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Cuiabá recebeu um mega leilão de gado no Allure Music Hall, organizado pela Estância Bahia, em 17 de maio, com a participação de centenas de pecuaristas. O evento, que arrecadou mais de R$ 1,3 milhão para o Hospital de Câncer do Mato Grosso, contou com a doação de 32 bezerros para venda e arrecadou mais de R$ 1,3 milhão. Os leilões, cada vez mais bem organizados e tecnológicos, revelam a força da pecuária no Brasil — o maior exportador de carne bovina do mundo.
No espaço de 2,5 mil metros quadrados, painéis de LED azuis e vermelhos iluminam o ambiente, enquanto feixes brancos sobem, descem e cruzam o recinto em movimentos sincronizados. As bebidas são gratuitas e o cardápio inclui cerveja mexicana e uísque escocês. Sob uma estrutura suspensa formada por quatro telões, visíveis de qualquer ponto do salão, fica o palco que ocupa a área central. Em poucos minutos, quem subirá ali não será um cantor de rock, um astro do sertanejo nem qualquer outro artista famoso. As centenas de pessoas acomodadas nas dezenas de mesas, enfileiradas em um ambiente perfeitamente climatizado, aguardam o início do mega leilão de gado Estância Bahia, um dos maiores do país.
O evento, que acontece no bairro Ribeirão do Lipa, em Cuiabá, contrasta com os antigos pregões realizados em pistas de terra, nos quais os animais eram conduzidos numa arena, diante do público que assistia a partir de uma arquibancada. Os criadores de gado que chegam ao Allure Music Hall vestidos de camisa social, calça jeans e chapéu de boiadeiro, conhecerão os bezerros, vacas e bois à venda por meio dos vídeos gravados nas próprias fazendas — e dos fartos documentos que mostram a origem do animal e a qualidade da prole já gerada.
“Temos de deixar o gado na fazenda”, explica Maurício Tonhá, fundador da Estância Bahia, empresa organizadora do evento. “O modelo antigo provoca estresse e prejuízo ao rebanho, por isso mudamos a forma de fazer os leilões. Fora os custos, a perda de peso e os acidentes registrados enquanto transportam os animais.”

De camisa branca, cabelos grisalhos e postura serena, Tonhá cumprimenta os presentes sem pressa. O leiloeiro Adriano Barbosa sobe ao palco e anuncia o primeiro lote. A tranquilidade dá lugar a uma narração vertiginosa. Enquanto uma pessoa costuma pronunciar cerca de 25 palavras a cada dez segundos, o leiloeiro, no calor dos lances, pode ultrapassar 50 no mesmo intervalo. O ritmo lembra o dos narradores esportivos de rádio nos momentos decisivos de uma partida de futebol e se mistura aos gritos dos quatro pisteiros, auxiliares encarregados de identificar os compradores espalhados pelo recinto.
O objetivo da primeira venda não é lucrar, mas arrecadar recursos para o Hospital de Câncer do Mato Grosso (HCan). A remessa, formada por 32 bezerros da raça Nelore, com peso médio de 250 quilos, é doada por Renê Barbour, da Fazenda Jauquara, próximo à cidade de Barra dos Bugres, a 170 quilômetros de Cuiabá. “Sei o sofrimento e a angústia que minha família passou”, diz o pecuarista de fala mansa ao lembrar do câncer que a filha teve de enfrentar. “Imagino aqueles que não têm condições financeiras para lutar contra a doença.”
Não demora 15 minutos para o lote ser adquirido por Blairo Maggi, ex-ministro da Agricultura e ex-governador de Mato Grosso, pelo valor de R$ 1 milhão. Depois de vencer o lance, Maggi devolve os animais para um novo leilão, com o objetivo de ampliar a arrecadação para o hospital. A segunda rodada é arrematada pela própria Estância Bahia por R$ 192 mil. Somadas as doações espontâneas de outros participantes, a arrecadação supera os R$ 1,3 milhão. A doação é celebrada por todos os pecuaristas presentes no evento.
O leilão não para. Enquanto muitos pecuaristas acompanham os próximos lotes, outros fazem fila para o almoço servido num buffet de alto padrão. Os que continuam sentados à mesa conversam. Alguns acompanham os lances para se informar sobre a valorização dos animais. Muitos preferem comprar os que são destinados ao abate. Outros querem levar às fazendas exemplares que reforcem a qualidade genética de seus rebanhos.
Antônio Rezende, por exemplo, trabalha há 30 anos com melhoramento genético. Só nesse leilão, o pecuarista colocou à venda 3 mil fêmeas da raça Nelore. “É fruto de um trabalho de longo prazo”, explica. “Vendemos de 1,2 mil a 1,3 mil touros por ano. Disponibilizamos genética para quem precisa deixar o gado mais fértil, rústico e produtivo.” No total, 20 mil animais foram leiloados no evento em 170 lotes. Mais de 50 vendedores participaram do mega leilão, que ocorreu em maio deste ano e movimentou R$ 85 milhões.
A importância de Mato Grosso para a pecuária
A soma de dinheiro movimentada em apenas um dia de leilão mostra a força de Mato Grosso no agronegócio brasileiro. Segundo dados do IBGE, o Estado concentra 34 milhões de cabeças de gado, o equivalente a 14% do rebanho nacional. Nenhum outro Estado possui um rebanho desse tamanho. Além disso, os mato-grossenses lideram a produção e a exportação de carne bovina. Em 2025, foram mais de 7 milhões de cabeças abatidas. As exportações, por sua vez, cresceram quase 30% no ano passado e alcançaram uma receita superior a R$ 20 bilhões.
Fernando Conte, presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), diz que algumas mentiras espalhadas por ONGs e políticos são o que atrapalham o avanço do agro no Estado. “O setor sofre com a falta de comunicação”, afirma. “Há narrativas que não correspondem à realidade da produção pecuária de Mato Grosso. Estamos ligados ao desmatamento, mesmo sendo o Estado que mais preserva. Somos campeões de produção de soja, milho e gado.”
O agronegócio é o maior empregador de Mato Grosso — responde por quase 25% das vagas formais. A criação de bovinos para corte foi uma das atividades que mais gerou empregos no começo deste ano. Foram cerca de 800 vagas em janeiro. No ano passado, o Estado registrou quase 6 mil novos empregos formais somente na agropecuária.

A força do agronegócio no Brasil
Enquanto o governo trata o agro com hostilidade, e o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva o classifica como “fascista”, milhares de produtores trabalham duro para movimentar a economia brasileira. O PIB do agronegócio ultrapassou os R$ 3 trilhões em 2025 — 25% de toda a economia brasileira — e empregou cerca de 30 milhões de pessoas. Esse número corresponde a 26% dos postos de trabalho do país — um de cada quatro trabalhadores brasileiros atua na cadeia do agro.
Os grandes leilões são parte importante dessa engrenagem. O evento realizado pela Estância Bahia integra o circuito de grandes remates que inclui os leilões da Guadalupe, os remates promovidos durante a ExpoZebu, o Cataratas Collection, o Programa Leilões e o Elo de Raça, entre outros. Tais encontros atraem compradores de todo o país em busca de animais comerciais e de genética superior, movimentam milhões de reais e ajudam a formar os preços dos rebanhos.
Em 2023, a Nelore Viatina-19 FIV Mara Móveis entrou para o Guinness como a vaca mais cara do mundo, avaliada em R$ 21 milhões. No ano seguinte, o recorde foi quebrado por outra Nelore brasileira, Carina FIV do Kado, vendida por R$ 24 milhões. O interesse dos compradores não está na carne desses animais, mas na capacidade de transmitir às futuras gerações características genéticas superiores.
Adriano Apolinário Leão de Oliveira, diretor do Sindicato Nacional dos Leiloeiros Rurais (SNLR), afirma que não há um dado oficial que mostre quantos leilões de gado ocorrem no Brasil anualmente. Contudo, ele diz que “algumas entidades do setor falam em mais de 12 mil eventos”. Isso equivale a 34 leilões por dia. “Existem centenas de pequenas empresas espalhadas pelo interior que realizam leilões menores e com pouca visibilidade”, explica. “Esses leilões não são contabilizados.” Segundo Oliveira, estima-se que 7 milhões de cabeças de gado são comercializadas todos os anos nesses eventos — o equivalente a 19 mil por dia. Ou 13 por minuto. O volume ajuda a explicar a dimensão da pecuária brasileira. O país abriga um rebanho de 238 milhões de bovinos, número superior à população brasileira, estimada em 212 milhões de habitantes.
O sucesso do agronegócio brasileiro se reflete nos leilões de gado. Os telões, as luzes e o palco dão a aparência de um grande espetáculo. Mas os protagonistas são os rebanhos e os pecuaristas. Deles nasce a cadeia produtiva que alimenta milhões de pessoas, fortalece a economia e transforma o país no maior exportador de carne bovina do mundo, com embarques para mais de 150 países.
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