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Ilustração: Montagem Revista Oeste/Gerado por IA
Edição 330

O crepúsculo dos apocalípticos

A indústria cinematográfica vence a resistência e adere à inteligência artificial

Confira o resumo que a OESTE.IA, a IA da Revista Oeste, fez pra você

O filme "Crepúsculo dos Deuses", de 1950, retrata a atriz Norma Desmond, que não se adaptou ao cinema falado e vive isolada em sua mansão, simbolizando a resistência às mudanças. Atualmente, a indústria cinematográfica enfrenta uma nova transformação com a chegada da inteligência artificial (IA), com investimentos significativos de empresas como Google e Disney em produções que utilizam essa tecnologia.

O filme Crepúsculo dos Deuses, de 1950 — obra-prima de Billy Wilder — conta a história de uma atriz de cinema chamada Norma Desmond, interpretada por Gloria Swanson. Norma teve seus anos de brilho na era do cinema mudo, quando foi considerada uma grande estrela de Hollywood. Mas veio o cinema falado e Norma Desmond não se adaptou. Sem receber convites para novos filmes, tranca-se em sua mansão na Sunset Boulevard, onde todas as noites liga o projetor de 16 milímetros para assistir a seus velhos filmes, mudos e em preto e branco. “Eu sou grande”, diz ela. “Foram os filmes que ficaram pequenos. Nós não precisávamos de diálogos. Nós tínhamos expressões faciais!”.

Mais do que uma grande personagem, Norma Desmond é um símbolo. Ela sintetiza a posição de quem resiste a qualquer mudança, de quem prefere sempre o passado a qualquer progresso tecnológico. Seu espírito está sendo lembrado agora que a arte do cinema está à beira de uma de suas maiores transformações. E enfrenta os arautos do apocalipse.

A Google anunciou que está investindo US$ 75 milhões na produtora A24 para, segundo a revista Techlife News, “desenvolver ferramentas de produção cinematográfica baseadas em IA, aproximando uma das maiores empresas de IA do Vale do Silício de um dos estúdios independentes mais influentes de Hollywood”. É o início do reconhecimento de que a inteligência artificial chegou oficialmente ao cinema. Vozes continuarão protestando contra esse “absurdo”. Sindicatos vão sugerir boicote, pois “empregos estão ameaçados”. Críticos torcerão seus narizes em desgosto porque “IA não é arte”. 

Para amenizar as críticas apocalípticas, a matéria da Techlife limita algumas das possibilidades do uso da IA no cinema: “testar cenas antes de serem rodadas, gerar esboços de conceitos visuais, organizar o material filmado ou acelerar tarefas de pós-produção”. Mas, como veremos adiante, filmes inteiros já estão sendo produzidos num computador. 

Ilustração: Montagem Revista Oeste/Gerado por IA

Tilly Norwood entra em cena

A parceria Google/A24 não é um caso isolado. Acordos semelhantes estão sendo realizados entre outros gigantes do entretenimento. A Netflix usou IA generativa na série argentina El Eternauta. A Amazon-MGM e a AWS estão utilizando uma plataforma chamada Project Nara para a criação de animações e séries com apoio de inteligência artificial, reaproveitando o catálogo da casa. A Disney fez um investimento de US$ 1 bilhão na OpenAI, num acordo que permite a geração de vídeos curtos com mais de 200 personagens animados das marcas Marvel, Pixar e Star Wars, além da própria Disney.

Estamos falando até agora da aceleração dos processos de produção. É aí que entra Tilly Norwood para dar um passo à frente. Tilly vai estrelar o longa Misaligned, produzido pela produtora britânica Particle 6. Ela é a primeira atriz assumidamente criada por IA. 

Tilly Norwood, atriz criada por inteligência artifical | Ilustração: Divulgação

Em Misaligned, Tilly faz o papel de um ser criado por inteligência artificial “sem corpo, sem infância e sem experiência de vida própria”, segundo matéria do site Deadline. Eline van den Velden, a criadora da atriz artificial, resumiu assim sua intenção com o filme: “Não apenas apresentaremos as ferramentas mais recentes e suas aplicações, mas também ajudaremos os cineastas tradicionais que integrarem a equipe a aprimorar suas habilidades e a fazer a transição para um mundo onde a IA desempenhará um papel cada vez mais importante. Continuamos empenhados em ajudar as pessoas a desenvolver competências em IA que garantam que elas — e a indústria — continuem prosperando.”

Ainda segundo Van den Velen, somente um emprego será prejudicado na produção do filme: o da protagonista. Mais de 30 profissionais — humanos — estão envolvidos no processo inicial de pré-produção. “A produção de Misaligned contará com profissionais tradicionais — como diretores, roteiristas e editores — trabalhando ao lado de especialistas em IA.”

Ilustração: Montagem Revista Oeste/Gerado por IA

A novidade se espalha

Este é um dos aspectos mais polêmicos — e promissores — desta era do cinema com IA. Fazer filmes costuma ser uma atividade muito cara e complexa. Pense numa ideia para um filme. Essa ideia terá que passar por uma multidão de financiadores, criadores, atores, produtores e técnicos antes de se tornar uma realidade comercializável. É um investimento de alto risco. 

E numa indústria de cinema como a brasileira, dependente de apoio estatal, a possibilidade de concretização da sua ideia, por mais brilhante que seja, vai ficar provavelmente aprisionada por limites políticos e ideológicos. É muito provável que a ideia não consiga ir além da sua imaginação.   

Em fevereiro deste ano, ocorreu em São Paulo a edição brasileira do WAIFF, o Festival Mundial de Filmes IA. Ali, deu-se o milagre. Foi possível assistir a produções ousadas, complexas, cheias de efeitos especiais que custaram praticamente nada. Não havia ninguém interferindo entre a criação da obra e sua realização. Eram os criadores e seus computadores. Imagine o quanto custaria um curta como TRUE, de Rodolfo Roth, se fosse realizado com recursos convencionais.

O mesmo pode ser dito de Hallucination, de Milton Montenegro, com sua história vagamente baseada no romance O Processo, de Franz Kafka.

Com toda oposição à produção por inteligência artificial, o Festival WAIFF está se espalhando: novas edições serão realizadas em Buenos Aires, Londres, Istambul, Los Angeles, Abidjan, Seul, Tóquio e Beijing. Em São Paulo, o próximo evento vai acontecer em março de 2027.

Mudanças assustam

A história do cinema é uma sequência de mudanças tecnológicas, e muitas delas causaram preocupação e medo entre os profissionais da área. Até 1891, havia apenas o registro de imagens em equipamentos precários como o zootrópio e o epidascópio (a chamada “lanterna mágica”). No fim do século 19, o cinema virou um espetáculo, sendo exibido em telas para plateias, que se assustavam com as imagens que se moviam.

A partir de 1900, os filmes passaram a ser editados e se transformaram em narrativa. Dez anos depois criou-se a indústria do cinema, com estúdios, cenários, laboratórios e estrelas contratadas. Nos anos 1920, surge a iluminação artificial, libertando as produções das condições meteorológicas. É a era de deuses das telas como Charlie Chaplin, Greta Garbo, Rodolfo Valentino e Buster Keaton. 

O ano de 1927 traz um profundo choque com o primeiro filme falado, The Jazz Singer. A crise se espalhou entre atores e atrizes que se davam muito bem nos filmes mudos, mas não sabiam lidar com a voz. Esse é o tema do clássico Cantando na Chuva.

Nos anos 1950, surge uma das maiores crises do cinema: a televisão. Muitos diziam que a arte cinematográfica morreria, pois as pessoas abandonariam as salas de cinema para ficar em casa assistindo à TV. Hollywood reagiu tornando a experiência dos filmes mais espetacular, com as enormes telas do Cinerama, os filmes em 3D e a fotografia em CinemaScope.

A década de 1980 traz outro susto: o home video. Todo mundo podia assistir a filmes (em fitas VHS) no conforto de casa. Os alarmistas entraram em campo: o cinema, de novo, ia acabar. Essa década traz ainda a revolução da computação gráfica, que atinge seu ponto de maturidade em 1993 com Jurassic Park. Criadores de personagens mecânicos (os animatronics) e trucagens físicas se tornam cada vez menos necessários. 

O ano de 1995 traz Toy Story, o primeiro longa de animação totalmente produzido em computador. Mais crise: muitos animadores tradicionais, que pintavam a mão frame por frame e cenário por cenário os desenhos animados, sentem-se ameaçados. Outros aprendem a usar o computador. Em 1999, George Lucas filma a segunda trilogia de Star Wars com câmeras digitais. Agora a crise é na indústria de filmes de celuloide.

Ilustração: Montagem Revista Oeste/Gerado por IA

Um chá com Norma Desmond

Nos anos 2000, filmes como a série O Senhor dos Anéis e Avatar introduzem a “captura de movimento”. Já não existe uma divisão clara entre o ator e o personagem computadorizado. Os atores podiam ter sua idade modificada, como mostrou o filme O Estranho Caso de Benjamin Button. Em 2010, o conceito de distribuição muda de novo com a revolução do streaming. De novo: agora sim, os cinemas vão fechar de vez.

E em 2023 chega a vez da inteligência artificial ser usada praticamente em todos os estágios de produção dos filmes e séries — roteiro, direção de arte, storyboard, sonorização, tradução, rejuvenescimento, edição, efeitos visuais, e até geração de cenas. Como em toda a história do cinema, alguns profissionais são prejudicados. Novas categorias e especialistas surgirão.

É assim que se faz História — para a frente. Os paranoicos que quiserem lutar contra essa nova onda de progresso tecnológico têm uma opção: encaminhar-se para a mansão de Norma Desmond, na Sunset Boulevard, e passar a noite tomando chá com ela, assistindo a velhos filmes mudos com o barulhento projetor de 16 milímetros.


dagomirmarquezi.com
@dagomirmarquezi

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3 comentários
  1. Mariza
    Mariza

    O único fator que irrita sobre IA é o indivíduo comprar um smartphone para seu uso particular e ser incomodado com pop ups tentando forçar a pessoa a usar o IA do sistema. Qual o problema do cara usar seu próprio minúsculo QI apenas? Revoltante. Buscando alternativas para próxima aquisição. Liberdade de escolha é fundamental para a manual da dignidade humana! Acredito nisso, não em 1984…

  2. gilson roberto cardoso de oliveira
    gilson roberto cardoso de oliveira

    Depois de sobreviver a décadas de mudanças tecnológicas o que talvez mate o cinema será a produção INTENCIONAL e DELIBERADA de filmes ruins. (supergirl, capitã marvel. AS caça-fantasmas. flash… etc).

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