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Vinicius Junior na partida da Copa do Mundo contra o Haiti, no Estádio da Filadélfia, na Pensilvânia (19/06/2026) | Foto: Reuters/Kyle Rodden/CSM/Sipa USA
Edição 329

Quanto vale uma vida

Há uma diferença fundamental entre dizer que Elon Musk vale US$ 1 trilhão e Vini Jr. vale 140 milhões de euros. Musk é dono de sua fortuna; Vini "pertence" a outra pessoa

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O autor reflete sobre a influência do futebol na mentalidade ocidental, comparando-a à propaganda política na Coreia do Norte, enquanto observa a cultura do esporte na França. Ele critica uma matéria brasileira que avalia a seleção de futebol do Brasil em 928 milhões de euros, em contraste com os 56 milhões da seleção haitiana, considerando essa forma de mensurar o valor humano como grosseira e problemática.

Às vezes, principalmente durante a Copa do Mundo, eu me pergunto se o futebol influencia a mentalidade das nações ocidentais — ou ocidentalizadas — de modo semelhante ao da propaganda política na Coreia do Norte. De qualquer forma, ambos parecem igualmente inevitáveis.

Por exemplo, enquanto escrevo este texto, estou sentado em um café na França, onde há uma tela enorme, quase de cinema, transmitindo uma partida qualquer. Ontem fui fazer compras em um pequeno supermercado e lá, também, havia uma tela passando futebol. No entanto, prefiro muito mais o futebol à propaganda política norte-coreana, mesmo que meu interesse pelo jogo seja ínfimo.

Existem, é claro, várias diferenças importantes entre os dois. Uma breve observação do café às dez da manhã revela que apenas uma das dezesseis pessoas presentes (sem contar os funcionários) está realmente olhando para a tela. Na verdade, há mais pessoas olhando para as telas de seus próprios telefones do que para o futebol. Suspeito que tal desrespeito escancarado pela propaganda política na Coreia do Norte seria notado e severamente punido.

Recentemente, deparei-me com um site brasileiro que trazia uma matéria com a seguinte manchete: “Seleção Brasileira vale 16,6 vezes mais que a Haitiana”. É evidente que o texto foi escrito pouco antes de o Brasil enfrentar o Haiti em uma partida que, sem surpresa, o Brasil venceu. Seguia-se uma lista de jogadores de ambas as equipes, com seus valores monetários em euros. Dizia-se que a equipe brasileira valia (segundo o artigo) 928 milhões, enquanto a haitiana valia “apenas” 56 milhões. Só o Vini Jr. valia 140 milhões, enquanto o jogador haitiano mais valioso, Wilson Isidor, valia 18 milhões; os cinco jogadores haitianos menos valiosos eram avaliados em apenas 100 mil euros cada — ou seja, o mesmo que 10 metros quadrados de um apartamento no 20º arrondissement (“distrito”) de Paris.

Brasil x Haiti, estádio da Filadélfia, na Pensilvânia, EUA (19/06/2026) | Foto: Reuters/Jeenah Moon

Para além da precisão um tanto suspeita dos números apresentados, achei essa forma de expressar o valor das pessoas lamentavelmente grosseira. Estou longe de ser socialista e não sou nenhum igualitário; tenho respeito pelo sistema de mercado em uma economia. Mas seres humanos não são mercadorias.

É claro que costumamos dizer coisas como “Elon Musk vale US$ 1 trilhão”, entendendo que isso significa que ele possui ativos avaliados em US$ 1 trilhão (até o próximo colapso do mercado de ações, que ele sem dúvida precipitaria se tentasse vender todos os seus ativos de uma só vez).

No entanto, parece-me haver uma diferença fundamental entre dizer “Elon Musk vale US$ 1 trilhão” e “Vini Jr. vale 140 milhões de euros”. Musk é o dono de sua fortuna, enquanto os supostos milhões que Vini Jr. vale pertencem a outra pessoa. Assim, dizer que “Vini vale 140 milhões de euros” implica que ele é um ativo ou propriedade de alguém, que ele pertence a alguém. Sem dúvida, o jogador é muito bem pago — tão bem pago que, ao final de sua carreira, ele pode muito bem valer 140 milhões de euros, da mesma forma que Musk vale US$ 1 trilhão, mas isso é outra questão. A maneira pela qual o valor da equipe é expresso é a mesma que determinava o valor dos escravos — e nem preciso apontar a ironia disso no contexto histórico brasileiro ou haitiano.

Naturalmente, a maioria das pessoas subentende que a avaliação divulgada no artigo representa a capitalização do valor comercial dos serviços esperados, ao longo de um período de tempo, pela pessoa em questão. Quando uma editora paga uma grande quantia a um autor (o que, infelizmente, nunca aconteceu comigo), ela está comprando um livro, ou livros, não um homem.

Contudo, se os nossos pensamentos são expressos por meio da linguagem que usamos, essa linguagem tende a moldar os nossos pensamentos. Imaginemos que Vini Jr. e os cinco jogadores haitianos menos “valiosos” estivessem juntos em uma situação de perigo e apenas um deles pudesse ser resgatado. Ora, se o socorrista fosse informado de que o brasileiro “valia” 280 vezes mais do que os outros cinco combinados, isso não poderia afetar sua escolha de qual dos seis salvar? Ele poderia pensar que, ao salvar Vini Jr. em vez de qualquer um dos outros, estaria fazendo uma escolha racional. O valor monetário torna-se, assim, valor em todos os seus sentidos. 

O atacante Vinicius Junior e o meio-campista Bruno Guimarães | Foto: Reuters/Jess Stiles/ZUMA

Economistas da área da saúde atribuem cada vez mais um valor monetário à vida humana para estabelecer prioridades de gastos em condições nas quais a demanda por cuidados de saúde é inevitavelmente maior do que a oferta. Parece perfeitamente razoável que gastemos nossos recursos para salvar o máximo de vidas e aliviar o máximo de sofrimento possível com o dinheiro disponível. Mas isso, é claro, implica reduzir a vida e o sofrimento de muitos a números. Se o tratamento médico A pode preservar x anos de vida ou amenizar y unidades de sofrimento, mas o B pode realizar o dobro disso, então este é o que devemos disponibilizar para todos — caso não haja dinheiro suficiente para oferecer ambos. Economistas da saúde frequentemente atribuem um valor a um ano de vida humana, além do qual argumentam que não vale a pena gastar mais dinheiro para salvá-la. Quanto vale um ano de vida humana depende das condições econômicas gerais do país em que o cálculo é feito.

Essa forma de pensar é ao mesmo tempo inevitável e repugnante, e suspeita-se, sem provas formais, que as pessoas acostumadas a pensar dessa maneira, não raro, tornam-se frias e insensíveis em relação a casos individuais de sofrimento. Uma vida poderia ser salva ou melhorada por um tratamento caro, mas o mesmo dinheiro seria muito mais bem gasto salvando ou melhorando centenas de outras vidas.

Um último pensamento: a população do Brasil é 17,6 vezes maior que a do Haiti. O valor da seleção brasileira de futebol é apenas 16,6 vezes maior que o da haitiana. Isso prova que os haitianos são melhores no futebol do que os brasileiros. Na verdade, 6% melhores.

Wilson Isidor, do Haiti , comemora o segundo gol contra o Marrocos | Foto: Reuters/Bernadett Szabo

Theodore Dalrymple é pseudônimo do psiquiatra britânico Anthony Daniels. É autor de mais de 30 livros sobre os mais diversos temas. Entre seus clássicos (publicados no Brasil pela editora É Realizações) estão A Vida na Sarjeta, Nossa Cultura… Ou o que Restou Dela e A Faca Entrou. É um nome de destaque global do pensamento conservador contemporâneo. Colabora com frequência para reconhecidos veículos de imprensa, como The New Criterion, The Spectator e City Journal.

Leia também “Bye Bye Brasil em Paris”

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1 comentário
  1. Luzia Helena Lacerda Nunes Da Silva
    Luzia Helena Lacerda Nunes Da Silva

    Um artigo exemplarmente sarcástico e irônico. O autor é uma delícia de escritor.

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