10 bons momentos de ‘Fake Brazil’

Guilherme Fiuza lança livro sobre a epidemia de falsas verdades que assola o país

Burgueses disfarçados de esquerdistas progressistas e solidários fingindo que todas as pessoas podem aderir ao isolamento social eterno. Tiranetes fantasiados de humanistas prontos para denunciar quem não reza pela cartilha do politicamente correto. E a grande imprensa denunciando as fake news enquanto publica notícias falsas e apoia medidas que cerceiam a liberdade de expressão, como o inquérito aberto pelo Supremo Tribunal Federal. Esses são alguns personagens do estranho “baile de máscaras brasileiro” descrito pelo jornalista Guilherme Fiuza em seu mais recente livro, Fake Brazil — A Epidemia de Falsas Verdades.

A seguir, alguns memoráveis trechos do livro.

Resistência da boa aparência

Como todo mundo já sabe e todo mundo já viu, o petismo já era. Quem está dando um show hoje no Brasil é a resistência de boa aparência. […] Nessa Disney da renovação democrática, você não para de se divertir. Tem um brinquedo que é sensacional: você pergunta ao Armínio Fraga — ex-presidente do Banco Central e grande propagador do liberalismo — o que ele está achando das reformas liberais de Paulo Guedes, e ele te responde que a Amazônia está em perigo. Com um pouco de sorte, você ainda verá Armínio Fraga alertando que Bolsonaro ameaça as baleias — alerta que vale ao mesmo tempo para ecologia e para gordofobia. Gênio.

Os editores do Brasil

O ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli afirmou que o STF é o editor do Brasil. […] Claro que a edição do país feita pelos ministros segue critérios rigorosos. No caso, o manual de redação da Corte foi seguido à risca, com a observância estrita do item que trata das ameaças à subversão da ordem. Está lá, redigido em português claro para quem quiser confirmar: “Subversão da ordem é tudo aquilo que for manifestado, na forma e no conteúdo, em conformidade com algo que pareça ao Alexandre de Moraes, ao Dias Toffoli ou a qualquer dos supremos editores da nação um ato subversivo à ordem”. Fiquem tranquilos: os editores do STF cortam — e se precisar prendem — para salvar os brasileiros de si mesmos.

Checadores da verdade

Na reta final da corrida presidencial nos EUA, plataformas de rede social censuraram postagens da conta oficial de campanha de Donald Trump. As postagens tratavam da baixa incidência de contágio do coronavírus entre crianças. De fato, as estatísticas situam a ocorrência da doença na infância, em termos percentuais, próximo a zero. Nenhum representante da medicina nega esse dado. Mas quem afirmou isso foi a campanha de Trump. Traduzindo: o pecado detectado e punido por Facebook e Twitter não foi científico, foi político. Essa instituição de checadores da verdade é o fenômeno mais reacionário do século 21. A censura em pele de corregedoria é o crime perfeito.

Fascismo imaginário

A escalada fascista é um sucesso e está em cartaz num discurso febril perto de você. Mas você não sabia direito o que era fascismo e nós explicamos aqui: fascismo, na sua conotação moderna, é tudo aquilo que rasgue a minha fantasia progressista, desmascare o meu humanismo de butique e me impeça de ganhar a vida fingindo salvar o mundo de um inimigo imaginário — e eu aceito débito, crédito, dinheiro público e privado, mas prefiro público, que não é de ninguém.

X-9 empoleirado

Você já entendeu que não será ninguém na vida se não dedurar ninguém, certo? Pois é, não adianta lutar contra as características de seu tempo. Também não é tão difícil assim. […] Liberte o covarde que existe em você. Faça como os éticos digitais, seja um X-0 empoleirado no Zoom, apontando o dedo da sua janelinha compartilhada para os ignorantes do mundo lá fora. […] Tire uma foto de pessoas na calçada de um bar no Leblon e diga que a humanidade não tem jeito. […] Acuse de negacionistas e nazistas os que filmaram hospitais de campanha milionários sem nada dentro. Se eles estavam lá é porque descumpriram o fique em casa. E todo mundo sabe que roubar é humano.

Seita da Terra Parada

A paralisação sem precedentes das atividades econômicas e sociais gerou uma destruição abismal de valores materiais e humanos nas sociedades. O cenário de terra arrasada costuma ser fértil para oportunistas e os parasitas. Mesmo a OMS, a líder do alarmismo, informou que as frentes de contágio foram para dentro das casas. A FAO alertou para o risco da escassez de alimentos no mundo com o lockdown radical. Um cenário complexo trazendo vários dilemas — mas para os talibãs do confinamento total tudo sempre foi muito simples: não se mova.

Democracia de auditório

Democracia é roubar o Brasil e ir fazer palestra na USP para intelectuais de cabresto. […] Democracia é fingir fazer jornalismo e passar um ano inteiro escondendo indicadores de recuperação econômica — inclusive queda consistente da inflação — para depois transformar o preço da carne em tragédia nacional. […] Democracia é dizer que toda eleição vencida por candidato que atrapalha sua narrativa hipócrita foi fraudada em conluio com a Rússia e as tias do WhatsApp. Democracia é produzir fake news em veículos tradicionais fingindo combater fake news.

Obsessão pelo fracasso

A ruína dos Kirchner — de volta com Alberto Fernández, o poste de Cristina — inspirou diretamente as fraudes contábeis do PT no Brasil, culminando nas famosas pedaladas fiscais de Dilma Rousseff. O resultado foi a destruição da economia argentina e a maior recessão da História brasileira. Quem comemora a ressurreição dessa tragédia está mais para resistência sadomasô. Dois tipos de pessoa apoiam o populismo criminoso representado por Lula e cia que empobreceu a América do Sul para enriquecer uma quadrilha de políticos e empreiteiros: 1) os ignorantes que não superaram a devoção mística; 2) os letrados que usam essa fantasia progressista para esconder sua índole egoísta.

Catadores de lixo ideológico

 Não pense que é fácil viver como catador de lixo ideológico. É preciso ser sagaz, esperto como uma águia para ver a oportunidade. […] Contingenciamentos de verbas públicas para todas as áreas (inclusive educação) cansaram de acontecer em todos os governos — especialmente em inícios de mandato. Mesmo Lula, o ídolo dos acadêmicos, e Dilma, a musa dos intelectuais, congelaram e eventualmente meteram a tesoura em corte raso nas áreas sociais — até porque roubaram tanto que precisavam compensar de alguma forma. E a resistência democrática cultural sempre achou tudo lindo, para não estragar a cantilena que sustenta suas panelas — sempre cheias e imunes à crise.

Epidemia de hipocrisia

O mundo seria um lugar bem melhor com a chegada de uma vacina contra a hipocrisia. É a epidemia de alastramento mais vertiginosa no século 21. Ela é grave em vários campos — inclusive os de futebol. […] Vamos promover o futebol feminino — uma excelente iniciativa. E ele evolui bem, com atletas cada vez mais potentes e talentosas. Só uma coisa atrapalha: a demagogia. Em vez de tratar a modalidade em ascensão como ela é — em termos de performance, interesse do público e história —, os gênios do marketing não resistiram à tentação da feira moderna e partiram para a equiparação. Golaço (contra). Evocar Pelé para falar da Marta é uma crueldade com ela, que acabou topando o jogo e se tornou uma voz pelos direitos iguais. De desigual existem só algumas centenas de milhões de interessados a mais pela “categoria masculina”.

5 PERGUNTAS PARA GUILHERME FIUZA

Como o livro surgiu?

Recebi um convite da Faro Editorial para escrever uma continuação do Manual do Covarde, meu livro mais recente. No entanto, veio o coronavírus, que ocupou todos os espaços, e aí começou a nascer uma crônica em prosa sobre a pandemia. Nela, trato dos desmandos dos governos, das várias posturas hipócritas que foram aparecendo no noticiário e das falsas verdades que circulam por aí sobre o cenário brasileiro que se desenhou — por isso o título Fake Brazil.

No livro, você fala em um baile de máscaraspara ilustrar a hipocrisia do politicamente correto. Fale mais a respeito.

O baile de máscaras vinha acontecendo no Brasil faz tempo com a “febre” de buscar o que chamo de afetação de virtudes. Então, virou um mercado. A ideia do politicamente correto, que acho originalmente interessante porque propõe aplicar na vida princípios humanitários e democráticos, tornou-se apenas uma bandeira. Para ser comportado e polido, basta chamar o outro de racista e fascista. A chegada da pandemia foi o prato perfeito para isso. Ela ofereceu uma “ética mais forte” que as demais. Quem aderiu a essa ideia passou a acreditar que sua conduta era mais certa que a dos outros (o “fique em casa”, por exemplo, e as quarentenas eternas). Dessa forma, o baile de máscaras — que já existia, mas não era tão evidente — virou literal: mascarados, por causa do vírus chinês, patrulhando os outros.

Esse festival de besteiras é um fenômeno estritamente brasileiro ou mundial?

Mundial. A Alemanha, por exemplo, não está lidando corretamente com a questão da imigração. No percurso de seu mandato, a chanceler Angela Merkel foi empurrada por essa “grita” para tomar medidas populistas. Uma coisa é você ter seu país aberto e preparado para receber imigrantes, acolhê-los e inseri-los na sociedade, e outra é fazer demagogia inconsequente: entra quem quiser, vamos abrir cotas etc. Ações afirmativas exageradas segregam ainda mais. A indústria do politicamente correto não ajuda quem ela supostamente diz ajudar. As sociedades estão sendo desfiguradas por essas pautas éticas. Nos Estados Unidos, é um pouco diferente da Europa, porque a sociedade norte-americana ainda é mais pujante; dificilmente a demagogia impera por lá. A questão virou um problemaço no mundo todo, e a reposta está na pandemia.

Entre outros pontos, o livro apresenta críticas ao Supremo Tribunal Federal. Como você avalia a atuação da Corte?

[A atual composição] foi organizada para ser um tribunal chavista, como ocorreu na Venezuela, de modo a sancionar autoritarismos. Seus membros são superficiais e retóricos. Desde quando a Operação Lava Jato se firmou, ocorreu no STF uma resistência ao avanço civilizatório. A Corte tentou fazer a Lava Jato morrer na praia, melar o impeachment da então presidente Dilma Rousseff, fez e ainda faz movimentos contra o governo Bolsonaro, entre outras coisas. O STF de hoje é coalhado de membros autodenominados progressistas e que fingem lutar contra o “fascismo imaginário”.

Como você enxerga a discussão sobre a “vacina” contra o coronavírus?

Com desconfiança. Evidentemente, se tivermos uma vacina segura e eficaz em tempo recorde, será ótimo. Mas o que estamos vendo são tentativas de estabelecer medidas de vacinação sobre um imunizante que ainda não existe. Há um lobby muito forte. Requisições estão sendo feitas na OMS para aprovar vacinas com 50% de eficácia, o que é um absurdo. Esses e outros movimentos denotam pressa. Também vemos uma estranha tentativa de prolongamento do lockdown irracional para mostrar que você só vai viver se tomar uma vacina. Estão montando uma historinha. Sem contar a tentativa de tornar a medida obrigatória. Tudo isso é preocupante.

Leia também nesta edição o artigo “O Natal censurado de Borat”

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11 comentários

  1. Boa Cristyan !!!!
    Fomos apresentados hoje (sou novo assinante) por um texto bastante irreverente, honesto e (quase) didático.
    TAÍ, GOSTEI …..

  2. Não fora a frase “Como todo mundo já sabe e todo mundo já viu, o petismo já era”, diria que o artigo desse grande jornalista que é o Sr. Guilherme Fiuza estaria em sintonia com a mais pura realidade. Deveras, não está morto. Apenas ou “adormecido” ou vestindo novas roupagens.

  3. ótimo, lembrei do que eu lia na revista O Cruzeiro (não lembro de do Millor Fernandes ou do Stanislaw Ponte Preta) quando adolescente, era o FEPEAPA, ou seja Festival de Besteiras que Assola o País e tinha também o Ministério de Perguntas Cretinas, vocês da Oeste estão fazendo jornalismo de verdade (como antigamente) parabéns.

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