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A percepção do tempo mudou ao longo da história, refletindo a aceleração da vida moderna e a ansiedade gerada pela abundância de informações e tarefas. Antigamente, as pessoas esperavam pacientemente por notícias, enquanto hoje são bombardeadas por mensagens instantâneas. O psicólogo Marc Wittmann e o sociólogo Hartmut Rosa discutem como a tecnologia e a vida multitarefa comprimem nossa experiência temporal, fazendo com que o tempo pareça escasso.
Você se pega em julho pensando nos presentes que vai dar no Natal? A sensação é de que está sempre atrasado para qualquer coisa? Vai para a cama com a impressão de que o dia não rendeu? Afinal, o dia está menor? Claro que as regras não mudaram. Uma hora continua a ter 60 minutos. Um dia continua sendo o tempo em que a Terra dá uma volta em torno do seu eixo. Nosso planeta continua completando sua viagem ao redor do Sol em um ano. Mas o tempo também é medido de uma forma mais sutil e abstrata pela nossa percepção. E essa percepção mudou radicalmente com a evolução da História. Para o soldado romano dos tempos de Júlio César, o tempo parecia passar num ritmo. Para o camponês do século 18, era outro. Hoje estamos nessa correria infinita.
Existem fatores que mostram na prática essa mudança na percepção do tempo. Há 30 anos, a gente lia o jornal da manhã e esperava até 20h30 para o Jornal Nacional dar as notícias do dia. Séries eram interrompidas para intervalos comerciais. Depois da quarta propaganda, o locutor finalmente dizia: “Voltamos a apresentar…”. Essa pausa era aceita como um respiro, entre um segmento e outro de uma antiga série.
Hoje temos um monte de serviços de streaming nos entupindo de opções e ficamos furiosos se a série for interrompida por meros 60 segundos de publicidade. O tempo parece ter ficado mais escasso e, portanto, mais valioso. O excesso de oferta aumentou nossa ansiedade.

Nossa percepção de tempo parece hoje a areia que escapa de uma ampulheta quebrada. Não existe começo, não existe fim, apenas uma sucessão de ansiedades. A gente esperava pacientemente pela resposta a uma carta. Agora somos bombardeados diariamente no WhatsApp por notinhas, frases, “kkks”, memes, desaforos em grupos de colegas de trabalho, grupos de condôminos e de familiares. Permanecemos de olho na tela do celular porque alguém pode mandar, quem sabe, uma mensagem que vai mudar nossas vidas.
O único momento em que o tempo parece passar devagar é quando temos insônia. Aí não tem jeito. Ficamos olhando o teto do quarto e os segundos viram minutos, que se arrastam penosamente. Pensamos, oramos, criamos fantasias para não pensar nas contas a pagar, no tratamento médico que estamos adiando, em tudo o que existe de mais chato e tedioso. O tempo passa devagar porque não estamos nos divertindo ou produzindo nada.
500 dias numa caverna
O fato de o tempo parecer tão acelerado não é ruim em si. Hoje, significa que nossas necessidades são atendidas em tempo cada vez menor. Estamos vivendo mais intensamente, adquirindo experiências e conhecimentos numa velocidade impensável há apenas algumas décadas. E isso vai se acelerar ainda mais para quem souber usar recursos como a inteligência artificial. Mas não estamos mentalmente preparados para isso. A adaptação completa demora.
O psicólogo alemão Marc Wittmann escreveu a respeito disso no livro Felt Time (“Tempo Sentido”). Ele destaca que normalmente nós filtramos nossas lembranças — e aí o tempo real deixa de ter sentido objetivo à nossa consciência. Os momentos de grande emoção e alegria parecem se esticar em nossas memórias, em câmera lenta. Já os momentos de rotina parecem sumir. “Ao olhar para trás, nada aconteceu”, explica Wittmann. “Isso foi demonstrado em vários estudos: quanto mais rotina as pessoas relatam, mais rápido o tempo parece passar em retrospectiva.”
Um caso dramático ilustra isso. Em 21 de novembro de 2021, a atleta espanhola Beatriz Flamini entrou numa caverna a 70 metros de profundidade e lá permaneceu isolada do mundo por 500 dias. Foi monitorada à distância, mas sem manter diálogo com ninguém. Beatriz passou seu tempo fazendo exercícios, desenhando, lendo, fazendo tricô e conversando consigo mesma. Para ela, não havia dia ou noite, nem chuva ou sol. Eventualmente, parou de contar os dias. Quando saiu, um ano e meio depois, disse que achava ter ficado na caverna “entre 160 e 170 dias”.
Outro fator parece acelerar o tempo: a idade. Os mais velhos sentem ainda mais claramente que o tempo está voando. Em parte, pode ser a aflição de que o fim se aproxima. Adrian Bejan, pesquisador na Duke University, aponta a diferença entre o tempo real e o que ele chama de “tempo da mente”. “O ‘tempo do relógio’, passível de medição, não é o mesmo que o tempo percebido pela mente humana”, diz o pesquisador. O “tempo da mente” é uma sequência de imagens — isto é, reflexos da natureza — alimentada por estímulos provenientes dos órgãos sensoriais.

“O tempo representa mudanças percebidas em estímulos, como imagens visuais”, escreveu Bejan para o site da Universidade de Cambridge. “A mente humana percebe a realidade por meio de imagens que surgem à medida que os estímulos visuais chegam ao córtex. A mente sente a ‘mudança no tempo’ quando a imagem percebida se altera. O presente difere do passado porque a visualização mental mudou, e não porque o relógio de alguém tocou”. No escuro da caverna, as imagens não mudavam para Beatriz Flamini. E o tempo, portanto, parecia não passar.
As três acelerações
Um dos maiores especialistas no tema hoje é o sociólogo alemão Hartmut Rosa, autor de Social Acceleration: A New Theory of Modernity (“Aceleração Social: Uma Nova Teoria da Modernidade”). Segundo Rosa, vivemos uma ordem social que depende da aceleração para continuar funcionando. Temos que produzir mais, comunicar-nos mais rapidamente, tomar decisões em menor tempo, acumular mais experiências durante uma vida limitada.
Hartmut Rosa descreve três formas de aceleração. A primeira é a tecnológica. Viagens e comunicações encurtaram distâncias. O tempo foi comprimido. Por estar comprimido, torna-se escasso. Ele dá o exemplo da correspondência por escrito. O processo de escrever e remeter cartas era lento. O e-mail acelerou muito esse processo. Mas, por ser tão rápido e prático, hoje temos que lidar com dezenas, centenas de e-mails por dia. O tempo economizado pela aceleração é ocupado pela multiplicação das tarefas. E o dia fica curto.
A segunda aceleração apontada por Rosa é o das transformações sociais. Profissões, conhecimentos, relacionamentos, identidades sociais ocorrem dentro de uma geração. Surge assim o que Rosa denomina “contração do presente”: o intervalo durante o qual nossas experiências passadas ainda servem para orientar o futuro torna-se cada vez menor. Aquilo que aprendemos ontem pode não funcionar amanhã.
E existe a aceleração da vida em si. Viramos multitarefas, reduzimos pausas e intervalos, comemos rapidamente de olho no celular e sentimos culpa por momentos em que não estamos produzindo algo. Esse novo comportamento nos leva à impressão de que o tempo está curto e não temos mais tempo para exercer todas as tarefas que nos impomos.

Tudo isso pode parecer negativo. Mas você voltaria ao tempo das cartas, dos telegramas, dos aviões a hélice, dos telefones discados, da televisão com cinco canais, dos empregos fixos pela vida inteira, da aposentadoria no sofá esperando a morte chegar?
Estamos correndo para novos estágios da civilização. E as sociedades mudam desde que a humanidade se organizou. A sociedade atual precisa dessa aceleração até para sobreviver. Nas palavras de Hartmut Rosa: “Uma sociedade é moderna quando só consegue estabilizar-se dinamicamente, isto é, quando necessita sistematicamente de crescimento, inovação e aceleração para conservar sua estrutura e reproduzir o status quo.”
Como desacelerar o tempo
“Sed fugit interea fugit irreparabile tempus”, dizia o poeta romano Virgílio, que morreu pouco antes do nascimento de Jesus Cristo. Já naquela época, ele constatava: “Mas ele foge: irreversivelmente, o tempo foge”.
Hoje, como vimos, foge com muito mais velocidade. O que fazer para conviver com isso? Como tocar nossas vidas diminuindo a sensação de ansiedade? Aqui vão cinco exercícios para que a sensação do tempo volte (dentro do possível) ao ritmo de normalidade:
- Reduza a fragmentação do dia – mudar de atividade a cada dez minutos aumenta nossa aflição. Tente reservar períodos de 30 a 60 minutos para realizar só uma tarefa. Estabeleça intervalos para conferir mensagens e e-mails.
- Crie pausas – na sua rotina de mudar da tela do celular para a tela do computador e vice-versa, separe cinco minutos para fazer nada. Olhe pela janela, caminhe respirando devagar, prepare um café ou um chá. Mas não leve o celular para a cozinha.
- Mude a rotina – fazer tudo igual todos os dias dá essa sensação de diminuir o tempo. Adote variações na sua rotina, mesmo que pequenas. Mude seu caminho, ouça uma música que nunca ouviu, leia algo que nunca leu.
- Escreva um diário – não precisa ser um longo relatório das suas atividades. Apenas registre (em papel ou num computador) em poucas linhas o que aconteceu, especialmente os momentos mais agradáveis. Isso vai ajudá-lo a diferenciar um dia do outro e registrar acontecimentos que deixem marcas na sua memória.
- Crie prioridades na sua agenda – fazer tudo o tempo todo todos os dias destrói a noção de tempo. Defina tarefas essenciais, valorize suas opções principais. A ansiedade frequentemente aumenta com a sensação de que temos de fazer várias coisas ao mesmo tempo.

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