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Abelardo de la Espriella, eleito presidente da Colômbia | Foto: REUTERS/Jair Coll
Abelardo de la Espriella, eleito presidente da Colômbia | Foto: Reuters/Jair Coll
Edição 328

O avanço da direita na América do Sul

Vitórias de conservadores na Colômbia e no Peru, além do avanço de governos alinhados a Washington, redesenham o mapa político do continente e isolam Lula

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No segundo turno das eleições presidenciais da Colômbia, realizado em 21 de junho, o advogado conservador Abelardo de la Espriella venceu o esquerdista Iván Cepeda com 49,6% dos votos, em um cenário marcado por violência e tensão. A diferença de menos de 250 mil votos refletiu uma nação dividida. Em paralelo, no Peru, a apuração das eleições se arrastou até 24 de junho, quando Keiko Fujimori obteve 50,1% dos votos, mas não reconheceu a derrota, alegando fraude.

Na tarde de domingo, 21 de junho, comerciantes de Bogotá começaram a cobrir as vitrines com placas de madeira espessas, à espera de uma noite eleitoral que ninguém sabia como terminaria. A Colômbia chegava ao segundo turno da eleição presidencial sob um tensionamento incomum para os seus padrões recentes. Quando os últimos boletins do chamado preconteo oficial consolidaram a quase totalidade das urnas, o resultado indicava a vitória do advogado conservador Abelardo de la Espriella, com 49,6% dos votos, contra o esquerdista Iván Cepeda.

A diferença final, inferior a 250 mil votos, expôs uma nação dividida. A própria campanha já apresentava a tensão do país em forma de violência: Espriella discursou atrás de vidro blindado e com colete à prova de balas, cercado por dezenas de seguranças, reforço adotado depois que dois integrantes de sua equipe foram assassinados em maio, no departamento de Meta. Um mês antes do lançamento de sua candidatura, o pré-candidato Miguel Uribe Turbay havia levado tiros em Bogotá, num atentado que o mataria dois meses depois. O colete e o púlpito blindado viraram parte do homem que prometia mão de ferro contra o crime sem se intimidar, e ajudaram a transformar a disputa em um teste de força entre dois projetos antagônicos de Estado.

A milhares de quilômetros dali, o Peru finalmente teve um vencedor na quarta-feira, 24. Depois de duas semanas de apuração arrastada, com a dianteira trocando de mãos mais de uma vez, Keiko Fujimori abriu sobre Roberto Sánchez uma vantagem que se tornou irreversível quando a contagem oficial mostrou 50,1% a 49,9%, pouco mais de 43 mil votos, com 99,86% das urnas apuradas. A proclamação deve sair em poucos dias. Sánchez não reconhece a derrota e fala em fraude no voto do exterior, com recurso já anunciado a instâncias internacionais. Num país que acaba de eleger o seu nono presidente em dez anos de crise, o desfecho apertado prolonga a atmosfera de incerteza. 

eleições no peru
Após semanas de apuração, Keiko Fujimori vence a eleição presidencial no Peru | Foto: Naldy Gomez/Estadão Conteúdo

Separados por fronteiras e contextos, os dois processos convergem para o mesmo fenômeno. Na Colômbia, como no Peru, o voto virou julgamento sobre os resultados concretos das administrações de esquerda e centro-esquerda dos últimos anos.

Uma esquerda esgotada

Defasados, os governos identificados com a esquerda progressista chegam a este ciclo com limitações crescentes depois de longos períodos no poder, e os passivos econômicos e sociais começaram a aparecer em dados oficiais. 

Na Colômbia, o mandato de quatro anos do ex-guerrilheiro Gustavo Petro deixou estragos severos, boa parte deles ligada à tentativa de limitar por decreto a exploração de petróleo e gás. O investimento estrangeiro direto recuou para pouco mais de US$ 11 bilhões, contra os US$ 17 bilhões investidos antes da chegada do esquerdista ao poder. E a política de “paz total” foi acusada de paralisar a capacidade de dissuasão do Estado em áreas extensas dominadas por dissidências dos terroristas das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Durante a reunião de ministros, transmitida na tarde desta terça-feira, 4, Gustavo Petro afirmou que a cocaína ‘não é pior do que o uísque’ | Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
O mandato de Gustavo Petro enfraqueceu a defesa da Colômbia diante do avanço de terroristas das Farc | Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

No Peru, a instabilidade institucional se aprofundou depois do desgaste de sucessivas gestões de esquerda e centro-esquerda, com a crise aberta no governo de Pedro Castillo e prolongada na paralisia legislativa de Dina Boluarte. Enquanto as reformas de mercado seguiam travadas, a inércia do Executivo abriu espaço para o crime organizado transnacional. O cartel Tren de Aragua se infiltrou nas periferias de Lima e transformou em rotina a extorsão e a insegurança. O avanço dos traficantes foi tanto que o governo dos Estados Unidos decidiu classificá-los como um grupo terrorista.

A atual guinada à direita se iniciou na Argentina. A eleição de Javier Milei foi a reação direta a um cenário terminal legado por quase duas décadas de hegemonia kirchnerista. O peronismo entregou o país com inflação anual de mais de 200% em 2023 e o caixa do Banco Central no vermelho, com reservas líquidas negativas na casa dos US$ 11 bilhões. Ao enxugar a máquina estatal de 18 para nove ministérios, Milei chegou em 2024 ao primeiro superávit financeiro do país desde 2011 e derrubou a inflação mensal, que passava de 25% em dezembro de 2023, para um dígito.

A então presidente da Argentina, Cristina Kirchner, durante reunião em Istambul, para fechar contratos comerciais - 21/01/2011 | Foto: Reprodução/Shutterstock
Cristina Kirchner, ex-presidente da Argentina | Foto: Reprodução/Shutterstock

Já no Equador, mais de uma década de indução estatal pesada e tolerância institucional com facções do narcotráfico, herança direta do modelo de Rafael Correa, multiplicou os homicídios urbanos. A reação de Daniel Noboa, baseada no enfrentamento direto ao crime e na austeridade, permitiu quedas expressivas da criminalidade em províncias críticas depois da decretação do estado de conflito armado interno.

Para muitos eleitores sul-americanos, a promessa de mais Estado deixou de compensar a conta institucional acumulada. Como resultado, os votos em países democráticos têm empurrado o pêndulo para a direita. Governos de orientação liberal ou conservadora passaram a ocupar posições que há poucos anos eram da esquerda, com graus distintos de solidez institucional. Argentina, Equador e Paraguai já estavam nesse grupo. A Bolívia entrou em novembro de 2025, quando Rodrigo Paz tomou posse e encerrou 20 anos de Movimento ao Socialismo, partido implodido pela ruptura entre Luis Arce e Evo Morales. O Chile veio em março de 2026, com a posse de José Antonio Kast no lugar de Gabriel Boric. A Colômbia se soma a partir de agosto, quando Espriella assumir, e o Peru caminha para o mesmo lado, com a vitória apertada de Keiko Fujimori.

Do outro lado, o campo da esquerda encolheu a um punhado de governos. A Venezuela afunda em crise econômica e social prolongada, porém com um espaço aberto para um futuro mais próspero depois da captura do ditador Nicolás Maduro pelos EUA. No Uruguai, Yamandú Orsi sustenta um governo relativamente estável, mas isolado da nova maré. E o Brasil de Luiz Inácio Lula da Silva permanece no grupo cada vez menor de governos à esquerda no continente.

Lula tem o dever de condenar Nicolás Maduro, afirma Estadão
A prisão do ditador venezuelano reduz o campo da esquerda na América do Sul e mantém o governo de Lula em um grupo cada vez menor | Foro: Dvulgação/Agência Brasil

O fator Washington e o rótulo Donroe

O deslocamento dos eleitores acompanha uma mudança na política externa norte-americana para o hemisfério. No segundo governo de Donald Trump, passou a vigorar a “Doutrina Donroe”, atualização da Doutrina Monroe, utilizada para descrever a reaproximação dos EUA com governos de livre mercado e o endurecimento contra o crime organizado e o avanço de China e Rússia na América Latina. Basicamente, a Casa Branca deixou de tolerar regimes cleptocráticos na região e quer fortalecer o mundo ocidental.

O aceno à ascensão dos conservadores é direto. Trump apoiou Abelardo de la Espriella em público pela rede Truth Social ao longo da campanha colombiana, chamou Iván Cepeda de marxista radical e comemorou a vitória do aliado assim que o resultado se confirmou. E não parou na Colômbia. 

Na madrugada de 23 de junho, horas depois de celebrar Bogotá, compartilhou um artigo do site Newsmax que define o Brasil como o “próximo grande teste” do giro conservador no continente. O texto conta a Colômbia como a oitava nação latino-americana em sete anos a trocar um governo de esquerda por um alinhado a Washington, e reserva um trecho ao Brasil em que põe em dúvida a integridade do sistema eleitoral do país e a lisura da disputa de outubro.

Em março, Trump promoveu a Cúpula Escudo das Américas e reuniu 12 chefes de governo da região, dez deles de direita, para coordenar segurança e contenção da imigração. Lula não foi convidado. Já Milei, que mantém linha direta com a Casa Branca, fechou um pacto de cooperação militar, depois de já ter obtido, no final do ano passado, um acordo cambial de US$ 20 bilhões com o Tesouro americano. Daniel Noboa, por sua vez, também buscou integração em segurança e comércio durante o evento. 

A Cúpula Escudo das Américas promovida por Trump reuniu líderes de direita e excluiu Lula de alianças estratégicas | Foto: Reuters/Kevin Lamarque

O isolamento de Brasília

Visto do Brasil, o quadro fica mais nítido. Enquanto boa parte da América do Sul se aproxima de agendas de liberalização e de cooperação mais estreita com os Estados Unidos, o governo brasileiro mantém uma política externa amarrada às estruturas do início dos anos 2000, quando o Foro de São Paulo, fundado por Lula e Fidel Castro, operava embalado pelo ciclo favorável das commodities.

O Brasil sofre pressões da Casa Branca para endurecer o combate ao crime organizado transnacional. Sem respostas concretas, os Estados Unidos, depois de classificarem as facções criminosas como terroristas, abriram uma investigação contra o nosso país sob a Seção 301. O dispositivo da lei de comércio americana permite punir países acusados de práticas desleais. A gestão Trump propôs tarifas adicionais de 25% sobre uma lista de produtos exportados pelo Brasil. A audiência pública marcada em Washington para 6 de julho, antes da decisão final sobre as novas taxas, produziu uma cena reveladora. Entre os inscritos para defender os exportadores brasileiros não há nenhum ministro da Economia de Lula nem emissário do Itamaraty. A presença do senador Flávio Bolsonaro, principal nome da oposição e pré-candidato à Presidência, está confirmada.

O encurralamento de Lula ganhou contornos explícitos na Cúpula do G7, em Évian-les-Bains, na França. Num diálogo informal captado por um microfone aberto, diante da diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, e de líderes europeus, o petista afirmou que nunca foi de esquerda e que o mundo, no fim, é de centro. A cena revelou que o rótulo do Foro de São Paulo virou um passivo tão pesado que empurra o seu principal artífice a um recuo retórico no exterior. A esta altura, o isolamento de Brasília já deixou de ser figura de discurso, afinal, a interlocução real com a maior potência do continente passa cada vez mais pela oposição à atual gestão.

Ao mudarem os rumos de Bogotá e Lima, milhões de eleitores mandam um recado que atravessa fronteiras. Em boa parte da região, ganhou força entre os eleitores a percepção de que o modelo de Estado recente saiu caro demais. Resta saber se o Brasil vai insistir em ficar isolado como a última peça de museu do estatismo na América do Sul, ou se o eleitor, em outubro, moverá o pêndulo na mesma direção para a qual o resto do continente já empurrou.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva | Foto: Reprodução/Shutterstock
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva | Foto: Reprodução/Shutterstock

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2 comentários
  1. Renato Perim
    Renato Perim

    A maioria dos eleitores pode até ser de direita, mas se esse maldito sistema eleitoral não tivesse algum segredo para roubar a eleição, os ditadores de plantão não ficariam tão incontroláveis só com a desconfiança dessa lisura. Tem caroço nesse angu.

  2. Mariza
    Mariza

    Deve ser devido a essa guinada a direita que levou o nosso vermelhão Nine a dizer que nunca foi de esquerda! kkkkkkkkkk

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