O biógrafo Walter Isaacson levou três anos para entender que Elon Musk vive em “estado de guerra”. Quando o sul-africano, prestes a completar 55 anos, aposta em uma ideia, age como num jogo de pôquer cuja única saída é o all in. Foi assim que criou a Zip2, sua primeira empresa. O “tudo ou nada” o levou na semana passada à Oferta Pública Inicial (IPO) da SpaceX, que estreou avaliada em US$ 1,77 trilhão e chegou a bater US$ 2,5 trilhões no pico. A companhia produz espaçonaves, oferece serviço de inteligência artificial (xAI) e internet por satélite (Starlink). “Se alguém dissesse que isso aconteceria, eu diria: ‘cara, você deve estar fumando um crack muito bom’.” Foi assim que Musk descreveu a estreia de suas ações. Isaacson o define como um man-child (“crianção”). A trajetória do dono da SpaceX mostra que o melhor adjetivo para ele é inovador.
Musk tinha 12 anos quando ganhou seus primeiros US$ 500. Aproveitou o boom dos videogames nos anos 1980 e vendeu a uma revista um jogo chamado Blastar. Ali já estava seu DNA de empresário: tecnologia somada à paixão por ficção científica, nascida da admiração por autores como Douglas Adams e Isaac Asimov. O jogo dava ao usuário o controle da primeira espaçonave (virtual) que construiu.
Em 1989, pressionado pela relação tortuosa com o pai, entendeu que só teria futuro longe da África do Sul. Foi para o Canadá, onde estudou física e economia na Queen’s University. Mudou-se para os EUA no meio dos cursos e se formou na Universidade da Pensilvânia e na Wharton School of Business. Em 1995, seguiu para a Califórnia a fim de fazer doutorado em física em Stanford, em “ciência dos materiais”, que talvez o ajudasse no sonho de produzir carros elétricos. Só ficou dois dias no curso. Segundo o biógrafo, teria dito a um amigo: “Tenho que pegar a onda da internet”.
O estalo veio ao perceber que as antigas “páginas amarelas” se beneficiariam da tecnologia digital. Com o irmão, Kimbal, e dinheiro dos pais (US$ 40 mil e o cartão de crédito da mãe), fundou a Zip2, uma “rede interativa de listas de empresas” que ligava negócios a um “banco de mapas”. Um precursor de ferramentas como Google Maps e Waze. Em 1999, os irmãos venderam a empresa por US$ 305 milhões. Elon alcançava um patrimônio pessoal de US$ 22 milhões.
O lado “crianção” apareceu no primeiro ato no clube do milhão. Comprou um McLaren F1, um dos carros mais rápidos da época, e chamou a CNN para filmar a entrega. O impulso pesou na consciência: ficou parecendo um “pirralho imperialista”, segundo ele próprio. Tomou duas providências: doou parte dos milhões aos pais e apostou num projeto útil à sociedade.
O milionário que sofreu um golpe
Em 1999, nasceu o X.com. Não o “X” que hoje nomeia o antigo Twitter, mas um banco digital que adiantava o conceito de fintech. Quando a maioria das pessoas ainda tinha pavor de digitar o número do cartão numa tela, Musk deixava qualquer um transferir dinheiro só com o e-mail. O negócio prosperou e, para consolidar o monopólio, fundiu-se com a Confinity, startup de Peter Thiel. Ali nasceu o titã que o mundo conhece como PayPal. Foi também o passo que ligou o “estado de guerra” de Musk. Em setembro de 2000, quando estava num avião rumo à lua de mel com sua primeira mulher, foi destituído do cargo de CEO pelo conselho, que pôs Thiel no lugar. O motivo oficial foi uma briga sobre migrar o sistema para Windows. Mas o que pesava mesmo era a preferência dos investidores pelo “domável” Thiel.

Musk engoliu o orgulho e seguiu como acionista. A recompensa veio em 2002, quando o eBay comprou o PayPal por US$ 1,5 bilhão. Maior acionista individual, saiu da mesa com US$ 165 milhões. Os fundos deram o pontapé inicial num plano que ainda corre: transformar a humanidade numa “sociedade multiplanetária”. Suas prioridades viraram carros elétricos, chips que ligam cérebros a computadores, robôs autônomos e espaçonaves. Certa vez, explicou o motivo:
“Existe uma diferença fundamental entre uma humanidade que é uma civilização espacial, explorando as estrelas… e outra para sempre confinada à Terra até um evento de extinção inevitável.”
O ano em que o céu quase desabou
Em 2002, Musk fundou a SpaceX, que agora lhe rendeu o primeiro trilhão. A indústria aeroespacial, dominada por gigantes estatais como a Nasa, debochou da ideia de um sul-africano construir foguetes baratos e reutilizáveis. O deboche quase se provou profético. Entre 2006 e 2008, as três primeiras tentativas de lançar o Falcon 1 explodiram antes da órbita e incineraram quase todo o caixa.
Em paralelo, Musk dava o all in definitivo da vida. Virou o principal investidor e assumiu a Tesla, startup que queria viabilizar o carro elétrico. Em plena crise global, as duas empresas sangravam. Sem liquidez, o empresário vivia de empréstimos para pagar o aluguel e atravessava um divórcio devastador. Restava dinheiro só para mais um lançamento do Falcon 1. Se falhasse, o império morreria antes mesmo de nascer.

Em 28 de setembro de 2008, o quarto voo atingiu a órbita e tornou-se o primeiro foguete privado a chegar ao espaço, quase uma década antes de empresários como Richard Branson e Jeff Bezos se aventurarem no ramo. O bote salva-vidas veio na véspera do Natal: a Nasa salvou a SpaceX da falência com um contrato de US$ 1,6 bilhão para reabastecer a Estação Espacial Internacional. O jogo havia virado.
Do prejuízo ao infinito e além
Em 2010, Musk estava à mesa de um glamuroso restaurante do Principado de Mônaco quando surgiu o empresário Tony Stark. Levantou-se para cumprimentá-lo e travaram o seguinte diálogo:
Tony: Elon, como vai? Aqueles motores Merlin são fantásticos.
Musk: Obrigado. É, tenho uma ideia para um jato elétrico.
Stark: Tem?
Musk: É.
Tony: Então vamos fazer funcionar.
A cena fictícia de Homem de Ferro 2 carrega hoje um símbolo mais profundo do que eternizar o bilionário na cultura pop. Nela, Musk se comporta de forma respeitosa, quase submissa, a Tony Stark. Pós-IPO, a hierarquia se inverteria com facilidade. Nas redes, dizem que o trilhão de dólares bastaria para acabar com a fome no mundo. Musk foge da imagem de um Tio Patinhas nadando numa piscina de dinheiro. Sua residência principal é uma casa pré-fabricada de 37 metros quadrados perto da base da SpaceX, no Texas, e quase toda a fortuna está aplicada em ações.
Além de abrir espaço para inovações como o foguete que deu ré em 2024, a IPO elevou o status dos funcionários. A empresa emprega 13 mil pessoas diretamente e outras 21 mil em torno da sede, a Starbase, no Texas. Para compensar salários modestos, muitos optaram por ações, e a IPO fez mais de 4,4 mil funcionários e ex-funcionários milionários instantâneos, de engenheiros a cozinheiros. É o caso do imigrante mexicano Juan Hernandez, soldador contratado em 2015 e hoje com mais de US$ 1 milhão. Ou de Trevor Hise, ex-estagiário cujo patrimônio em ações passou dos US$ 16 milhões. Ex-funcionários da SpaceX já fundaram mais de 150 startups de tecnologia, robótica e defesa.
O complexo de foguetes é só parte do império. A empresa de inteligência artificial xAI saiu do zero em 2023 e já emprega 5 mil funcionários. A Starlink, divisão da SpaceX, atende mais de 10 milhões de clientes em 160 países, entre os quais o Brasil, e ganhou peso geopolítico na crise do Oriente Médio. Ao liberar o acesso gratuito à internet, Musk permitiu que iranianos driblassem a censura.

Há ainda a Tesla, gigante dos carros elétricos que, no fim de 2025, empregava 135 mil pessoas e pagou mais de US$ 1 bilhão em imposto de renda. Esta cifra nem é a maior quando o assunto é o que Musk paga ao governo. Em 2021, bateu recorde com US$ 11 bilhões em impostos estaduais e federais nos EUA.
O X da questão
Toda a jornada converge para o centro do império: a holding X. A letra, obsessão desde 1999, amarra a SpaceX, o Model X da Tesla, a Neuralink (desenvolvedora que integra tecnologia e cérebro para ajudar pessoas com deficiência) e a xAI, dona da inteligência artificial Grok. Até um dos filhos foi batizado com o impronunciável X Æ A-Xii.
O impulso de moldar o mundo sob uma mesma marca foi o que o levou a desembolsar US$ 44 bilhões em 2022 para comprar o Twitter, sob a bandeira da liberdade de expressão irrestrita. Esta postura colidiu com o avanço do autoritarismo judicial mundo afora. Além do caso da Starlink no Irã, o front mais dramático foi o Brasil, numa queda de braço entre Musk e o Supremo Tribunal Federal. Ao recusar ordens que pediam a derrubada de perfis de opositores e jornalistas sem o devido processo legal, Musk expôs a censura no país. “Esse ‘juiz’ violou repetidamente as leis que jurou cumprir”, postou ao receber uma intimação do ministro Alexandre de Moraes. No G20 de 2024, a primeira-dama, Janja Lula da Silva, atacou o empresário com um “Fuck you, Elon Musk“. Ele respondeu com emojis de risada e arriscou uma profecia: “Eles vão perder a próxima eleição”.
A maior potência do planeta enxergou o óbvio sobre o empresário, hoje naturalizado canadense e norte-americano. A guinada ao centro do debate deu a Musk um papel no coração do poder: liderar o Departamento de Eficiência Governamental (Doge) no início do segundo governo Trump. Depois de um choque de gestão em Washington, ele voltou aos negócios, mas se consolidou como uma das mentes mais influentes da geopolítica ocidental.
O complexo de vira-lata fiscal
Se o livre mercado americano premia a audácia e a inovação, no Brasil o sucesso é tratado como crime moral. O tom foi sintetizado pela influenciadora de esquerda Nath Finanças, que certa vez respondeu ao trilionário: “Vc é péssimo em tudo q faz, impressionante”. O raciocínio que trata o lucro como pecado impede o país de inovar. Nos EUA, o federalismo faz os Estados competirem entre si. Quando a Califórnia tentou asfixiar a Tesla com regulação excessiva, Musk mudou a sede para o Texas, sem imposto de renda estadual para pessoas físicas. No Brasil, o hospício tributário aniquila a concorrência saudável e incentiva a migração de empresas para o Paraguai.
Para Cláudio Shimoyama, economista e CEO do Datacenso, a complexidade institucional pune quem tenta produzir. “A regra do jogo muda a qualquer momento e gera uma baita insegurança jurídica”, diz. “O imposto sobre um lápis muda se ele for feito para um marceneiro ou se for simplesmente um lápis de cor.” Por causa dessa insanidade burocrática, jovens brilhantes e grandes empresários preferem ir embora. “Se eu emitir uma nota fiscal de R$ 100 mil no Paraguai, o imposto é fixo em 10% e acabou”, exemplifica. “No Brasil, a mesma nota leva uma mordida de 30% de uma carga complexa que só serve para sustentar o peso e os privilégios do Estado”, compara o economista, que assessora a expansão de indústrias brasileiras para lá. Empresas como Lupo, Renner e Nestlé levaram parte de suas estruturas para fora do Brasil.

A anatomia da fortuna
O fascínio do público está no caráter “imensurável” da conquista de Elon Musk. Quanto é US$ 1 trilhão? Empilhado em moedas de um centavo, iria até a Lua e voltaria quatro vezes. O patrimônio de Musk estaria à frente da economia de 170 países (num total de 195) se fosse colocado num mesmo ranking. Se vendesse as ações e gastasse um milhão de dólares por dia, Musk teria dinheiro pelos próximos 2.738 anos. Se tivesse começado a torrar a fortuna quando Homero compunha a Ilíada, por volta de 700 a.C., e descoberto a imortalidade, ainda não teria gasto o último dólar.
É justa essa concentração de renda nas mãos de quem chegou ao topo por mérito próprio? Faz sentido mirar Marte com tantos problemas por aqui? Quem tem respostas simples para isso não está preparado para a complexidade do século 21 nem para o peso de uma figura como Musk. O que sua conquista ensina ao brasileiro é que ainda estamos muito longe desse futuro multiplanetário.
dagomirmarquezi.com
@dagomirmarquezi
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Muito bom!
👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏
A inveja mata! Pessoas como Musk são raras na humanidade, já corruptos abundam, como no Brasil, onde vidas abastadas são conquistadas através de roubalheiras e crueldades até contra os menos favorecidos. Orando para que a previsão de Musk a Janjinha se realize: a de que perderão as próximas eleições, mesmo com Pilili sem voto impresso!
Obrigado Dagomir por matéria tão interessante. Prendeu minha atenção do principio ao fim.
ESTE É O SINONIMO DE TRABALHO !!!!!!