz Gushiken (02/07/1990) | Foto: Montagem Revista Oeste/Reprodução/ Canal Contra Mola no YouTube

Pedi ao Grok um resumo e eis o que temos: “Lula já fez várias declarações ao longo dos anos em que se identificou como socialista, defendeu o socialismo como horizonte ou criticou o capitalismo, especialmente nos anos 1980 e início dos 1990, quando era líder sindical e fundador do PT. Com o tempo, o tom mudou para um socialismo democrático ou ‘refinado’, compatível com o capitalismo regulado, mas ele continua usando o termo”.

Em agosto de 2025, em evento no Palácio do Planalto, Lula disse: “Esse é o desafio de quem já foi eleito três vezes. Cada vez mais eu tenho que fazer mais. Significa que cada vez vou ficar mais esquerdista, mais socialista e vou ficar achando que a gente pode mais”. No passado mais distante, Lula era ainda mais radical e não escondia sua defesa do “socialismo do século 21”, alegando que Chávez dirigia uma Ferrari e ele um Fusca, mas ambos para o mesmo destino.

Algumas pessoas podem achar que isso tudo nunca passou de bravata, de oportunismo para encantar a plateia esquerdista, de uma estratégia eleitoral. Muitos enxergam Lula como alguém desprovido de qualquer ideologia, um sindicalista safado e amoral que faz o “diabo” para se dar bem, ficar no poder e viver como um nababo. Isso tudo pode ser verdade, mas não invalida sua defesa do socialismo.

“Quem espera que o diabo ande pelo mundo com chifres será sempre sua presa”, alertou o filósofo Schopenhauer. Nosso Zelig é um mentiroso profissional e contumaz, e molda seu discurso de acordo com a ocasião. Mas é inegável que, durante toda a sua vida política, dedicou-se ao avanço das ideias esquerdistas, seja no campo da economia, com mais intervenção estatal, seja na área dos costumes, com um relativismo moral que decreta guerra a todas as tradições sobreviventes.

Woody Allen segurando abóboras em uma cena do filme Zelig, de 1983 | Foto: Reprodução/IMdb

Não é tão simples classificar direita ou esquerda atualmente, mas alguns pontos não são controversos. A esquerda prega estatais, protecionismo comercial, planejamento central e fortes doses de assistencialismo no âmbito econômico. A esquerda também costuma defender desarmamento, legalização das drogas e do aborto, enquanto adota um discurso de que marginais são “vítimas da sociedade”, retirando do bandido sua responsabilidade. Essas são as bandeiras associadas ao PT de Lula desde sempre.

Algumas pessoas acham que os rótulos não importam tanto, que essa discussão está ultrapassada, e que Lula é apenas um hipócrita que vive como um magnata capitalista enquanto prega igualdade. Mas isso é justamente o socialismo na prática! Todo regime socialista, em graus distintos, entrega o mesmo resultado: menos liberdade individual, mais pobreza geral e uma casta de privilegiados no poder. O próprio Fidel Castro deixou uma fortuna quase bilionária. Che Guevara morreu com um Rolex no pulso. Maduro vivia uma vida digna de empreendedores que construíram verdadeiras fortunas. Cristina Kirchner, condenada por corrupção, tem milhões de patrimônio, como o próprio Lula. Ser de esquerda normalmente é isso mesmo: defender socialismo para os outros e capitalismo para si. Os artistas ricaços e gananciosos que o digam…

Foi o liberal Roberto Campos quem melhor descreveu essa turma: “É divertidíssima a esquizofrenia de nossos artistas e intelectuais de esquerda: admiram o socialismo de Fidel Castro, mas adoram também três coisas que só o capitalismo sabe dar — bons cachês em moeda forte, ausência de censura e consumismo burguês. São filhos de Marx numa transa adúltera com a Coca-Cola”.

O filho bastardo é Lula, o Zelig que, dependendo do entorno, diz até que é católico e conservador, enquanto seu partido e seu governo promovem todas as pautas da esquerda radical.

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4 comentários
  1. Ronaldo Garry Müller
    Ronaldo Garry Müller

    Trump vai pegá-lo e vai entregar ao Bukele!

  2. Mariza
    Mariza

    Pois é, caro Constantino, uma excelente foto dos interesses reais dessa esquerda capitalista. O que eles buscam e obtém são vidas abastadas as custas da metecão de mão no dinheirinho suado das massas trabalhadoras que sobrevivem no sufoco. Exemplos não faltam: Jaques, Marques de Tayaya, contrato de 129 mm, mesada de 300 mil a Lulinha, Triplex, Sítios em nomes de laranjas, fóruns no exterior com grana dos contribuintes. Lutam para a manutenção de todas essas mordomias surrupiadas do povão. Chico que ‘ama’ Cuba, mas viveu em ilha de milionários na Europa, etc e tal. Todos voláteis kkkk dançando conforme a música.

  3. Antonio Carlos de Mello Pacheco Filho
    Antonio Carlos de Mello Pacheco Filho

    Li diversos artigos de Rodrigo Constantino. Este, especialmente, está muito bom! Parabéns ao articulista pela lavra e à revista pela publicação!

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