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Em julho de 1995, a cidade de Srebrenica, na Bósnia, foi palco de um genocídio, onde mais de oito mil muçulmanos bósnios foram executados pelas forças sérvio-bósnias, sob o comando de Ratko Mladić. A cidade, que havia sido declarada uma "zona de segurança" pela ONU, foi ocupada sem resistência, e os civis buscaram abrigo na base da ONU em Potočari. Entre 11 e 25 de julho, os homens e meninos foram executados em massa.
Enquanto a Europa acreditava ter deixado para trás os horrores dos campos de extermínio nazistas e dos massacres da Segunda Guerra Mundial, uma pequena cidade cercada por montanhas, no leste da Bósnia, tornou-se palco da pior atrocidade cometida em solo europeu desde 1945. Em poucos dias de julho de 1995, mais de 8 mil homens e meninos muçulmanos bósnios foram sistematicamente executados pelas forças sérvio-bósnias. O massacre de Srebrenica entrou para a história como um genocídio que chocou o mundo e expôs o fracasso da comunidade internacional em proteger milhares de civis indefesos.
Para entender essa tragédia, é preciso voltar ao início da Guerra da Bósnia. Com o colapso da Iugoslávia, no início da década de 1990 — devido à combinação de profundas crises econômicas, forte ressurgimento do nacionalismo étnico e o vácuo de poder deixado pela morte do líder Josip Broz Tito —, o país começou a se fragmentar, dando origem a novos Estados independentes. A Bósnia e Herzegovina declarou sua independência em 1992, mas a decisão foi rejeitada por parte da população sérvia e pelo governo de Slobodan Milošević, então presidente da Sérvia, que desempenhou um papel central ao oferecer apoio político, militar e financeiro às lideranças sérvio-bósnias. A partir de então, o país mergulhou em uma guerra brutal.
No leste da Bósnia, Srebrenica tornou-se um refúgio para milhares de muçulmanos bósnios (também chamados de “bosníacos”) que tentavam escapar das ofensivas sérvio-bósnias. Em 1993, as Nações Unidas declararam a cidade “zona de segurança”, prometendo protegê-la com um contingente de soldados de paz holandeses — conhecido como “Dutchbat“. No entanto, a promessa revelou-se tragicamente insuficiente.
Em 11 de julho de 1995, tropas do Exército da Republika Srpska (República Sérvia), comandadas pelo general Ratko Mladić — também chamado de “Carniceiro dos Bálcãs” — entraram em Srebrenica praticamente sem resistência. Os capacetes azuis da ONU, em número reduzido e com mandato limitado, não conseguiram impedir a ocupação da cidade.
Logo depois da tomada de Srebrenica, milhares de civis desesperados buscaram abrigo na base da ONU em Potočari, enquanto outros tentaram escapar a pé por florestas e montanhas rumo ao território controlado pelo governo bósnio. Foi então que começou o massacre. As forças sérvio-bósnias passaram a separar sistematicamente mulheres, crianças e idosos dos homens e adolescentes. As mulheres foram deportadas em ônibus para áreas controladas pelo governo da Bósnia. Já os homens e meninos — muitos com apenas 12 ou 13 anos — foram levados sob o pretexto de interrogatórios, mas, na realidade, estavam sendo conduzidos para a morte.

Entre 11 e 25 de julho, milhares de prisioneiros foram executados em escolas, galpões, armazéns, campos e clareiras. Muitos eram alinhados diante de valas comuns e fuzilados em grupos. Outros morreram tentando fugir pelas florestas, caçados pelas tropas sérvio-bósnias.
Para ocultar o crime, escavadeiras foram utilizadas para enterrar os corpos em valas coletivas. Meses depois, muitas dessas sepulturas foram reabertas e os restos mortais redistribuídos em valas secundárias e terciárias, numa tentativa deliberada de dificultar futuras investigações. Essa prática fragmentou inúmeros corpos, tornando o trabalho de identificação extremamente complexo.
Ao longo dos anos seguintes, equipes forenses recorreram a exames de DNA para identificar as vítimas. Ainda hoje, mais de três décadas depois, restos mortais continuam sendo encontrados e identificados, permitindo que famílias realizem enterros dignos de seus parentes.
O massacre provocou profunda indignação internacional e foi um dos acontecimentos que levaram à intensificação da intervenção militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) contra as forças sérvio-bósnias. Poucos meses depois, os Acordos de Dayton encerraram oficialmente a Guerra da Bósnia.
Nos anos seguintes, o Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia concluiu que os assassinatos em Srebrenica constituíram genocídio — a forma mais grave de crime prevista pelo direito internacional. Diversos líderes militares e políticos foram condenados, entre eles Ratko Mladić, sentenciado à prisão perpétua em 2017, e Radovan Karadžić, primeiro presidente da autoproclamada República Sérvia, condenado à prisão perpétua por genocídio, crimes de guerra e contra a humanidade.
Slobodan Milošević também foi acusado de genocídio e crimes contra a humanidade pelo Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia, mas morreu em 2006 antes da conclusão do julgamento, de modo que nunca houve um veredicto sobre sua responsabilidade criminal.


Srebrenica permanece como um símbolo doloroso do fracasso da comunidade internacional em proteger civis que estavam sob sua responsabilidade. A presença de uma “zona de segurança” da ONU não foi suficiente para impedir que milhares de homens e meninos muçulmanos bósnios fossem assassinados diante dos olhos do mundo.
Todos os anos, no dia 11 de julho, milhares de pessoas se reúnem no Memorial de Potočari para homenagear as vítimas. À medida que novos restos mortais são identificados, novos enterros são realizados, lembrando que o trabalho de reconstrução da memória ainda não terminou.


Daniela Giorno é diretora de arte de Oeste e, a cada edição, seleciona uma imagem relevante da semana. São fotografias esteticamente interessantes, clássicas ou que simplesmente merecem ser vistas, revistas ou conhecidas.
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Parabéns pela matéria. Chocante.
Reportagem sucinta e clara de uma tragédia cruenta e duradoura que foi escalando em uma violência indescritível, que dá continuidade, até os dias de hoje, a terríveis e macabras descobertas de restos humanos que foram espalhados para acobertamento do crime.
Parabéns Daniela, pela concisão de tantos eventos em um texto enxuto e completo.