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Uma criança sobre uma pilha de algodão recém-colhido em Poli, Camarões | Foto: Shutterstock
Uma criança sobre uma pilha de algodão recém-colhido em Poli, Camarões | Foto: Shutterstock
Edição 327

Os subsídios e a pobreza da África

Quando os Estados desenvolvidos distribuem quantias gigantescas de dinheiro a seus próprios agricultores, a produção aumenta artificialmente e os preços globais caem

Escrevo este artigo no Mali, um dos países mais pobres do mundo, localizado na África Ocidental. Com um IDH de 0,309, o Mali está entre os dez últimos colocados no ranking mundial do Índice de Desenvolvimento Humano. O país apresenta baixa expectativa de vida e o analfabetismo atinge 74% da população, uma das taxas mais elevadas do planeta. Apenas metade das pessoas têm energia elétrica em suas casas, percentual que cai para 31% nas áreas rurais. Além disso, o país possui uma das maiores taxas de mortalidade infantil, com mais de 100 óbitos a cada mil nascidos vivos.

Mas sabe o que é ainda mais devastador para populações pobres, como a do Mali? Os subsídios concedidos pelos países ricos. Porque eles destroem o futuro dos agricultores africanos. A atividade responde por cerca de 80% da renda da população do Mali. E tudo o que afeta a renda agrícola do país atinge profundamente os mais vulneráveis.

A África, que inclui países como o Mali, depende fortemente das exportações de commodities. Quando os Estados desenvolvidos distribuem quantias gigantescas de dinheiro a seus próprios produtores, como ocorre na Europa, a produção aumenta artificialmente e os preços globais caem. Esses subsídios não apenas desperdiçam uma enorme quantidade de dinheiro dos contribuintes, mas, ao reduzir artificialmente os preços das commodities, também distorcem o mecanismo de preços e impedem que os produtores africanos recebam uma remuneração justa por seu trabalho.

Os subsídios agrícolas na Europa reduzem os preços globais e prejudicam as exportações de commodities de países africanos como o Mali | Foto: Shutterstock

O caso dos subsídios ao algodão e de seus efeitos sobre os produtores da África Ocidental ilustra bem esse fenômeno. Os quatro países da África Ocidental com participação relevante no comércio global de algodão são Benin, Burkina Faso, Chade e Mali. Juntos, são conhecidos como Cotton-4.

Ao mesmo tempo, todos integram a lista dos Países Menos Desenvolvidos das Nações Unidas e, coletivamente, obtêm cerca de 60% de sua receita total com as colheitas diretamente da produção de algodão. Os países do Cotton-4 produzem apenas cerca de 3% do algodão mundial. Mas por que a China e os Estados Unidos produzem muito mais do que esses países africanos? Uma das razões é que os governos dos Estados Unidos e da China canalizam enormes quantias de recursos para subsidiar a produção de algodão, o que distorce brutalmente os incentivos e faz com que os agricultores aumentem artificialmente a oferta.

Embora os efeitos desses subsídios sobre os preços sejam conhecidos há décadas, os governos continuam a adotar políticas que empobrecem cada vez mais os africanos. Um estudo da Oxfam, publicado em 2007, relatou que, se os Estados Unidos eliminassem os subsídios ao algodão, o preço global do produto aumentaria entre 6% e 14%. Isso provocaria um crescimento significativo das receitas anuais da África Ocidental e poderia ajudar a tirar milhares de africanos da pobreza.

Os EUA gastaram mais de US$ 7 bilhões em subsídios ao algodão e continuam injetando fartos recursos para os produtores americanos | Foto: Shutterstock

No entanto, os Estados Unidos gastaram mais de US$ 7 bilhões em subsídios ao algodão na última década, e a projeção é de que continuem transferindo grandes volumes de recursos aos cotonicultores americanos. Da mesma forma, o governo chinês concedeu US$ 41 bilhões em subsídios no mesmo período e impõe tarifas elevadas para impedir que os produtores africanos vendam seu produto no lucrativo mercado chinês.

Isso mesmo. Talvez você nunca tenha lido sobre o assunto, mas o governo da China é um dos mais atuantes na concessão de subsídios agrícolas. Todo esse dinheiro gasto em incentivo ao algodão chinês não contribuiu para melhorar a vida dos pobres cotonicultores africanos, principalmente dos que vivem no Mali.

Embora os subsídios ao algodão sejam um bom exemplo de como as políticas dos Estados Unidos e da China estão prejudicando os africanos, o impacto das políticas agrícolas injustas sobre as populações mais pobres do continente vai muito além do setor algodoeiro. O resultado é uma verdadeira hecatombe para a renda da população do país.

Diante dessas informações, vale fazer uma pergunta: será que o mundo está realmente preocupado com a pobreza na África? Pelo andar da carruagem, os países ricos parecem estar mais preocupados em subsidiar a ineficiência de seus próprios produtores do que em combater a miséria no continente africano.

Plantação de algodão, possivelmente localizada perto de Tzaneen, na província de Limpopo, África do Sul | Foto: Shutterstock

Antonio Cabrera é veterinário com pós-graduação em produção animal e presidente do Grupo Cabrera, que atua no agronegócio. Foi ministro da Agricultura e Reforma Agrária no governo Fernando Collor e ex-secretário da Agricultura e Abastecimento do Estado de SP durante a gestão Mário Covas. Atualmente, é titular da Sociedade Nacional de Agricultura e membro de várias entidades nacionais e internacionais, além de cônsul honorário da Espanha. Ele está no LinkedIn: Antonio Cabrera

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1 comentário
  1. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Grata pelo artigo, informações preciosas,realmente sei da pobreza de Mali e de outros países africanos, mas sobre a cultura do algodão não. Países ricos realmente pagam subsídios enormes para cultura do algodão EUA e Europa, mas desconhecia a consequência nefasta dessa prática em Mali.Obrigada.

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