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O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, segura seu celular enquanto faz uma chamada de vídeo durante a Cúpula de Líderes da Força Expedicionária Conjunta (JEF) em Helsinque, Finlândia, em 26 de março de 2026 | Foto: Adrian Dennis/Pool via Reuters
Edição 327

Redes sociais na mira da histeria

Além de ferir o princípio da liberdade, a repressão do primeiro-ministro britânico ao uso por crianças e adolescentes terá uma série de consequências indesejadas

O primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, ainda não definiu os detalhes, mas vai criar um plano com algum tipo de proibição de redes sociais para menores de 16 anos. Na terça-feira, 15, pouco antes da eleição suplementar de 18 de junho, Starmer anunciou restrições a serem cumpridas pelas plataformas, consideradas “nocivas” aos jovens. A proposta deve ser apresentada ao Parlamento antes do Natal. Trata-se de uma reviravolta e tanto. Dois anos atrás, Starmer rejeitou apelos para proibir crianças de terem smartphones ou usarem redes sociais. Naquela época, ele levantou, sensatamente, a questão: “o termo ‘adequação à idade’ circula por todos os cantos o tempo todo, mas qual idade é adequada?”.

Então, o que mudou? Oficialmente, a linha do governo é que o primeiro-ministro passou a adotar uma postura mais rígida depois de  conversar com pais enlutados e de avaliar evidências da Austrália, que baniu crianças das redes sociais em dezembro do ano passado. Mas o momento do anúncio de Starmer não é coincidência. Se Andy Burnham, do Partido Trabalhista, vencer as eleições do dia 18, seu próximo passo será lançar uma candidatura à liderança do partido. Sir Keir, ciente de que seus dias no comando estão contados, quer que as restrições às redes sociais façam parte de seu legado. Em outras palavras, não se trata do bem-estar das crianças, mas de politicagem.

A rejeição inicial de Starmer a uma proibição dificilmente se sustentaria. Nos últimos dois anos, a discussão sobre crianças e redes sociais tornou-se cada vez mais histérica. Quase todos os problemas que os adolescentes podem enfrentar agora são atribuídos ao uso do celular, incluindo os relacionados à saúde mental (como depressão e ansiedade), obesidade, solidão, redução da capacidade de atenção e visão negativa da própria imagem. Para além da infância, pesquisadores apontam o dedo para as redes sociais como causa da queda na taxa de natalidade e do desemprego juvenil. A lista de males colocados na conta das redes sociais é tão extensa que o comissário para a Infância do governo agora pede que qualquer proibição seja estendida até os 17 anos. Isso significaria que, em breve, jovens de 16 anos poderão votar em eleições, mas não poderão postar uma selfie.

Ilustração: Samuel Boivin/Shutterstock

No entanto, apesar da magnitude do pânico, não há evidências conclusivas que liguem diretamente qualquer um desses problemas ao uso de redes sociais. Pesquisas extensas não têm conseguido identificar uma relação causal entre o tempo gasto nas redes e a piora da saúde mental. Alguns problemas sem dúvida aumentaram desde que os smartphones se tornaram onipresentes, mas correlação não é causalidade. As plataformas de redes sociais tornaram-se um alvo fácil, o foco de um pânico moral e uma forma de evitar uma discussão mais profunda sobre as nossas expectativas em relação às crianças hoje.

O termo “redes sociais” é um rótulo genérico que mascara enormes diferenças entre os sites e nas formas como as pessoas os utilizam. Uma proibição ao estilo australiano cobriria o YouTube e o TikTok. Mas qual é a diferença entre assistir a vídeos curtos em uma dessas plataformas e assistir a um mais longo em um serviço de streaming como a Netflix? Qual é a diferença entre interagir com amigos no Instagram (que seria proibido) e através de chats em grupo no WhatsApp (que seriam permitidos)? O que há de errado em participar de debates no Reddit ou encontrar artigos interessantes no X?

Starmer afirma que seu alvo são as plataformas de redes sociais “nocivas”, mas, embora os defensores da proibição usem o argumento do vício, o TikTok não é como o cigarro. A mensagem atual de “Diga Não” tenta reproduzir as campanhas contra as drogas dos anos 1980, mas o Instagram não é como a heroína. Todos somos capazes de ignorar algoritmos. Precisamos nos lembrar de que a esmagadora maioria dos adolescentes usa as redes sociais sem qualquer impacto negativo. O próprio Starmer disse uma vez aos parlamentares que seus filhos não tiveram esse problema. Cabe aos adultos tornar o mundo interessante de tal modo que as crianças saiam do celular por vontade própria.

Para começar, deveriam ser os pais, e não o Estado, a decidir o que é certo para os filhos. Quando pai e mãe dependem de políticos para estabelecer as regras em sua própria casa, os filhos percebem rapidamente que esses pais não têm autoridade. No final deste ano, o governo deve emitir orientações determinando a idade mínima para que as crianças possam receber um smartphone, bem como sobre o que seria um “uso saudável de telas” entre os 5 e os 16 anos. Mas as crianças são todas diferentes. Uma orientação genérica para o uso de celulares faz tanto sentido quanto uma lei nacional que obriga toda a população a dormir no mesmo horário.

Foto: Shutterstock

Há, também, a questão da fiscalização. Obrigar as empresas de redes sociais a adotar o reconhecimento facial ou outras formas de verificação de idade afetará a todos, independentemente da data de nascimento. As pessoas deveriam ter liberdade para interagir online sem serem submetidas a uma identificação digital. Com o fim do anonimato, a internet se tornará um lugar menos livre.

Finalmente, não há evidências suficientes de que uma proibição das redes sociais funcione. Pesquisas na Austrália sugerem que seis em cada dez crianças entre 12 e 15 anos que tinham contas em plataformas digitais hoje proibidas continuaram a acessar pelo menos um de seus sites preferidos. Esse comportamento é significativo, não porque os adolescentes serão prejudicados ao passar tempo no TikTok, mas porque aprendem que a lei não deve ser cumprida, mas sim contornada, ridicularizada e, por fim, ignorada.

Então, por que Keir Starmer está voltando atrás? Em parte, porque é mais fácil ceder aos disseminadores de pânico do que argumentar com a histeria. E, como outros primeiros-ministros antes dele, Starmer está descobrindo que as proibições são o último recurso dos políticos que não têm mais nada a oferecer.


Joanna Williams é colunista da Spiked e autora de How Woke Won. Ela é pesquisadora visitante do Mathias Corvinus Collegium (MCC), de Budapeste.

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1 comentário
  1. Paulo Ferreira
    Paulo Ferreira

    Tinha que limitar o tempo de acesso de todos, não só das crianças. É claro o vício geral em rolar a parede de novidades das redes. E o efeito não é só perda de tempo, perde-se a paz.

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